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"Serial": a rádio renovou-se e voltou a ser moda?

Uma investigação de um crime transformada num programa de rádio agarra semanalmente três milhões de ouvintes espalhados pelo mundo. Todos querem saber se Adnan Syed é inocente ou culpado.

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O Guardian escreveu que a loucura em torno de Serial é a "Beatlemania do mundo de não-ficção da rádio pública"

Getty Images

O Guardian escreveu que a loucura em torno de Serial é a "Beatlemania do mundo de não-ficção da rádio pública"

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“Ao longo do último ano, trabalhei todos os dias úteis para tentar descobrir onde é que um estudante de liceu passou uma hora depois de um dia de escola em 1999”. Foi assim que Sarah Koenig, repórter e produtora da rádio pública norte-americana, deu início ao podcast (um programa de áudio digital) mais popular da história dos podcasts. Serial, um programa de rádio em episódios é ouvido, em média, por três milhões de pessoas. E discutido obsessivamente por fãs e seguidores em fóruns na internet. A revista online Slate lançou o seu próprio podcast para acompanhar o desenrolar da história contada por Sarah Koenig.

O Guardian escreveu que a loucura em torno de Serial é a “Beatlemania do mundo de não-ficção da rádio pública”. Para o New York Times, Koenig é, ao mesmo tempo, Paul McCarthy e John Lennon.

Tweet de um ouvinte de Serial, brincando com o sucesso da série e fazendo referência a um café londrino que serve apenas cereais e cuja fonética se confunde com o nome do programa. Outro da Revista New Yorker sobre a febre em torno do programa.

O sucesso de Serial é tal que a série ameaça mesmo roubar protagonismo ao programa-mãe, This American Life (TAL), uma série de culto que passa todas as semanas na rádio e na televisão histórias que geralmente se debruçam sobre pessoas comuns. Desde a sua estreia, em 1995, que é o podcast mais popular nos EUA. Ou era. Ira Glass, o apresentador, disse ao New York Times que foram precisos quatro anos para que This American Life atingisse um milhão de ouvintes. Serial quebrou esse recorde em apenas um mês, nota David Carr, o conhecido jornalista de media do mesmo jornal. Ira Glass é um dos conselheiros de Sarah Koenig, que participou em TAL.

Falta saber como será sustentável, a grande questão de todo o jornalismo na era digital. A rádio pública americana é amplamente financiada por donativos de ouvintes e recebe dinheiro estatal. Quem ouve Serial não paga para ouvir os episódios e já terá notado nos anúncios que antecedem o programa. Num dos episódios foi pedido aos ouvintes que contribuíssem e ajudassem a manter a série.

Um jovem condenado a prisão perpétua. Um caso imperfeito?

Mas voltemos ao início da história. Em 2013, Sarah Koenig recebeu um e-mail de uma mulher chamada Rabia Chaudry, que tinha lido artigos escritos pela jornalista sobre um advogado afastado da Ordem em 2001. Rabia Chaudry apresentou-se como sendo amiga de Adnan Syed, um jovem de origem paquistanesa que em 1999 foi condenado a prisão perpétua pelo homicídio da ex-namorada Hae Min Lee.

Adnan Syed e Hae Min Lee eram finalistas de um liceu em Baltimore e viviam um romance secreto e proibido devido às origens familiares de Adnan. Hae Min Lee tinha ascendência sul-coreana. Uma espécie de “Romeu e Julieta” moderno, como diz Sarah Koenig no primeiro episódio do programa.

A 13 de janeiro de de 1999, Hae Min Lee desapareceu. Só um mais de um mês depois é que o seu corpo foi encontrado num parque em Baltimore, o Laekin Park (conhecido das autoridades por ser um local onde habitualmente se encontram os corpos de vítimas de homicídio). Havia sido estrangulada. A jovem de 18 anos tinha posto terminado o namoro com Adnan Syed e esse foi um dos principai argumentos que a acusação utilizou em tribunal contra ele: tinha arriscado tudo e acabara abandonado.

No julgamento, um depoimento foi crucial para a condenação de Adnan Syed. Um amigo do casal, em especial de Adnan Syed, Jay, testemunhou ter ajudado Adnan a enterrar o corpo da antiga namorada. Mas o depoimento de Jay não foi sempre consistente e não foram encontradas provas que colocassem Adnan no local do crime. Aos 17 anos, Adnan Syed foi condenado a prisão perpétua. Está preso há 15 anos mas manteve sempre a sua inocência.

Um dos principais problemas apontados durante o programa, é que disse sempre que não se conseguia lembrar do que fez durante uma hora naquele dia de janeiro em que a sua ex-namorada desapareceu. A família e alguns amigos do jovem paquistanês não acreditam que este tenha cometido o crime. Entre esses está Rabia Chaudry, que contactou Sarah Koenig. A jornalista decidiu investigar a história.

Somos todos detetives

Uma gravação automática pergunta: ‘Esta é uma chamada pré-paga de?’. Uma voz humana responde: ‘Adnan Syed’. E a máquina continua: ‘Um preso do estabelecimento prisional de Maryland’.

Serial parte da investigação de Sarah Koenig e acompanha-a. A jornalista telefona para a prisão para falar com o jovem e grava as conversas que os dois têm; entrevista pessoas, tentando que estas se lembrem de um acontecimento de há 15 anos; vasculha depoimentos arquivados e pistas. Ao mesmo tempo, numa voz confessional, como se ouvíssemos as suas introspeções, Sarah Koenig questiona-se, baralha-se, interroga jovens sobre as suas vidas sexuais. Avança e recua.

