“A morte é uma perda”, mas “viver demasiado também é uma perda”. A família acredita que daqui a 18 anos, quando a ampulheta do tempo chegar ao fim, Ezekiel Emanuel vai desistir, vai querer viver até aos 80, depois até aos 85 ou até aos 90. Mas não. O oncologista americano diz estar certo da vontade de não viver mais que os 75 anos. E porquê? Diz o médico que, apesar dos avanços da medicina, viver muito tempo é arriscar viver sem qualidade.

“Mas aqui está uma verdade simples a que muitos de nós continuamos a resistir: viver muito tempo é também uma perda”, escreveu Ezekiel Emanuel, num artigo publicado na The Atlantic em setembro e que virou os holofotes para a questão lançada pelo oncologista, diretor do departamento de bioética do Instituto Nacional de Saúde norte-americano.

Mas a vontade de Ezekiel, que preocupa tanto os familiares não significa que vá cometer suicídio ou que queira recorrer à eutanásia quando os 75 baterem à porta. Esclarece o médico que esta posição é uma chamada de atenção para aquilo que ele acredita que seja a idade para uma vida já cumprida e não demasiado comprida. Ou seja, esclarece: “Estou a falar sobre quanto tempo mais eu quero viver e sobre o tipo e quantidade de cuidados de saúde que consinto receber depois dos 75 anos”.

Mas os argumentos do americano não passam apenas pela aspiração pessoal. No texto publicado na Atlantic, Ezekiel Emanuel fala também do problema de demografia. Mas mais que isso centra-se na qualidade de vida que se espera ter ao envelhecer. Ou seja, para o homem que quer morrer aos 75 anos, a vida não acaba de repente, como se a vida sem problema se prolongasse até à morte “sem dor ou deterioração física”.

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Todos os argumentos do médico vão no sentido de rejeitar aquilo que chamou de “americano imortal” que se entope em vitaminas e faz exercício físico para estender o tempo de vida. “Eu rejeito esta aspiração” diz, chamando mesmo a este estilo de vida um “desespero maníaco” que pode ser “potencialmente destrutivo”. E por isso conclui: “75 é uma bela idade para aspirar a parar”.

O artigo da Atlantic chamou a atenção, mas esta quarta-feira, Ezekiel volta a ser notícia depois de ter estado presente numa conferência. A BBC relata que o médico defende um debate sobre a aceitação da morte natural em toda a vida adulta. Uma posição que os filhos deles estão habituados a ouvir “desde que usavam fraldas”, confessa.