Há jogadores com caráter. Tozé é um rapaz de 21 anos, natural de Forjães, que terminou o 12.º ano com uma média de 20 valores. Em 2013 estava inscrito em Medicina Veterinária no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, mas a bola trocou-lhe as voltas. Depois dos 21 golos marcados pelo FC Porto B na última época, chegou o Estoril para ganhar estaleca, fazer-se importante e ganhar pedalada.

Aos 80 minutos, Tozé teve um momento que vai valer para a vida: um penálti contra o FC Porto, clube pelo qual ainda está vinculado. O médio, que jogou a falso 9, assumiu e rematou com classe para o dois-um. Pediu desculpa aos adeptos portistas que estavam atrás da baliza de Fabiano. Sete minutos depois foi substituído e aceitou, qual herói, as palmas dos adeptos canarinhos. Nasceu um novo “messias”, que porventura um dia vai brilhar de dragão ao peito. O conto de fadas acabou aos 90’+4 quando Óliver Torres marcou o segundo dos visitantes e empatou (2-2).

FC PORTO: Fabiano, Danilo, Maicon, Martins Indi, Alex Sandro, Casemiro, Herrera, Quaresma, Brahimi, Adrián, Jackson

ESTORIL: Kieszek, Anderson Luís, Yohan, Rúben Fernandes, Emídio Rafael, Esiti, Diogo Amado, Babanco, Sebá, Kuca, Tozé

Quando um lugar atrai, é bom de se estar, apetece voltar e está tudo muito bem dizemos que “tem mel”. E quando é o oposto? É que estas viagens do FC Porto à Rua D. Bosco, no Estoril, são sempre uma dor de cabeça. O passado, empoeirado e recente, diz-nos que o Estoril e os dragões venceram dez vezes cada um na Amoreira, falando de todas as competições. Apesar deste surpreendente registo, a equipa que veste como o Brasil, mas que já não samba como sambava com Marco Silva, não vence este rival desde setembro de 1977: 2-0, cortesia de Óscar e Salvado.

O Estoril entrou bem. Babanco, Esiti e Diogo Amado prometiam envolver numa teia Herrera e Casemiro. Sim, Julen Lopetegui voltou a mexer, na estrutura e nos jogadores. Adrián foi titular, jogando muitas vezes como 10 e outras como avançado, oferecendo ao FC Porto um 4-4-2 clássico. A superioridade numérica dos jogadores da casa fez-se sentir durante a primeira parte, com exceção para a fase final.

Este Estoril nem parecia o mesmo que ocupava a 13.ª posição. Maturidade, concentração, agressividade e inteligência na hora de sair para o ataque rápido, foi isto que se viu no primeiro tempo. Tozé, a mais recente inovação de José Couceiro, jogou a falso 9, o que ajudava a baralhar as marcações dos defesas da Invicta e a montar um tridente ofensivo super móvel.

A equipa da casa até foi a primeira a cheirar o golo. Um atraso arriscado, muito arriscado, de Maicon colocou em cheque a baliza portista, mas Fabiano resolveu bem. Os visitantes responderam aos 12′, com um cabeceamento de Adrián ao lado. O cruzamento chegou de Danilo, que tem estado em grande forma. Mas o golo chegaria oito minutos depois. Por quem? Bom, esta cantiga parece estar em loop nos últimos textos do Observador…

O FC Porto estava no ataque e a bola perdeu-se para o lado esquerdo. Perdeu-se para todo o mundo, menos para Brahimi. O argelino dominou a bola, enganou Anderson Luís — sem muita dificuldade, diga-se –, ultrapassou Diogo Amado e rematou. A bola desviou em Yohan Tavares e enganou Kieszek, 1-0.

Temia-se uma queda do Estoril. Mas não foi isso que aconteceu. O meio-campo continuou a pedalar mais do que o rival. Sebá, Kuca e Tozé continuavam mexidos, irrequietos e com vontade de incomodar Fabiano. Aos 26′, um contra-ataque venenoso em superioridade numérica deixou Kuca em grande posição. O avançado cabo-verdiano tocou para dentro e quando entrou na área e já se preparava para empatar… caiu. Kuca pediu penálti, o banco de suplentes idem e o António Coimbra da Mota esperavam um apito que nunca chegou.

