Faltam 23 minutos para as seis da tarde quando um casal passa, de braço dado, em frente a uma das portas laterais do Ministério das Finanças – “é o Orçamento!”, explica a mulher perante o franzir de testa do homem ao olhar para o aparato de carrinhas estacionadas em cima do passeio e cabos que entram numa janela.

Pela parede do 1C da Avenida Infante D. Henrique trepam metros e metros de cabos que entram pela janela até chegarem ao Salão Nobre do Ministério das Finanças. “São precisos uns 100 metros”, é um rolo inteiro, uma bobina, diz um dos responsáveis por estender os fios pretos que ligam o carro de exteriores de uma das televisões às duas câmaras que esse canal tem no local onde Maria Luís Albuquerque vai apresentar o Orçamento do Estado. Os carros já lá estão desde as três da tarde, três horas antes da hora prevista para o início. Prevista, mas a isso já lá vamos.

A antecedência assume importância reforçada num acontecimento destes: os carros de exteriores das televisões procuram chegar primeiro para conseguir um lugar melhor, os jornalistas que chegarem mais cedo conseguem ser os primeiros a fazer perguntas.

Há dois anos “acabou-se a ditadura das tv’s”, conta o editor de Economia da rádio TSF. Hugo Neutel chegou às quatro e meia da tarde – “vim mais cedo precisamente por causa disso” – e foi o segundo a questionar a ministra das Finanças, a seguir à jornalista da TVI. “Antigamente era uma confusão, uma discussão por causa da ordem das perguntas, e era sempre dada prioridade às televisões, mas isso mudou, passou a ser por ordem de chegada”.

Hugo Neutel, editor de Economia da TSF (o primeiro à direita)

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“Vai, vai lá arranjar o cabelo à casa de banho que isso não está muito bem”. O conselho é de uma jornalista de um canal televisivo para outra e motiva uma gargalhada de quem está à volta. E é nessa altura, precisamente, que das colunas do Salão Nobre sai um “um, dois, um, dois, três”.

José Lemos senta-se na cadeira que há-de vir a ser ocupada pela ministra das Finanças para fazer os testes de som da mesa. Perante vários “ok” ou “check”, desliga o microfone e levanta-se. Este é o 11º Orçamento do Estado que faz, é funcionário da Autoridade Tributária (AT) há 12 anos, do departamento de audiovisuais, e apesar de a função principal ser fotografar, dá uma “perninha em tudo”, som incluído. Mas puxando mais para área de especialidade, a fotografia, quem é, afinal, mais fotogénico, Vítor Gaspar ou Maria Luís Albuquerque? “Manda a regra da boa educação dizer que ela é mais fotogénica, aliás todas as mulheres são mais fotogénicas do que os homens”.

Ali ao lado, voltando ao som, atrás da mesa que distribui o sinal para as televisões e rádios está Alberto Moreira, também funcionário da AT, que vai já para o 20º Orçamento. Levanta a cabeça e diz com uma certeza inabalável que na sala estão “uns 50 jornalistas”. Já se viram dias mais animados, atira, “na altura da troika chegámos a ter perto de 100 nesta sala, casa cheia!” Era, conta Alberto Moreira, relativamente normal nesses tempos ter 20 câmaras de televisão no Salão Nobre, hoje não eram mais de dez.

Os minutos passam. As televisões e as rádios estão em direto. O relógio diz que já passa da hora. São seis da tarde e quase dez minutos quando Thomas Fischer diz: “Se ainda fosse o Vítor Gaspar já estava ali”. Ali é a cadeira com almofada estofada a vermelho onde supostamente Maria Luís Albuquerque estaria às seis horas. O alemão, Thomas Fischer, vive em Portugal há “30 e tal anos”, é correspondente do jornal suíço “Neue Burcher Beitung” e colabora com a televisão alemã ZDF. À pontualidade Thomas acrescenta outra característica de Gaspar, o antecessor da ministra das Finanças, “tinha uma maneira drástica de dizer coisas drásticas”. Conversamos durante alguns minutos e Thomas Fischer lembra alguns nomes que já viu sentarem-se naquela mesa, “Gaspar, Teixeira dos Santos, Ferreira Leite, Pina Moura, Guilherme de Oliveira Martins…” Falamos também de uma das mudanças deste Orçamento, o primeiro “pós-troika” desde o último resgate: “é uma situação menos dramática, mas Portugal continua na mira, por exemplo, eu hoje só devo ter de escrever alguma coisa para a edição online e amanhã para o papel. Nos outros anos pediam com muito mais urgência.”

Ao olhar novamente para o relógio, Thomas Fischer dispara: “E quando é que isto começa?” Passam 25 minutos das seis quando um dos assessores de Maria Luís Albuquerque anuncia que será necessário esperar “mais um bocadinho”. É um bocadinho de sete minutos. Às 18:32 a ministra das Finanças chega ao Salão.

As primeiras palavras são para “pedir desculpas” pelo atraso. E desde esse momento, e até à parte das perguntas, não mais se viu um jornalista de cabeça levantada. Ouviam-se três coisas na sala: a voz de Maria Luís Albuquerque a apresentar o documento, os disparos dos flashes e as teclas dos computadores dos jornalistas. De tempos a tempos juntava-se um outro barulho a estes sons. E era mesmo um barulho. Uma interferência, como quando estamos a ouvir rádio e um telemóvel toca perto. O “fenómeno” foi ganhando protagonismo e os assessores de imprensa do Ministério das Finanças tentaram perceber qual seria a fonte e resolver aquilo. Uma funcionária do ministério aproximou-se dos Secretários de Estado Manuel Rodrigues e José Luís Martins. Ao que tudo indica seriam os iPad’s os responsáveis pela interferência.

Se os dois acederam ao pedido não se sabe, certo é que o barulho voltou a fazer-se ouvir mais umas quantas vezes. Mesmo não livre de interferências, a apresentação do Orçamento de Estado terminou 57 minutos depois de ter começado. Maria Luís Albuquerque saiu sorridente do Salão Nobre. No final ouviu-se um dos membros do Ministério das Finanças dizer a uma das assessoras de imprensa: “Correu lindamente”.