O telemóvel toca, os mails vão “pingando” e os “bips” dos sms foram ouvidos várias vezes durante a entrevista que Fernando Frutuoso de Melo concedeu ao Observador. Mas este diretor geral da Comissão Europeia, nascido no Funchal há 56 anos, continua ponderadamente a responder às perguntas.

“Chego a receber centenas de mails por dia”, garante com uma tranquilidade que contrasta com a responsabilidade das funções que exerce a partir do seu gabinete no 12° andar de um imponente edifício da Rue de la Loi, uma das principais artérias da capital belga, no “bairro europeu” das instituições comunitárias. É neste amplo gabinete com mesa para reuniões que o diretor geral português junta, cedo pela manhã, os colaboradores mais próximos para um primeiro ponto de situação do dia.

“O que nós fazemos tem um impacto direto na vida das pessoas. Isto é o que faz este lugar diferente de muitos outros”, afirma realçando o caráter singular da  missão que lidera em Bruxelas : a direção geral do Desenvolvimento e Cooperação, a DG Devco no calão comunitário, “uma estrutura muito sólida”, faz questão de sublinhar.

Frutuoso de Melo é diretor geral da Devco há um ano. Sob a sua alçada tem cerca de 4.000 pessoas (1.500 em Bruxelas e as restantes nas delegações da UE espalhadas pelo mundo), um orçamento anual de 10 mil milhões de euros e a responsabilidade de implementar a assistência da União e a ajuda comunitária ao desenvolvimento a 140 países, muitos deles em grandes dificuldades de pobreza ou guerra. Definir missões, decidir e acompanhar projetos (intervir, caso corram mal) e fazer a ponte entre a administração que dirige e os decisores políticos dentro e fora da UE, constitui o dia a dia deste artesão da política europeia de cooperação.

“Aqui sabemos que, quando aprovamos um programa que permite fazer escolas e colocar crianças numa escola, daqui a uns meses vamos ver crianças nessa escola. Quando financiamos um programa de saúde, daqui a uns meses vamos ver mulheres grávidas terem apoio médico no seu parto, e crianças com assistência médica”, afirma com orgulho realçando os dados que apontam para uma redução “espetacular” da mortalidade infantil e da mortalidade pré e pós parto nos países ajudados pela UE.

As missões da DG Devco são realmente titânicas, um verdadeiro programa de governo mundial: reduzir a pobreza no mundo, garantir o desenvolvimento sustentável, promover a democracia, a paz e a segurança. Ébola, Síria, Iraque, Ucrânia, Afeganistão, República Centro-Africana, são apenas alguns exemplos de atualidade mediática a que os serviços de Frutuoso de Melo devem acorrer.

Nos últimos meses, a situação do vírus do ébola em África tem mobilizado muito as atenções desta direção geral, em articulação com a DG que gere a ajuda humanitária. Todos os dias há reuniões para avaliar a situação no terreno e Frutuoso de Melo recebe relatórios quotidianos das delegações da UE nos países afetados. Ou, melhor, do que resta do pessoal das delegações na Libéria e na Serra Leoa, já que o diretor geral português fez evacuar parte dos funcionários por razões de saúde pública. Esta foi, aliás, uma das situações mais complicadas que geriu nos últimos meses. “As situações mais dramáticas foram aquelas em que tive de mandar evacuar o nosso pessoal de urgência”, responde sem hesitar, dando também o exemplo do que aconteceu na Líbia ou no Iémen.

Há ainda os casos de conflitos, como o do Sudão do Sul, em que a UE deve continuar a prestar ajuda. Sem esquecer, as situações “em que há casos de corrupção em que temos de intervir, parar projetos e desencadear inquéritos”.

Já nas visitas ao terreno, uma das situações que mais o impressionou foi a do Haiti. Quando visitou a ilha em junho constatou a extrema pobreza do país, principalmente quando comparada com o nível de progresso da vizinha República Dominicana.

Longa experiência em Bruxelas, passagem pela política em Lisboa

Sente-se uma pessoa realizada pela natureza das suas funções atuais. Mas também devido ao facto de já ter passado por todos os escalões no seio da Comissão e de ser, atualmente, um dos dois portugueses a ocupar o cargo de diretor geral, o topo da hierarquia comunitária. Chegou em 1987, na primeira leva de funcionários portugueses que passaram um concurso geral para entrar nas instituições.