Mas quem espera sempre alcança, certo? Não, mas neste caso foi assim. Depois de um canto, Emídio Rafael surgiu no corredor esquerdo e cruzou atrasado para Kuca. O avançado de 25 anos não falhou, 1-1.

Causa alguma estranheza a alteração de Lopetegui. É que desta forma, com Adrián perto de Jackson, estica a equipa, não permite jogar tão apoiado, o que convida a passes mais longos. Foi isso que se viu: uma equipa com menos apoios do que é normal. Herrera andava escondido. A bola não chegava ao avançado colombiano e os laterais, as motas da equipa, não viam o meio-campo guardar a bola o tempo suficiente para eles subirem no terreno. O FC Porto acabaria por crescer até ao intervalo. Brahimi e Quaresma incomodaram Kieszek, mas sem sucesso. Intervalo no Estoril.

A segunda parte seria completamente diferente. O FC Porto entrou determinado e deu um murro na mesa: a defesa jogou muito mais subida, o que encolheu e muito o Estoril. Os avançados da casa ficaram muito mais longe da baliza rival e quase não fizeram mossa. Ainda assim, continuaram a pressionar forte, a fechar no meio, a tentar tapar os caminhos para a baliza de Kieszek. Por essa razão entrariam Quintero e Aboubakar…

Ricardo Quaresma, que era titular pela segunda vez consecutiva, estava a atuar pela direita e foi o mais perigoso no arranque do segundo tempo. Suspiramos de alívio quando ele se vai passear até à esquerda e faz aquelas trivelas. Faz lembrar aquelas brincadeiras com os bebés: podemos fazer 30 vezes seguidas a mesma coisa que o público gosta sempre.

O Estoril foi sobrevivendo às investidas alheias. Kieszek era um autêntico alvo a abater, mas foi escudado por Yohan Tavares, quiçá o melhor em campo. Esteve perto de sair no verão, mas ficou para gáudio de Couceiro e dos adeptos que apreciam este tipo de central — sereno, com qualidade nos pés e tino na cabeça.

Lopetegui não se conformava e, como anunciámos em cima, lançou Aboubakar para junto de Jackson e Quintero para inventar espaços na teia defensiva criada pela equipa da casa. O golo do FC Porto estaria perto. Era fácil de prever. O Estoril encolheu-se cedo de mais, mérito dos visitantes, que já não permitiam saídas para o ataque. Pelo meio do sufoco, Filipe Gonçalves rematou em força com perigo, mas saiu por cima.

Perto dos 80 minutos, chegou um dos momentos da partida. O frágil Estoril conseguiu espreguiçar-se e Sebá esteve perto do golo. Valeu Fabiano com uma boa defesa. Um minuto a seguir, Tozé foi derrubado na área pelo guarda-redes brasileiro. O mesmo assumiu e marcou o segundo golo dos canarinhos. Pediu desculpa aos adeptos do FC Porto, mas honrou o futebol e o profissionalismo. “[O FC Porto] é o clube do meu coração, claro que é difícil”, admitiu no final da partida.

Cheirava a surpresa, aquela que não acontecia desde 1977. Mas esta gente do Porto não é de parar e desistir antes do tempo. A bola continuava a pingar perto de Kieszek, mas os jogadores de amarelo iam afastando o perigo. Quando passavam quatro minutos da hora, Óliver sacou um coelho da cartola: recebeu com a classe dos prodígios, desviou de Yohan, o tal defesa espartano, e encostou para o empate, 2-2. Os dois minutos seguintes não foram próprios para cardíacos. O FC Porto queria uma remontada, mas Kieszek não deixou: enorme defesa a remate de Jackson quando já passavam seis minutos dos 90.

Apito final na Amoreira. Grande jogo de futebol. Não deixou de surpreender a alteração de Lopetegui, lançando Adrián para perto de Jackson, o que desvirtuou a tal cultura do toque e posse de bola. O Estoril, que se tem mostrado uma equipa frágil, foi competente, agressivo e inteligente na saída de bola. Yohan, Brahimi e Herrera, este na segunda parte, terão sido dos melhores em campo. Com o empate, a equipa de Lopetegui estaciona no terceiro lugar, a um ponto do Vitória de Guimarães e três do Benfica.