O chefe John Anderton tinha uma vida pacata. O departamento da polícia onde trabalhava, o Pré-Crime, só tinha como função adivinhar que pessoas iam cometer um crime, ir ao local onde elas estavam e detê-las, antes mesmo de elas terem sequer mexido uma palha. Em Relatório Minoritário, um conto de Philip K. Dick que depois verteu em filme de Spielberg, era assim. O filme saiu em 2002 e, se na altura a ideia parecia pouco plausível, hoje já está perto de se tornar uma realidade. A polícia londrina testou recentemente um software desenhado precisamente para identificar que membros de gangues são mais suscetíveis de voltar a cometer crimes violentos.

Durante 20 semanas, o sistema recorreu aos dados pessoais e publicações nas redes sociais dos últimos cinco anos de pessoas que fazem parte de grupos de crime organizado para tentar identificar quais deles eram os potencialmente mais perigosos. “Os recursos da polícia são limitados e há que os direcionar eficazmente. O que isto faz é dizer quem são os indivíduos que representam o maior risco, para quem se devem direcionar os recursos limitados”, afirmou Muz Janoowalla, responsável da Accenture – empresa que desenvolveu o software -, à BBC.

Se for posto a uso pela polícia, o sistema vai analisar dados em tempo real. Para já, o software usa os dados recolhidos em 32 bairros de Londres e faz cálculos que permitem perceber padrões de comportamento. A polícia compara então esses cálculos com as estatísticas criminais do último ano em análise para perceber até que ponto eles são fiáveis.

“Por exemplo, se uma pessoa colocou publicações provocadoras [‘inflammatory material’, no original], isso fica registado no sistema de informações. O que conseguimos agora foi combinar essas informações com o cadastro criminal das pessoas para chegar a um modelo de avaliação de risco”, explicou Janoowalla, que considerou a experiência um sucesso, apesar de não ter divulgado grandes pormenores dos resultados.

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Tal como em Relatório Minoritário, há, contudo, alguns problemas com a utilização desta tecnologia. “Soluções deste tipo correm o risco de afetar injustamente certos grupos de pessoas e, potencialmente, fazê-los sentir ostracizados”, comentou, por seu turno, Daniel Nesbitt, do movimento civil Big Brother Watch, que tem a privacidade pessoal como grande bandeira.

Também o movimento europeu de direitos humanos Statewatch se manifestou este ano sobre a utilização de tecnologias deste tipo pelas polícias, pedindo prudência na forma como são postas em prática.

“É claro que recolher e analisar grandes quantidades de dados poderá simplificar o trabalho policial. No entanto, isto por si só não é uma justificação para a utilização [desta tecnologia]. Há uma quantidade de poderes que podem ser dados às forças de autoridade”, defende o grupo. “A eficácia não pode ser nunca o único ponto pelo qual os poderes das forças policiais são avaliados”.

Respondendo às preocupações levantadas por estes grupos, a Accenture lembra que programas informáticos deste tipo já são usados para calcular a reincidência de certos criminosos, bem como para tentar perceber que zonas de cidades ou de países vão ser mais perigosas em determinado momento.