Foram duas semanas em outubro, numa Roma onde o calor acordara os mosquitos. Quase 200 bispos e alguns casais representantes da Pastoral da Família estiveram reunidos no Vaticano, para um Sínodo sobre as políticas da família. O bispo de Lisboa, D. Manuel Clemente, esteve lá em representação da Conferência Episcopal portuguesa e deu pelos sinais de um “novo tipo de governance”.

A novidade, como explicou em entrevista ao Observador, não esteve no Sínodo em si mesmo, pois estes são comuns desde o Concílio Vaticano II – esteve na forma como o Papa Francisco organizou e, depois, orientou os debates.

Primeiro, explicou-nos o Patriarca, “não convocou uma, convocou duas assembleias”, a que decorreu no passado mês de outubro e a que decorrerá em Outubro de 2015. A seguir promoveu uma consulta geral que, “só em Lisboa, teve 14 mil respostas”. Depois a assembleia iniciou com “uma apresentação onde toda a gente falou, e éramos mais de 200 pessoas”.

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Mas talvez a maior inovação tenha sido fazer acompanhar os diferentes parágrafos das conclusões com a indicação da votação. Isso é uma ideia nova, não teve dúvidas em assumir D. Manuel Clemente, que sublinhou ter sido uma ideia do próprio Papa Francisco. Ideia nova e importante, “porque assim sabe-se onde há consenso quase geral, mas pode-se também saber quais as matérias onde ainda há muitas interrogações”.

Aparentemente, a forma como o Sínodo foi conduzido segue “a forma como governava a diocese de Buenos Aires. Ele gosta de criar opinião, de ouvir as pessoas. Dizem-me os que o conheciam de lá que já era assim que fazia, e agora está a fazer o mesmo na igreja universal”. Trata-se de uma forma de “ativar aquilo que acha que deve ser resolvido por toda a gente”.

O Papa Francisco raramente intervinha, ao contrário do que sucedia com Bento XVI, que falava mais vezes e até podia bater palmas a algumas intervenções.

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“Francisco disse-nos: falem à vontade, falem com coragem”, diz-nos D. Manuel Clemente. A sua sugestão era que todos falassem com com humildade, “para se ouvirem uns aos outros”. Daí que tenha sublinhado: “Eu estou aqui, eu garanto a tradição”.

Garantir a tradição em que sentido? Falar disso porquê? Para permitir que se falasse com mais liberdade, pois alguém estaria ali para garantir o essencial?

O Patriarca de Lisboa prefere sublinhar que a Igreja tem uma tradição de dois mil anos, mas que é uma tradição evolutiva. “A palavra tradição não significa nada de estático. A origem da palavra vem das estafetas, tradição era o que se chamava ao testemunho que passa de mão em mão”.

A reflexão leva-o ainda a falar da importância que o Papa Francisco dá às periferias e que é bem evidente nas suas opções, como na visita a Lampedusa pouco tempo depois de ser eleito, ou na ida à pequena Albânia. “Ele tem sempre essa escolha pelas periferias. Prefere ir ao que está esquecido. No fundo quer trazer as periferias para o centro da vida da Igreja, para assim lhes dar centralidade, a centralidade que ele acha que devem ter, projetando-as através de uma grande organização como a Igreja católica”.

Por outras palavras: dá atenção não ao que está nas manchetes, mas ao que está esquecido.

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Quanto à forma como o Sínodo decorreu, D. Manuel Clemente reconheceu que nalguns momentos houve alguma perplexidade. Ao fim da primeira semana de trabalhos, por exemplo, saiu um primeiro relatório onde se dava muito relevo às questões ditas fraturantes. “Lá dentro ficámos com a sensação de que os media já tinham feito o Sínodo. Essa segunda-feira foi um bocadinho complicada…”

Depois de uma semana em plenário, os bispos estavam agora divididos por grupos de trabalho, e foi neles que esse primeiro relatório foi escalpelizado, acontecendo o que “é típico das grandes organizações quando são pressionadas de fora: fecham-se, retraem-se”. Foi assim que se foram debatendo os temas até que, já mais perto do fim de semana, corria-se o risco de deixar de fora tudo o que estava no relatório inicial. “Houve alguns momentos mais crispados, na quinta à tarde e sexta de manhã, mas ao mesmo tempo momento muito interessantes, pois revelaram uma assembleia viva”.

Foi assim que, no final, acabou por haver um grande consenso sobre quatro quintos dos temas. Sobre os restantes, “agora estamos todos a continuar a conversar”. Uma coisa é certa: “o que está feito já é ganho, e o Papa tem insistido muito nesse ponto.”

É assim que, conseguidas as “60 e tal preposições”, elas foram reduzidas a “40 e tal perguntas, mais práticas, pedagógicas”, a que agora os diferentes episcopados terão de responder, enviar em março para Roma, esperar pela síntese, até que todos voltarão de novo a Roma em outubro, agora para três semanas de Sínodo. Será então que teremos as conclusões finais?

“Com esta governance, vamos ver se ele acha que se tem o consenso suficiente para, face às questões de hoje, de agora, nós apresentarmos a nossa proposta cristã sobre a família. Eu não ponho fora que ele ainda ache que falta alguma coisa. Vamos ver”, concluiu D. Manuel Clemente.

(pode ver aqui a entrevista integral: O Patriarca de Lisboa conta como é trabalhar com o Papa Francisco.)