Numa altura em que a corrida presidencial à esquerda começa a ganhar (alguma) definição, com a recusa de António Guterres e com as hipóteses “Sampaio da Nóvoa” e “Carvalho da Silva” a ganharem mais força, o Bloco de Esquerda está disponível para apoiar uma eventual solução única à esquerda. E, para já, não exclui nenhum destes dois proto-candidatos.

Ao Observador, Pedro Soares, dirigente do partido, admitiu que, pese embora seja ainda “prematuro” falar da corrida a Belém e dos candidatos que ainda não o são, o BE está disponível para “ouvir as candidaturas” e procurar “uma candidatura unitária da esquerda”. E tanto Sampaio da Nóvoa como Carvalho da Silva “representam um espaço político” que encara como prioridades “a questão da dívida externa, a turbulência na União Europeia e o futuro da governação”. Ou seja, ambos os pré-candidatos – Sampaio da Nóvoa deverá formalizar em breve a candidatura – estão dentro dos limites do Bloco, explicou Pedro Soares.

Mas há um “se”a ter em conta, avisa o bloquista. “Se considerarmos depois que nenhuma das eventuais candidaturas representa este espaço, não excluímos a hipótese de apoiar uma candidatura própria à esquerda do Partido Socialista”. E quem seria o candidato ideal? Francisco Louçã, por exemplo? Pedro Soares respondeu não respondendo e insistiu na ideia de que uma candidatura própria apoiada pelo BE seria apenas e sempre uma “solução de recurso”.

O próprio Francisco Louçã já se excluiu desta corrida. Na sexta-feira, no seu habitual espaço de comentário na SIC Notícias, o antigo líder do Bloco de Esquerda afirmou que nos próximos tempos achava “que não” seria candidato a Belém e explicou porquê: “Acho que sou muito novo para isso”. Isto mesmo depois de ter concorrido às presidenciais de 2006, onde, então com 58 anos, conseguiu 292 mil votos (5,32%).

Voltando a Sampaio da Nóvoa e a Carvalho da Silva, Pedro Soares revelou que vê “com simpatia estes dois possíveis candidatos”, embora considere que o ex-líder da CGTP-IN, pelo “percurso político que tem”, se perspetiva como alguém com melhores condições de reunir o apoio dos portugueses.

Ainda assim, “este é um terreno muito movediço, onde está tudo em equação” e é preciso “deixar que as candidaturas se apresentem [naturalmente]”, insistiu o dirigente bloquista. Até porque um eventual apoio do Bloco de Esquerda “depende muito do programa que cada um apresentar”. E no que diz respeito a Sampaio da Nóvoa é preciso perceber que “rumo vai seguir ou que apoios a sua candidatura vai colher”, afirmou Pedro Soares, dando o exemplo da recente “demarcação” de António Costa em relação ao eventual avanço de Sampaio da Nóvoa como prova de que tudo está ainda por clarificar.

Haverá espaço à esquerda para quantos candidatos?

A questão sobre se as candidaturas de Nóvoa e Carvalho da Silva se sobrepõem parece não reunir consenso e promete estender-se até à véspera das presidenciais. Se há quem defenda que é necessário que a esquerda se una definitivamente em torno de um único candidato, há, porém, quem prefira o lema “dividir para reinar” – ou o mesmo que dizer dividir o eleitorado para provocar uma segunda volta, evitando a vitória de um candidato apoiado pelo centro-direita português e fazendo eleger um Presidente da esquerda.

É esta a visão de Pedro Soares, mas também de Daniel Oliveira, um dos grandes promotores da candidatura cidadã Livre/Tempo de Avançar. Ao Observador, o ex-bloquista começou por dizer que as “eleições presidenciais são a menor das preocupações [da coligação]”, mas não se escusou a comentar um cenário em que Carvalho da Silva e Sampaio da Nóvoa avançariam, em simultâneo, para a corrida a Belém.

