Já não dá para esconder mais, o Bloco está dividido. E isso vê-se até no próprio discurso sobre a divisão. No momento de apresentação das moções de orientação política, Pedro Filipe Soares subiu ao palco para fazer um discurso de união dirigido a “eles”, aos que dizem que o Bloco tem os dias contados. Mas oito minutos depois, foi Catarina Martins quem usou o palanque para pedir aos delegados que fizessem “escolhas”. “Escolhas” sobre a “estratégia a seguir”, mas que se traduzem na escolha entre nomes: ou a dupla Martins/Semedo, ou Pedro Filipe Soares.

É difícil medir as palmas e o entusiasmo dos delegados eleitos à convenção que decorre este fim de semana, em Lisboa, quando fala Pedro Filipe Soares, por um lado, ou quando fala Catarina Martins, por outro. À primeira vista, o cenário é de aparente empate. O entusiasmo de quem fala e de quem aplaude mostra bem que, desta vez – e pela primeira vez – o que está em causa no Bloco de Esquerda é mais do que a escolha de uma estratégia política para o partido. É uma escolha interna, que já dividiu a bancada parlamentar e que este sábado confirma estar a dividir uma audiência inteira.

Também a forma como os delegados estão sentados na sala do Pavilhão do Casal Vistoso contribui para que se torne cada vez mais difícil dar guarida à ideia de “unidade pela diferença” que os vários discursos bloquistas têm procurado consolidar ao longo do dia.

Às intervenções de Catarina Martins e de Pedro Filipe Soares, que apresentaram as duas moções maioritárias que estão em disputa nesta convenção, seguiram-se longos e ruidosos aplausos de pé.

Numa intervenção a ferver, Pedro Filipe Soares foi o primeiro a apresentar a sua proposta – já que segue na frente no número de delegados. Nem uma palavra contra a moção U, dos atuais coordenadores. O líder parlamentar optou por não atacar os adversários internos e preferiu falar mais de “união”.

Admitiu que o caminho do Bloco nem sempre foi “fácil”, mas que “todos soubemos que éramos determinantes para fazer o caminho à esquerda”. E garantiu que o Bloco estava vivo, ao contrário do que muitos diziam, e que não tinha “medo de existir”. Tão vivo que ainda esta semana foi um dos responsáveis pelo recuo no Parlamento da proposta de de reposição das subvenções vitalícias para ex-titulares de cargos políticos, disse. Uma bandeira que já tinha sido erguida de manhã por João Semedo.

Por coincidência ou não, o discurso de Pedro Filipe aproximou-se mais das ideias de “união” e de apelo à luta conjunta que o atual coordenador já tinha defendido na intervenção que fez na parte da manhã. A parte das críticas coube a Catarina Martins.

Catarina Martins dirigiu-se aos delegados num tom mais ofensivo e fraturante. Ainda que tenha começado por elogiar o “amplo consenso” que existe nas várias correntes do Bloco para “romper com a austeridade”, afirmou que seria uma “irresponsabilidade” usar os erros cometidos pela direção coletiva como “arma de arremesso para dividir o Bloco”.

A atual coordenadora do BE pediu assim aos delegados que fizessem uma “escolha”, e traçou os motivos por que essa escolha devesse recair sobre a sua moção ou, melhor, não devesse recair sobre a moção de Pedro Filipe: primeiro, apontou o dedo à tónica que a moção E dá à luta pela defesa da Constituição, que diz ser uma “trincheira muito recuada”; depois, usou o trunfo dos históricos para convencer os delegados, lembrando que nomes como Francisco Louçã, José Manuel Pureza (ex-Política XXI), Mário Tomé e Manuela Tavares (UDP) assinam a moção U. Feito o apelo à “escolha”, terminou apelando à eterna “união”. “A diversidade do Bloco não é defeito é feitio”, disse.

Pedro Filipe Soares vence na votação dos estatutos

A avaliar pelos discursos, é difícil prever para que lado pende o desempate. O mesmo já não se pode dizer da votação das alterações estatutárias que precedeu a apresentação das moções. Aí, Pedro Filipe Soares parece ter recebido sinais de vantagem.

Entre outras questões, os delegados à convenção aprovaram a eleição proporcional da Comissão Política, isto é, a eleição daquele órgão de direção com base na proporcionalidade dos resultados eleitorais conseguidos pelas várias listas. Uma proposta que tinha sido contestada na Mesa Nacional pelos coordenadores João Semedo e Catarina Martins, e defendida por Pedro Filipe Soares.

A introdução da possibilidade de fazer referendos internos no partido, de caráter vinculativo, também foi votada – e aprovada. Ambas as moções tinham apelado a esta alteração estatutária, com a diferença de que a moção de Martins e Semedo especificava quais os temas que poderiam ser referendados (como o apoio a candidatos presidenciais ou as coligações pré ou pós-eleitorais) e a de Pedro Filipe Soares deixava os temas a referendar em aberto. Votadas as propostas, a que acabou por ser aprovada foi a de Pedro Filipe Soares. Um sinal de que pode gozar de maior apoio entre os delegados.

Mas até amanhã, tudo estará em aberto. A votação das moções decorre no domingo, altura em que se saberá qual vai ser a constituição dos órgãos de direção e qual (ou quais) vai ser (ou vão ser) o(s) líder(es) do partido.