Não chegou a sobreviver durante um mês na natureza. Kayakweru, fêmea de Lince-Ibérico criada em cativeiro que, a 25 de fevereiro, fora libertada, foi na quinta-feira encontrada morta numa zona florestal de Mértola. O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que monitorizava o animal, tinha examinado o espécime por volta das 19 horas.

Em comunicado, a entidade, tutelada pelo Ministério do Ambiente, afirma que ainda não era conhecida a causa de morte do animal. O instituto, porém, ressalva que Kayakweru, aquando da monitorização presencial, apresentava “os comportamentos normais da espécie”. O ICNF informou que o corpo do lince será “encaminhado” para o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), para “realização de necropsia” e “apuramento” das causas da morte.

Uma responsável do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) considerou normal a morte da fêmea de lince ibérico libertada na natureza e garantiu a continuação do programa de reintrodução da espécie.

“É perfeitamente normal, da mesma forma que temos índices de natalidade, termos índices de mortalidade quando falamos de populações de ser vivos. Portanto, é absolutamente normal que haja mortalidade, seja de causas naturais, seja por outro tipo de causas”, explicou à agência Lusa Sofia Castelo Branco, vogal do conselho diretivo do ICNF.

“Vamos continuar com o centro nacional de reprodução em cativeiro de Silves a funcionar, vamos continuar a reintroduzir animais na natureza e temos de estar preparados para que episódios destes ocorram”, salientou Sofia Castelo Branco.

Este lince-ibérico foi introduzido na natureza perto de Mértola a 7 de fevereiro, com cercado, tendo depois sido libertado para a natureza a 25 do mesmo mês, no âmbito do programa de reintrodução da espécie que Portugal está a desenvolver, em cooperação com Espanha.

Kayakweru, criada em cativeiro no Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico, em Silves, integrou o segundo casal libertado — a 16 de dezembro, Katmandu e Jacarandá, criados em Espanha e Portugal, foram os primeiros e, depois, foi a vez de Loro, oriundo do país vizinho, e de Liberdade, criada em território luso.

O Lince-Ibérico é a espécie felina mais ameaçada do mundo. O risco de atropelamento e a falta de alimento — o coelho bravo é a principal presa caçado pelo Lince-ibérico — constituem as maiores ameaças à sobrevivências dos espécimes em natureza.

A colocação dos linces ibéricos naquele cercado permite uma transição da vida nos centros reprodução para a vida na natureza. O período de adaptação será no mínimo de 20 dias, no entanto, “a sua duração final está sempre dependente do comportamento dos animais no cercado”, segundo o ICNF.

Para o instituto, a reintrodução dos linces ibéricos na natureza “é mais um passo no compromisso nacional e ibérico para a inversão do risco de extinção desta espécie”.

Jorge Moreira da Silva, Ministro do ambiente, já reagiu à morte do lince ibérico

O ministro do Ambiente considerou hoje normal a morte de um dos seis linces ibéricos libertados em Portugal, referindo que a reintrodução da espécie não está isenta de riscos e temos de estar preparados para “fatalidades” do género.

“É uma ocorrência que obviamente lamentamos, mas acaba por ser normal nestes programas de reintrodução do lince”, disse o ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Jorge Moreira da Silva, aos jornalistas, no concelho alentejano de Castro Verde.

O ministro disse que “estão excluídas algumas das razões que habitualmente justificam” a morte dos linces, como atropelamento, mas ainda não são conhecidas as causas da morte da fémea e o ICNF “vai dar mais informações à medida que se consiga apurar as razões”.

“Dos seis linces que foram reintroduzidos, ocorreu esta fatalidade com um deles. É matéria sobre a qual julgo que ainda hoje podemos dar mais informação, dado que se estão a tentar apurar as razões” da morte de Kayakweru, disse.

“Apesar de a reintrodução configurar um momento de grande felicidade para todos os que trabalham nesta área da conservação da natureza, não é uma opção isenta de riscos e temos de nos preparar para que fatalidades como esta possam ocorrer. Disse-o no momento mais feliz, que foi o da libertação do primeiro lince, e digo-o novamente”, afirmou o ministro.

Jorge Moreira da Silva frisou que o programa de reintrodução do lince ibérico em Portugal foi “bem preparado, bem desenvolvido, bem estudado” durante “20 anos” e “não houve nenhuma passagem à fase de reintrodução que não tivesse correspondido a uma avaliação prévia de risco e a uma utilização das melhores práticas nos cinco centros de reprodução”.

“Mas temos de nos preparar todos para que situações como estas possam ir ocorrendo”, insistiu, referindo que “o mesmo aconteceu” com alguns dos linces ibéricos libertados em Espanha, “mas isto faz parte de um processo normal de reintrodução da espécie”.