Em fevereiro, quando começaram a surgir notícias em torno de uma eventual candidatura de Carvalho da Silva, Daniel Oliveira já tinha tecido alguns elogios ao ex-líder da CGTP-IN, uma figura “com pergaminhos e com um currículo indiscutível” – o ex-sindicalista foi, inclusive, um dos primeiros subscritores do Manifesto 3D e os dois estão, ainda, entre os promotores do Congresso Alternativo das Democracias. Mas também não esqueceu Sampaio da Nóvoa:

“Carvalho da Silva, tal como Sampaio da Nóvoa, seriam candidatos capazes de devolver a confiança no sistema democrático aos portugueses. Ambos reúnem competências éticas e cívicas inegáveis”, afirmou Daniel Oliveira, para depois acrescentar que “seria bom se pudessem pôr a experiência e o capital político ao serviço do país”.

Agora, mesmo admitindo que o antigo reitor da Universidade de Lisboa e o ex-líder da CGTP-IN “partilham algum eleitorado”, o ex-BE acredita que há espaço para os dois na corrida a Belém.

“Faz-me uma certa impressão este drama criado à volta da existência de vários candidatos à esquerda. Essa questão nem se põe. As eleições presidenciais são realizadas a duas rondas e, portanto, vejo como um bom sinal, um sinal de vitalidade e uma boa notícia para a democracia o avanço de vários candidatos, sobretudo se surgirem a partir da sociedade civil”, afirma agora ao Observador Daniel Oliveira.

Este é, de resto, um ponto de honra de Daniel Oliveira. “Acho importante que os candidatos procurem primeiro o seu apoio junto da sociedade civil e que façam o seu caminho sem os partidos, que não devem deixar que as presidenciais se confundam com as legislativas”. Ou seja, disse o ex-bloquista, é importante “que haja uma separação clara” entre o que são as eleições para São Bento e as eleições para Belém.

Até porque, como explicou Daniel Oliveira, “os apoios partidários [nas presidenciais] valem o que valem”, lembrando as candidaturas dos independentes de Fernando Nobre e de Manuel Alegre. “Os partidos devem ter o seu espaço político, naturalmente, mas não devem ocupar todo o espaço político”.

Sampaio da Nóvoa mais unitário que Carvalho da Silva

Para o professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Viriato Soromenho Marques, a multiplicação de candidatos poderá provocar a desistência de alguns em detrimento de outros. E Carvalho da Silva poderá ser o primeiro a cair sem nunca ter avançado. “[Neste cenário], é natural que pessoas com valor político como Carvalho da Silva façam aquilo que muitos fariam no seu lugar, que é repensar a candidatura” e “chegar a um consenso” sobre quem avança para Belém.

De resto, o aparecimento de vários candidatos presidenciais à esquerda numa altura tão precoce é, para Viriato Soromenho Marques, um “sinal da dificuldade que as esquerdas têm em encontrar um caminho alternativo”. “Estamos a entrar num fenómeno de negação. O Presidente da República é um órgão importante, mas não deveria ser essa a nossa discussão neste momento”, sublinhou o professor universitário.

Aliás, continuou Soromenho Marques, neste momento a corrida para Belém parece “uma fila para o dérbi” tal é quantidade de potenciais candidatos. “A política tem horror ao vazio e, como não consegue preencher com coisas importantes, fá-lo com coisas menos importantes. Nesta altura, já não se come à mesa com talheres, mas à mão”.

E é neste ponto que o professor universitário discorda de Daniel Oliveira e Pedro Soares: à esquerda, numa corrida onde “sobressaem claramente Sampaio da Nóvoa e Carvalho da Silva”, “quanto maior o número de candidatos, menor é a gravidade política que assume cada candidatura”.

Quanto ao PS, Viriato Soromenho Marques considera que “está a agir como um crepúsculo”, referindo-se aos, alegados, avanços e recuos de António Costa e ao ataque perpetrado por alguns membros do partido ao antigo reitor. “Isto não indicia nada de bom. [Este comportamento] aumenta a possibilidade de a direita ganhar as eleições, numa altura em que na Europa – em Espanha, por exemplo – se está a passar precisamente o contrário”.