Crise no GES

Para onde foram os depósitos que saíram do BES?

Quatro maiores bancos nacionais ganharam cerca de 5,5 mil milhões de euros em depósitos após o colapso do BES. O Estado atraiu valores recorde de poupanças para os certificados de aforro e do tesouro.

Perda de depósitos do BES acelerou em julho, o mês anterior à resolução imposta ao banco.

AFP/Getty Images

BCP, BPI, Caixa Geral de Depósitos e Santander Totta viram aumentar os depósitos num montante de cerca de 5,5 mil milhões de euros no terceiro trimestre de 2014, período que ficou marcado pelo colapso do Banco Espírito Santo (BES). Os números agora divulgados revelam que a fuga de depósitos do BES fez aumentar os recursos ao dispor dos outros bancos. E o Estado também beneficiou.

A banca está na linha da frente para assumir eventuais prejuízos que resultem da medida de resolução aplicada ao Banco Espírito Santo (BES). Se a venda do Novo Banco não gerar, como se prevê atualmente, uma receita equivalente aos 4.900 milhões de euros injetados na instituição, os bancos terão de assumir o prejuízo. A começar pela responsabilidade de reembolsar o empréstimo de 3.900 milhões de euros concedido pelo Estado.

Mas enquanto não chega a hora de fazer as contas, os principais bancos a operar em Portugal estão a ganhar negócio com o colapso do terceiro maior grupo financeiro português. Este efeito já é visível nas contas do terceiro trimestre reveladas nos últimos dias pelos três principais bancos nacionais.

BCP, BPI, Caixa Geral de Depósitos e Santander Totta registaram crescimentos importantes ao nível dos depósitos nos resultados do terceiro trimestre, quando no primeiro semestre deste ano, esta rubrica estava a cair ligeiramente no mercado doméstico, pelo menos em algumas das instituições.

O último dos quatro grandes a revelar os resultados trimestrais foi o Santander Totta que esta quarta-feira anunciou uma subida de 8,2% nos depósitos no terceiro trimestre, o que equivale a mais de 1.550 milhões de euros. O comunicado, onde não é feita referência à resolução do BES, sublinha um crescimento de 6,2% nos depósitos dos particulares e um salto de 13,5% no caso das empresas neste período.

Entre junho e setembro, o BCP e o BPI captaram mais 1.500 milhões de euros, em termos líquidos, em depósitos. O principal beneficiário da crise do BES terá, contudo, sido a Caixa Geral de Depósitos. O banco do Estado é sempre o primeiro refúgio em momentos de incerteza e instabilidade no setor financeiro.

As contas do trimestre apontam para um crescimento de cerca de três mil milhões de euros nos depósitos captados pelo banco do Estado entre o final de junho e setembro. A Caixa não revela qual é a dimensão dos depósitos no mercado nacional – os valores surgem consolidados e incluem operações internacionais – mas, segundo o Observador soube, os depósitos de clientes em Portugal cresceram 2.400 milhões de euros em três meses. Foi um progresso de quase 5% face aos recursos captados no final de junho.

No comunicado, a CGD destaca que, no caso das empresas, onde o BES era um banco forte, se verificou uma subida de 17,3% nos depósitos relativos ao mercado português.

Os concorrentes diretos do BES não foram os únicos a atrair mais poupanças neste período. Desde julho que o investimento dos particulares em dívida pública subiu para valores mensais superiores a 500 milhões de euros. Nos primeiros seis meses do ano, as poupanças líquidas aplicadas em certificados de aforro e tesouro rondaram 300 milhões de euros mensais.

O valor mais alto de 587 milhões de euros, que inclui investimento recorde nos certificados de aforro, foi atingido em julho, o mês em que se tornou evidente que a situação do Banco Espírito Santo estava fora de controlo. A instituição foi intervencionada no dia 3 de agosto.

Segundo dados avançados por Portugal à Comissão Europeia, no quadro da notificação da resolução do BES, o banco terá perdido em julho, até dois mil milhões de euros em depósitos. Uma notícia avançada esta semana pelo Diário Económico refere que o montante a sair terá sido na casa dos cinco mil milhões de euros. Uma coisa é certa, a saída de recursos dos clientes não travou após a resolução do BES. O Novo Banco também terá perdido clientes e fundos, mas os números ainda não conhecidos.

Depósitos recuaram no Montepio

Dos bancos que apresentaram contas para o terceiro trimestre, o Montepio Geral é para já o único a apresentar uma queda nos depósitos entre os montantes de junho e de setembro que ascende a cerca de 345 milhões de euros. Apesar de os depósitos estarem a crescer 4% nos primeiros nove meses do ano, face ao mesmo período de 2013, o ritmo de crescimento praticamente caiu para metade nos últimos três meses. O banco apresentou lucros de 22,6 milhões de euros até Setembro.

Esta evolução não terá sido alheia a notícias relativas a uma auditoria do Banco de Portugal à instituição que, numa primeira abordagem foi associada à exposição ao Banco Espírito Santo. O Montepio foi o primeiro banco a anunciar a constituição de uma provisão específica para cobrir perdas potenciais com a exposição ao Grupo Espírito Santo (GES). A ligação ao caso GES foi desmentida pelo presidente do Montepio, Tomás Correia. A auditoria do Banco de Portugal estará relacionada com operações anteriores a 2012 e sem qualquer relação com o BES.

Também a Caixa teve de reconhecer um montante mais elevado de imparidades, subiram 20%, para fazer face a perdas com a insolvência de empresas do universo GES. O comunicado não quantifica o impacto.

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