Michael Ignatieff abriu a conferência “À procura da liberdade” com um alerta sobre os estados capitalistas iliberais e ausência do primado do direito em países como a China e a Rússia. Deu o mote para o fim de semana, mas neste conceito teórico mostrou também parte do seu percurso original.

Filho de um diplomata russo-canadiano, Ignatieff passou grande parte da juventude a viajar pelo mundo, conquistando uma educação verdadeiramente global quando isso ainda era uma raridade. Acumulou uma importante carreira académica em Oxford, Cambridge e Harvard com uma relação intensa com os media, onde se destaca a série sobre nacionalismos que apresentou para a BBC. Em 2006 decidiu regressar ao Canadá para tentar a sorte na política, tendo sido eleito líder do Partido Liberal e candidato a primeiro-ministro em 2011. A aventura terminou mal, com o pior resultado de sempre dos liberais, mas não impediu o regresso à academia para continuar a refletir sobre o mundo e as liberdades individuais e coletivas.

Nesta conversa, Michael Ignatieff parte do modo como as democracias não liberais – nomeadamente a China e a Rússia – lidaram com a ascensão da classe média. Fizeram-no permitindo uma série de liberdades privadas, nomeadamente na aquisição de bens, mas limitando fortemente as liberdades públicas, criando um novo tipo de nação com originalidades sociais:

É muito difícil dizer que existe estado de direito. Existe o direito imposto pelo estado. Mas não existem poderes judiciários independentes. Por outras palavras, o que há é o direito imposto por Putin e o direito imposto por Xi Jinping.

E isso tem consequências a nível global. Não que exista ainda um bloco iliberal, mas certamente que há consequências para a ordem internacional que limitam a resolução de situações como a da Síria, porque o conselho de segurança da ONU está bloqueado.

“A Rússia e a China votam em conjunto no conselho de Segurança das Nações Unidas. Não são um bloco porque ainda são rivais. (…) Ambos detestam os Estados Unidos, e isso une-os. O inimigo do meu inimigo é meu amigo.”

Sobre a situação europeia e em concreto para Portugal, Ignatieff receia que a ideia de meritocracia esteja ameaçada, em particular para as gerações mais jovens. O desemprego jovem está a ameaçar a progressão social e, embora a maleabilidade europeia ajude a esbater este problema, Ignatieff insiste na necessidade de reformar as políticas europeias de trabalho.

“Acho que a Europa deve aprender com a flexibilidade do mercado de trabalho norte-americano porque está a dar emprego às pessoas. Não são grandes empregos, mas servir hamburguers no McDonald’s é melhor que estar sentado em casa sem fazer nada, a ver televisão e a sentir-se desesperado. Esse é o desafio da nossa geração.”

Na última parte da entrevista falou-se, como era inevitável, da passagem pela política de um homem que lidou com ideias grande parte da vida. E o que fica é um retrato misto de alguém que falhou e que sabe que falhou mas que mantém o fascínio pelo sistema democrático que permite que as sociedades melhorem.

Ninguém quer saber de políticas mas sim de caráter e de personalidade e isso pode ser frustrante. Chegamos à política com ideias e a única coisa que as pessoas notam é a gravata e o fato, ou se temos um sorriso bonito e isso é frustrante.

Mas vou sempre considerar uma honra ter servido na política. (…) Não era muito bom na política, mas saí de lá com imenso respeito e admiração pelos políticos bons e honestos que fazem o sistema funcionar.

 

Tradução de Francisco Ferreira