Como escreve o New York Times, por vezes dá para entender que a jornalista acredita na inocência de Adnan Syed, ou que pelo menos considera que a defesa foi insuficiente. Mais à frente, acaba por se questionar. “E se ele é um psicopata extraordinário e eu estou a ser enganada?”, lança Koenig para o éter.

As teorias sobre a condenação de Adnan Syed invadiram as redes sociais

No primeiro episódio, chamado “Alibi”, ouvimos a jornalista refletir sobre a dificuldade de nos lembrarmos da sequência integral dos nossos dias e propõe-nos um exercício: “Como chegou ao trabalho na quarta-feira? Conduziu? Andou a pé? Foi de bicicleta? Estava a chover? Tem a certeza? Entrou em alguma loja? Ponha numa lista todas as pessoas com quem falou”. “É difícil!”, acaba por dizer. E estamos envolvidos, prontos a compreender as dificuldades da repórter que quer desenterrar uma história com 15 anos. Uma contadora de histórias transformada em jornalista de investigação. Milhões de ouvintes que se sentem detetives.

Outros meios de comunicação já foram também atrás da história de Syed. O Guardian entrevistou a família do jovem, que diz encontrar conforto na investigação levada a cabo pela jornalista que, consideram, está a fazer um trabalho melhor do que aquele feito pela polícia há 15 anos.

O final perfeito – jornalismo ou entretenimento?

A primeira temporada da história que os ouvintes seguiram ao longo de 12 episódios semanais chegou ao fim na última semana (a segunda temporada seguirá outra história. Sarah Koenig não garante que seja sobre um crime) com uma pergunta sem resposta. “Será que passamos um ano a analisar excessivamente um caso perfeitamente normal?”, questiona a jornalista no tom pessoal a que habituou os ouvintes, dando-lhes a ideia de que não seguiam apenas o enredo, mas também as suas dúvidas à medida que a reportagem ia avançando. Não houve uma resposta definitiva para a pergunta. Apenas escalas de cinzento, zonas dúbias e muitas dúvidas.

Um tweet que ironiza sobre o tema da segunda temporada de Serial. Os ataques à Sony, por exemplo?

Desde o início que uma das grandes preocupações em torno da série se prendia com o desfecho. Seria Serial capaz de chegar a uma conclusão definitiva sobre a inocência ou a culpa de Syed?

Tweet que brinca com a popularidade em torno de Serial e a curiosidade e ansiedade geradas pelo último episódio

Em novembro, o New York Times entrevistou a jornalista e escolheu o seguinte título para a peça: “Sarah Koenig não consegue prometer um final perfeito para Serial”. A jornalista, que desde o início explicou aos leitores que não conhecia o desfecho da série, foi questionada sobre o sentimento de responsabilidade de que uma história destas tenha um desfecho que prenda os ouvintes. Sarah Koenig rejeitou essa responsabilidade: “Não sou responsável pelo final perfeito. Quero um final sólido, baseado no trabalho de reportagem que fiz. Mas não sinto responsabilidade de transformar o último episódio num entretenimento digno de uma telenovela. Nem pensar. Isso seria de loucos. Não é esse o meu papel. Eu sou uma repórter”.

Na mesma altura, David Carr, do New York Times, prometia pagar pelos episódios de Serial, acrescentando que o faria se “Koenig e a sua equipa resolvessem o mistério que tinham libertado”.

No final da temporada, o podcast da revista Slate chegou mesmo a implorar. “Não deixe”, disse um jornalista, dirigindo-se a Sarah Koenig, “que isto acabe por ser uma contemplação sobre a natureza da verdade”.

Mas como pode uma jornalista responder a tal expectativa se lida com a realidade e não com a ficção? A forma escolhida para construir cada episódio – a jornalista dividiu a informação que apurou na sua reportagem ao longo de doze episódios, provocando o suspense que alimenta, todas as semanas, três milhões de ouvintes – levantou questões sobre a natureza do podcast. “Não é um híbrido entre jornalismo e entretenimento?”, perguntou o New York Times.

“Isso não é justo. Eu ainda estou em reportagem. Não é como se eu tivesse tudo num cesto e estivesse a organizar a história de acordo com um capricho meu. Aquilo que a equipa sabe fazer é estruturar bem uma história. Não foi diferente de escrever um texto longo para uma revista ou uma história que tenha de ser estruturada”, foi a resposta de Koenig.

O último parágrafo deste texto pode estragar a história aos ouvintes

Apesar de a primeira temporada de Serial ter terminado sem um veredicto da jornalista, soube-se a meio da série que os produtores envolvidos estão em contacto com o Innocence Project, que trabalha para exonerar inocentes. A equipa de advogados analisou o caso de Adnan, decidiu que iria continuar a investigar e descobriu uma possível pista, que está agora a seguir.

No dia 1 de janeiro de 1999, dias antes do homicídio de Lee, um assassino e violador chamado Ronald Lee Moore foi libertado da prisão de Baltimore. O Innocence Project está a tentar perceber se o ADN encontrado no local do crime tem alguma ligação com o de Moore.

Será que Sarah Koenig acompanhará o desfecho desta investigação? Talvez isso sejam cenas de outros episódios…

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