“Portugal e Espanha têm sido muito exigentes” na sua relação com a Grécia e com o novo governo liderado por Alexis Tsipras, salienta Jean-Claude Juncker ao rejeitar a ideia comum de que a Alemanha, como maior economia do bloco, lidera a zona euro com mão de ferro. O presidente da Comissão Europeia diz que tem havido países muito mais rígidos do que a Alemanha na gestão da crise, incluindo a Holanda, a Finlândia, a Eslováquia e a Áustria.

Numa longa entrevista ao El País, publicada esta quarta-feira, o presidente da Comissão Europeia defende que não é adequada a visão de uma Europa controlada pela mão de ferro da Alemanha. “A crise grega é um bom exemplo de que essa visão não corresponde à realidade”, diz Jean-Claude Juncker. “Tem havido muitos países mais rígidos do que a Alemanha: a Holanda, a Finlândia, a Eslováquia, os povos bálticos, a Áustria…”, nota o presidente da Comissão Europeia, acrescentando que “Espanha e Portugal têm sido muito exigentes na sua relação com a Grécia”.

Grécia onde um partido anti-austeridade como o Syriza venceu as eleições. Algo que, na opinião de Juncker, à semelhança do que acontece com “este novo tipo de partidos” noutros países, “os partidos analisam a situação de forma realista, sublinhando os grandes desafios sociais com firmeza”. “Mas nos casos em que ganham eleições são incapazes de cumprir as suas promessas, de transformar os seus programas [eleitorais] em realidade”, afirma o luxemburguês, defendendo que “as propostas de alguns desses partidos não são compatíveis com as regras europeias: levariam a uma situação de bloqueio total”.

Jean-Claude Juncker concorda, contudo, com a “morte à troika” que tem sido reivindicada por líderes como Alexis Tsipras.

“As pessoas estão a descobrir agora aquilo que digo há vários anos, que seria conveniente colocar um ponto final à existência da troika”. “Em parte, devido a um problema de dignidade, talvez não tenhamos sido suficientemente respeitosos“, diz Juncker, recuperando as polémicas declarações de fevereiro em que o responsável disse que se “pecou contra a dignidade” de países como Portugal.

Qual é a alternativa? “Os países resgatados não devem sentar-se a negociar com a Comissão ou com o Europgrupo, mas com funcionários das instituições”, diz Juncker. E, depois, há um “segundo problema: quando lançamos um programa de ajustamento é imprescindível uma avaliação do impacto social”. Um exemplo: “25% dos gregos foram expulsos do sistema de segurança social, devíamos ter previsto este tipo de consequências”.

Jean-Claude Juncker conclui que “vivemos num mundo cada vez mais complexo e perigoso”. A Europa deu “passos para melhorar a sua organização, mas ainda é difícil partilhar soberania e derrubar os impulsos nacionalistas”, nota Juncker, lamentando que “a crise tenha feito emergir ressentimentos antigos, que acreditávamos que tinham sido ultrapassados”.