Depois da constatação, as dúvidas e as culpas. A infeção da enfermeira de 40 anos, que se seguiu à de dois missionários, já falecidos, deixou Madrid – e toda a Espanha (e Europa) – em alerta pelo risco de contágio. As vozes dividem-se, com a direção do hospital e o Ministério da Saúde a garantirem que os procedimentos foram todos tomados em nome da segurança da população, e os profissionais de saúde a afirmarem por a + b que os fatos usados para prestar cuidados aos dois sacerdotes não seguiam os requerimentos necessários. Já o especialista em vírus Luis Enjuanes, não tem dúvidas de que pode ter sido um “erro humano”.

De acordo com a equipa de profissionais de saúde que falou ao jornal El País, os fatos isoladores que vestiram para atender os doentes infetados, que até ao fim do mês estiveram a receber tratamento no hospital Carlos III, ficavam aquém dos fatos exigidos pela Organização Mundial de Saúde para este tipo de situações altamente contagiosas. Segundo um dos profissionais, Miguel Ángel Medina, as normas indicam que a indumentária deve obedecer a uma segurança biológica de nível 4, ou seja, devem ser completamente impermeáveis e com um mecanismo de respiração autónoma. Para Miguel Ángel Medina, no entanto, o equipamento usado durante o tratamento prestado a Miguel Pajares e Manuel García Viejo era apenas de nível 2. 

As fotografias facilitadas pelo pessoal do hospital ao El País mostram isso mesmo: não tem sistema de ventilação e as luvas, além de serem de látex, eram separadas do resto do traje, estando apenas fixadas com fita adesiva. A crítica vai ainda no sentido de que o risco aumentou por o hospital não ter sido evacuado e por os resíduos e destroços tirados dos quartos dos dois sacerdotes, depois de terem morrido, terem sido transportados pelo mesmo elevador usado pelo resto da equipa.

Foto El País

Foto El País

A mesma teoria é reforçada pelo presidente do Concelho Geral de Enfermagem, Máximo González Jurado, que disse à agência Europa Press ter recebido no fim de semana um “relatório muito bem documentado” sobre o protocolo seguido pelos hospitais que estão a tratar possíveis casos de ébola, onde se diz que “as medidas são muito seguras do ponto de vista de saúde pública, enquanto do ponto de vista laboral apresentam muitos problemas“. Ou seja, poderão não ter sido tomados todos os cuidados no que diz respeito à segurança dos profissionais de saúde.

“Não nos adianta de nada passar panos quentes”, disse González Jurado à mesma agência de notícias, acrescentando que “alguma coisa falhou e isso não pode ser permitido”. “Vamos pedir às autoridades de saúde uma investigação em profundidade e se nada for feito tomaremos as medidas necessárias”, disse. Também Daniel Bernabéu, da Associação de Médicos de Madrid, expressou à EFE, “consternação e indignação” perante o contágio da enfermeira.

Esta, no entanto, é apenas uma das versões dos factos. Yolanda Fuentes, subdiretora do Hospital Carlos III, nega todas as críticas sobre o não cumprimento das medidas de segurança: “os fatos cumprem perfeitamente o protocolo e as medidas de proteção requeridas para esta situação”, disse. Apesar de reconhecer que as luvas, de facto, eram independentes do resto do fato, garante que “cumprem o protocolo para o ébola” e que a OMS não exigiu nenhuma proteção adicional para este caso. A dirigente do hospital, segundo a imprensa espanhola, negou também que os resíduos tenham seguido a rota denunciada pelo pessoal técnico. “Aquele elevador estava bloqueado para esses pacientes”, disse.

A verdade é que, cumprindo ou não o protocolo, alguma coisa falhou durante o tratamento dos dois sacerdotes contagiados com o vírus. “Isto só se explica por algum erro humano”, defende ao El Mundo Luis Enjuanes, médico especialista em alguns dos vírus mais perigosos do mundo. “A grande vantagem do ébola é que não se transmite pelo ar, pelo que se se usar o equipamento adequado e se se estabelecer o isolamento requerido não há maneira de haver contágio”, continua, apontando como única causa provável o facto de a enfermeira infetada “ter tocado em algum material biológico do infetado, como as fezes ou a urina”.

Marido isolado e 21 pessoas identificadas

Mas depois do contágio, é preciso agir. E isso passa por, numa primeira fase, mapear as relações e isolar todas as pessoas que estiveram de alguma forma em contacto com a enfermeira afetada, para que também estas não passem o vírus a mais ninguém. A doente, que segundo os médicos está “estável” e a colaborar nesta tarefa, começou por ser internada no hospital de Alcorcón, no sul de Madrid, antes de ser transferida de ambulância para o Carlos III.

O marido, segundo informações dadas esta manhã pelo Centro de Alertas e Emergências Sanitárias do Ministério da Saúde, já se encontra isolado por uma questão de precaução – foi quem mais teve contacto com a doente. Tirando este contacto de risco, o hospital de Alcorcón já identificou outras 21 pessoas que tiveram algum tipo de contacto com a enfermeira infetada, desde o pessoal da ambulância que a transportou desde a sua casa até aos profissionais que intervieram no seu tratamento inicial. Estes não estão em quarentena, nem apresentam quaisquer sintomas, mas deverão submeter-se a vigilância apertada para monitorizar os sinais de febre.

A enfermeira madrilena, de quem não se conhece mais nada a não ser que tem 40 anos e que é casada, sem filhos, tinha ido duas vezes a cada de García Viejo, um dos sacerdotes infetados – uma para prestar tratamentos, outra já depois da sua morte, a 25 de setembro, para recolher resíduos. Presume-se que foi num desses momentos que se estabeleceu o contacto, mas não se sabe precisar o que falhou.

A mulher terá ido de férias no dia a seguir à morte dos pacientes e durante esse tempo respeitou o protocolo, que exige medições de temperatura duas vezes por dia. No dia 30 de setembro de madrugada terá comunicado que tinha “sintomas vagos”, com uma febre de “menos de 38,6 graus”. Perante os indicadores, a enfermeira voltou a Madrid, tendo pedido para ser vista com mais atenção uma vez que a febre começou a aumentar para temperaturas significativamente mais elevadas. Foi nessa altura que se fez um primeiro diagnóstico, confirmado por um segundo.

Sobre o risco de novos casos, a diretor-geral de Saúde Pública, Mercedes Vinuesa, admitiu que “é uma probabilidade, nunca pode ser zero”, mas que no caso de Espanha é uma probabilidade menor do que noutros países, nomeadamente africanos, já que “foram ativados os planos para obter medicamentos experimentais”.