Começou como chefe de unidade na mesma direção geral que agora lidera. Pelo caminho na capital belga, ocupou cargos nos serviços de recursos humanos, pescas, passou pelo gabinete do comissário do alargamento, e ainda pelo secretariado geral da CE. Em 2009, Durão Barroso foi buscá-lo para a sua equipa onde trabalhou como chefe de gabinete adjunto. Este percurso deu-lhe “uma visão estratégica e horizontal da casa”.

A visão política, essa, adquiriu-a em Portugal. Da Madeira para o continente, passou a infância em Braga e Coimbra e a juventude em Lisboa. “Estou habituado a viajar e a mudar de casa”. Licenciou-se em direito e a sua experiência política foi nos idos tempos de 1980, nos governos liderados por Pinto Balsemão, integrando os gabinetes de Bayão Horta, Margarida Borges de Carvalho, Fernando Amaral, do vice-primeiro-ministro Mota Pinto, e foi chefe de gabinete de Marcelo Rebelo de Sousa. “Assisti de muito perto à queda da AD e à criação do bloco central…”, lembra.

“O sol aqui nunca se põe!”

Apesar de reconhecer que existem razões de serviço que o levariam a sair em missão todos os dias, tenta viajar o mínimo possível, realçando que tem uma equipa e diretores adjuntos que o ajudam. “Isto é uma casa muito grande e é preciso estar aqui muito tempo”, diz.

Um dia de trabalho “normal” do responsável máximo do serviço de assistência europeia começa cedo. Pelas 8h30 já está a dar início a uma maratona de encontros, alguns com responsáveis dos Estados-membros. “Há pouco recebi a diretora geral da cooperação da Suécia”. Muitas vezes, as reuniões são com embaixadores ou ministros dos países beneficiários como recentemente o de Cabo Verde, de Timor, do Senegal, etc.

O trabalho pode acabar tarde ou, por vezes, aparecer de maneira imprevista e fora de horas. Mas o telemóvel e o mail permitem-lhe trabalhar de casa onde tenta chegar “a uma hora razoável” por forma a estar ainda um momento com a família. No entanto, as urgências por esse mundo fora não escolhem hora e algumas surgem durante a noite. “Se houver uma emergência qualquer às 11h00 da noite, posso ligar o computador ao serviço e trabalhar nos dossiês como se estivesse aqui”, garante.

Frutuoso de Melo é solicitado em permanência já que a dimensão geográfica e as diferenças horárias, levam a que haja sempre alguém a trabalhar nalgum canto do mundo e a recorrer à DG, em Bruxelas, cujos serviços de assistência e cooperação cobrem todas as áreas do planeta desde as ilhas do Pacífico até ao outro extremo do globo. “O sol aqui nunca se põe”, costuma dizer, por isso recebe tantas solicitações por mail, 24 horas por dia.

E quais são as prioridades para os próximos anos? A UE tem aprovado o quadro orçamental até 2020 e, no horizonte, vislumbram-se já enormes desafios para a política europeia de cooperação. Segundo o atual diretor geral, é necessário conseguir manter a prevalência do respeito pelos direitos humanos em todos os programas, continuar a reduzir a pobreza e a melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas também contribuir para a consolidação da democracia, do estado de direito e da igualdade de oportunidades nesses países.

Sem esquecer que a UE deverá continuar a ser o principal doador de ajuda a nível mundial, fornecendo juntamente com os Estados-membros mais de metade da assistência ao desenvolvimento e cooperação.

A nível da União, o montante global mantém-se mas, devido à crise económica e financeira, vários Estados-membros cortaram nos orçamentos de cooperação e não vão alcançar o compromisso de, em 2015, dedicar 0,7% do PIB à ajuda ao desenvolvimento (neste momento, a média é de 0,43%).

Fernando Frutuoso de Melo defende a necessidade de manter as políticas de cooperação e desenvolvimento sem as quais”os países mais pobres ficariam numa situação ainda mais difícil”, as pessoas mais excluídas da economia mundial e exercendo maior pressão sobre as fronteiras da UE. Por isso, considera “muito estimulante” que as sondagens realizadas nos Vinte e Oito confirmem um amplo apoio dos cidadãos às políticas europeias nesta área. Nesse sentido, sublinha a importância do Ano Europeu do Desenvolvimento, em 2015, que deverá estimular o debate local nos Estados-membros. Trata-se, no fundo, de discutir uma política externa da UE com a qual todos ganham.

* Reportagem de Vasco Gandra, correspondente do Observador em Bruxelas