Com o ano quase a acabar, a retrospetiva também acontece no domínio na internet. O jornal britânico Guardian fez um apanhado dos “memes” que mais marcaram 2014 — por “meme” entende-se um conceito que se espalha via internet, tornando-se viral. Mais do que popularidade, em causa está o quanto estes temas ajudaram a definir os últimos doze meses, sejam eles lúdicos ou de cariz mais sério e até atual.

Comecemos pelas selfies. Quando 2014 arrancou, o grande público já estava familiarizado com o termo. Mas coube à apresentadora norte-americana Ellen DeGeneres eliminar as todas as dúvidas. Foi em março, na cerimónia de entrega dos Óscares, que Ellen tirou uma fotografia na companhia de várias celebridades, entre as quais se destacam Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Lupita Nyong’o, Brad Pitt, Julia Roberts e Angelina Jolie. A fotografia, que tecnicamente falando foi registada pelo ator Bradley Cooper, foi partilhada, no Twitter, mais de 3.3 milhões de vezes, sendo que cerca de 800.000 desses retweets aconteceram na primeira meia hora em que a fotografia foi publicada. Estima-se que o tweet em questão tenha chegado a 37 milhões de pessoas.

O “Ice bucket challenge” (ou desafio do banho gelado, em português) dominou as redes sociais e cativou diversas celebridades — desde George Bush a Bill Gates e Oprah — e pessoas anónimas pelo mundo fora. Consistia em gravar um vídeo de curta duração, no qual as pessoas eram vistas a entornar sobre si próprias, ou com ajuda de terceiros, baldes de água fria/gelo. De seguida, os participantes nomeavam três pessoas que teriam de cumprir a tarefa num determinado período de tempo, normalmente 24 horas, ou doar dinheiro à associação ALS, que ajuda pacientes e investigadores no combate à doença esclerose lateral amiotrófica, ELA, também conhecida por Lou Gehrig. O desafio chegou, inclusive, ao panorama luso.

O mundial de futebol realizado em terras brasileiras viu mais do que vitórias e derrotas. Entre hinos entoados e bandeiras hasteadas, foi a dentada de Luis Suárez que deu que falar. O jogador da seleção do Uruguai “mordeu” o italiano Giorgio Chiellini — aquela foi a terceira vez que Suárez mordeu um adversário, além de se ter visto já envolvido em várias outras polémicas. O incidente reuniu os ingredientes necessários para a criação de diversas piadas e Suárez acabou por fazer uso do Twitter para pedir desculpa publicamente.

Os problemas da cidade russa Sochi foram, literalmente, alvo de chacota. A hashtag #SochiProblems tornou-se rapidamente viral quando, em fevereiro deste ano, jornalistas, atletas e espetadores se aperceberam de que algo estava errado nas instalações erguidas para receber os Jogos Olímpicos de Inverno. São exemplo as casas de banho com duas sanitas, a água impossível de beber e os edifícios cuja construção estava por terminar. Num período de 24 horas a hashtag em questão foi usada em 26.000 tweets.

Num registo mais sério, o destaque recai para a hashtag #ISISmediablackout. Com a ascensão do Estado Islâmico (EI), o mundo assistiu ao assassinato de reféns como James Foley, Steven Sotloff e David Haines. A título de exemplo, o primeiro vídeo foi inicialmente colocado no YouTube e acabou por se espalhar por diferentes redes sociais, do Twitter ao Facebook, passando ainda pelo Instagram. Numa tentativa de “boicotar” a propagação do EI nestas plataformas, bem como a partilha massificada do vídeo, a qual levantou várias questões éticas, a escritora e ativista síria Hend Amry criou a hashtag #ISISmediablackout. O Guardian escreve, pois, que a Twitterspher não se conformou e lutou contra a crueldade do respetivo movimento ideológico.

Outros memes que são tidos em conta pelo jornal britânico fazem referência ao programa de rádio Serial, que em média tem três milhões de ouvintes por episódio, e a um rapaz de nome Alex Lee, o qual trabalhava num supermercado norte-americano, da cadeia Target, antes de ficar famoso pelo aspeto físico — uma fotografia sua foi posta a circular nas redes, ganhou adesão e o adolescente acabou por ser convidado a ir ao programa de Elle DeGeneres, sendo que atualmente tem qualquer coisa como 740.000 seguidores no Twitter. Ficou conhecido como “Alex from Target”.

A tragédia que marcou Ferguson, nos Estados Unidos da América, também ganhou dimensão social, com as últimas palavras do falecido Michael Brown a darem vida uma hashtag impactante — #HandsUpDontShoot (“mãos ao alto, não dispare”, em português).