Nesse dia contou-se até cinco. Podia ter parado antes, aos três ou quatro, com a mesma facilidade que teria tocado nos seis. Foi meia dezena de golos sofridos. Com um 5-0, uma manita, alcunha à espanhola para descrever uma goleada de mão cheia, saiu José Mourinho de Camp Nou, a 29 de novembro de 2010, quando ainda era el portugués antes de voltar a ser The Special One. No tal dia, com o Real Madrid, o treinador sofreu a derrota com maior número golos sofridos da carreira. Até então, nunca sequer encaixara quatro golos no Benfica, União de Leiria, FC Porto, Chelsea ou Inter de Milão.

E aconteceu logo contra o rival dos rivais, o Barça de Pep Guardiola. Um “produto acabado”, como Mourinho lhe chamava na altura, que nessa partida “jogou muito bem”, foi “melhor em tudo” e, por isso, resumiu o português, na altura citado pelo El País, era “uma derrota muito fácil de digerir”. Como? Aceitando o prato que saíra daquele forno. “Houve uma equipa que jogou no máximo do seu potencial, e outra que jogou muito mal. É fácil de comentar: foi uma derrota bastante merecida”, reconheceu.

Esta manita, portanto, foi fácil para Mourinho. Mas não terá sido assim quando, na quinta-feira, viu outra hand (mão, em inglês) a fechar-se sobre uma equipa sua. Mais de quatro anos após visitar Camp Nou e de lá sair com um 5-0, o técnico foi a White Hart Lane, estádio do Tottenham, perder 5-3. Ou seja, o português, agora com o Chelsea, voltou a sofrer cinco golos e, de novo, frente a um rival. Neste caso citadino — tanto os blues, de Mourinho, como os spurs, treinados por Mauricio Pochettino, moram em Londres.

O jogo, no arranque, até sorriu ao português, quando Diego Costa ficou encostado a um dos postes da baliza, teve esperança que a bola lá fosse parar e fez o 1-0. Depois, do nada, porque o Tottenham errava em quase tudo o que fazia, empatou. Ou melhor, Harry Kane fê-lo, quase sozinho, quando apanhou a bola, fintou dois, aguentou empurrões e rematou para marcar o primeiro de dois golos no jogo. Ele, o avançado inglês que já leva 23 golos esta época, mas que continua a não aparecer no radar da seleção, puxou a equipa para uma maratona de ataque que deu a Danny Rose, Andros Townsend e Nacer Chadli os restantes golos da vitória.

E a digestão, desta vez, não foi fácil. “Sofremos cinco golos, que é algo fora do normal. Mas pode acontecer. Posso ir noutra direção e dizer que, com 1-0, uma ação clara podia ter resultado no 2-0. Por norma, com 2-0, a história do jogo seria diferente. O que me choca é, em três dias, termos duas decisões incríveis que nos castigaram de uma forma dura”, argumentou o português, referindo-se a dois alegados penáltis que os árbitros não marcaram frente ao Southampton (1-1) e contra o Tottenham.

Neste caso, Mourinho falava na mão de Vertonghen, defesa do Tottenham, que tocou na bola quando o belga estava deitado na relva, à frente de Eden Hazard, do Chelsea — que até confessou ao português que o árbitro fez bem em nada apitar. “Honesto como sempre, disse-me que não era falta nem cartão vermelho. O que é bom, pois, apesar do Sr. Dowd ser demasiado lento para acompanhar a bola, tomou a decisão correta a 40 metros de distância”, atirou, depois, Mourinho, falando de Phil Dowd, homem do apito.

Com ou sem penálti, o Chelsea deixaria entrar a bola cinco vezes na sua baliza e, na que estava do outro lado do relvado, só o conseguiu por três vezes. A última por John Terry, capitão dos blues, com mais de 600 partidas feitas pelo clube. Só este golo, aliás, deixou que o Chelsea consiga dormir mais umas noites na liderança da Premier League — só porque, horas antes, um golo de outra lenda do clube acabou por quase tirar a antiga equipa do trono.

Em Manchester, o City, onde desde o início da época está Frank Lampard, homem que, com o Chelsea, marcou 178 golos na Premier League — recorde para um médio –, e, ontem, fez o 3-2 da vitória dos citizens, em casa, frente ao Sunderland. Com estes dois golos, o de Terry, em Londres, e o de Lampard, em Manchester, o City e o Chelsea acabaram a 20.º jornada do campeonato empatados em tudo: no número de pontos (46), golos marcados (44), sofridos (19) e, portanto, na diferença de golos.

As regras da Premier League não têm o confronto direto como critério de desempate — já agora, ficou 1-1 no primeiro encontro entre as equipas. Logo, se o campeonato terminasse agora, Manchester City e Chelsea teriam que se defrontar num play-off, a um jogo, num estádio neutro, a definir pela organização da prova. E tudo por causa dos golos de duas lendas do Chelsea. O clube treinado por José Mourinho, aliás, apenas permanece na liderança do campeonato por obra do alfabeto: o “c”, no abecedário, surge antes do “m”.

Em 2010, quando o clássico com o Barcelona lhe deu uma manita, José Mourinho perdeu a liderança da liga espanhola. Não mais a teria de volta e os catalães seriam campeões. Como será desta vez?