As portas, em todo o lado, tinham-se aberto nem há uma hora. As pessoas ainda não eram muitas e, mais do que aproveitarem, passeavam, viam as coisas novas que espreitavam por todo o lado. Como a zona da restauração, à esquerda, numa espécie de piso de baixo, mal se entra, ou a dos stands das marcas, à direita, quase num andar de cima a ladear o corredor de pedra calçada que dá as boas-vindas a quem entra. Nem isto, nem as nuvens sem rachas para o sol espreitar, ajudavam a que nas bancadas do estádio chegassem a estar 100 pessoas. Nem Artur Completo ou Pedro Sousa, portugueses, e talvez desconhecidos, para quem não anda sempre de olho no que se passa no ténis.

Os dois batiam bolas no primeiro jogo que o court central do Millennium Estoril Open acolheu, no sábado, no Centro de Ténis do Estoril que a organização mascarou para ali se montar o maior torneio português. Era, e é, uma coisa nova por ali e isso viu-se ao início, quando os controladores das portas de acesso ao estádio abriam alas para adeptos entrarem enquanto andavam a ser disputados pontos no court — algo que não é permitido. “Por favor, sente-se”, chegou a dizer, por várias vezes, o juiz que estava sentado na cadeira durante esse primeiro jogo, às pessoas que entravam e não encontravam logo o lugar para se sentarem. Depois, lá atinam: a meio do primeiro set já não se esquecem que adeptos é coisa que só entra nos intervalos entre pontos.

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O encontro lá foi andando e Pedro Sousa acabou por ganhar e continuar vivo na fase de qualificação do torneio. Fê-lo no court rodeado por bancadas, com lugares para cerca de 3 mil pessoas, que roubava as atenções aos outros três que, no sábado, foram acolhendo jogos do Qualifying. Só houve um, e durante cerca de uma hora, ao qual não roubou olhares interessados.

Estava ali mesmo à beira do estádio, servindo de paisagem para o último portão no qual se tem de passar para aceder às bancadas. Por volta das 11h lá estava ele, de boné para trás, bem-disposto, com a mesma cara que cobre dezenas de cartazes espalhados no complexo do Estoril Open. Era João Sousa, hoje o melhor tenista português, 56.º do ranking ATP, que ia batendo umas bolas. As pessoas iam-se juntado perto da rede e de muitas se ouviu sair a mesma pergunta: “Quem é este contra quem o João Sousa está a jogar?” Jogar não, treinar. E o este era Marinko Matosevic, um grandalhão australiano, nascido na Bósnia, e número 89 do ranking.

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Foram batendo bolas, trocando piadas e atirando aplausos uns aos outros pelo mal que faziam a quem estava do outro lado da rede. Atento a tudo, no court e também de raquete na mão, estava Frederico Marques, o treinador. “Foi um treino de adaptação. Já vimos que as condições estão muito lentas. A bola fica rápida nos primeiros 10 minutos, mas depois fica já mais cheiinha, com muito pelo, como costumamos dizer”, explica, no final, ao Observador, risonho apesar de tanto ele, como João, estarem “um bocadinho cansados” da “terceira semana seguida” que já levam a viajar de um lado para o outro. Eis a razão para que, ali, na hora anterior, tenha sido “só mesmo ver as sensações em relação ao campo, às bolas, às cordas das raquetes e ao vento”.

É já depois de distribuir autógrafos em papéis e sorrisos para selfies que Frederico tem tempo para falar com o Observador. Ele e João são caras conhecidas e as que os adeptos mais esperam ver brilhar no torneio. “Vimos para ganhar jogo a jogo. Este é um torneio especial, jogamos em casa e claro que gostávamos de fazer um bom resultado, tal como queríamos a semana passada e na próxima. Gostamos de estar à frente do nosso público, das pessoas que nos apoiam e mandam mensagens o ano todo”, resume, ao falar do que esperam para uma prova que, até ali, via como “espetacular”. Algo que também tem ouvido da boca dos outros jogadores, os estrangeiros, que já chegaram ao Estoril. “Gostam do hotel, estão contentes, mas ainda naquela do ‘Vai-se comer bem, ou não?’ Portugal tem essa fama e as expectativas, por isso, estão muito altas”, conta, com risos a servirem de vírgulas para as frases que dispara.

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Frederico e João vão “tentando saber a opinião dos outros jogadores” para, já que “têm a sorte de estarem próxima da organização”, irem transmitindo o feedback. Um feedback que, pelos vistos, vai sendo bom. O treinador, depois, lá se retira para a área restrita aos jogadores, onde até está um court tapado, escondido da vista ao público, mas só quem for mais rápido tem acesso — os tenistas, para treinarem, inscrevem-se consoante os courts e horários que pretendem e os que estão disponíveis. E não é fácil: há 24 jogadores no quadro principal e dezenas de outros na fase de qualificação, que termina este domingo.

O que existe às dezenas, vestidos a rigor, de azul, e sempre num reboliço, de um lado para o outro, são os juízes de linha. Os tais que estão sempre no meio do court central, a rodearem o campo, com os olhos focados nas linhas. Há cinco anos que Pedro Almeida é um deles, desde que um amigo lhe disse para experimentar. Gostou, quase tanto quanto gosta de jogar ténis, algo que começou a fazer quando tinha 11 dos 27 anos contados de vida. Diz que “vale a pena” por ser “uma semaninha bem passada” — o Estoril Open realiza-se até 3 de maio –, mesmo que não seja nada fácil. “Às vezes estamos lá tanto tempo e ficamos um bocado com aquela monotonia do jogo. Imagina que os tenistas estão a cruzar direitas e, de repente, vai uma esquerda para cima da linha, para perto de ti. Tens de estar concentrado. Mas vale mais a pena não ter a certeza e estar calado do que chamar uma bola [gritar e dizer que bateu fora], interromper o jogo e depois, vai-se a ver, e ela era boa”, explica.

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Pedro diz, porque também ouve dizer, que “o mais difícil é a linha de serviço, pois apesar de ser apenas um ponto, só quando o tenista serve, a bola é mais rápida”. O que mais gosta é de estar na linha de base, ao fundo do court, onde já tem algumas histórias para contar. “Uma vez, no centralito do Jamor, esteve cá o Milos Raonic, aquele canadiano grandalhão”, conta, falando do atual 6.º classificado do ranking. “Tem um serviço gigante e ali não tinhas espaço para fugir, estavas mesmo em cima do jogador. Ou seja, tens o tenista a responder mesmo ao teu lado e, do outro, um jogador a mandar grandes sticadas e a atirar bolas contra ti a 200 quilómetros por hora”, diz, hoje rindo-se ao recordar o que, na altura, lhe complicou a vida.

Já lhe aconteceu de tudo. Desde “um jogador a passar-se e a refilar” com ele, num jogo de pares, por ter gritado fora a uma bola que bateu em cima da linha, depois de desviar na tela da rede. Ou o juiz de cadeira o corrigir e dizer que a bola que Pedro vira fora, afinal, batera dentro do campo. E, pelo sim, pelo não, até já ficou calado. “Acontece muitas vezes. Quando estás na dúvida se a bola é dentro ou fora, mais vale dizeres que é boa [ou seja, não dizer nada] e deixares o jogo correr. Depois, ou o jogador ou o árbitro interrompem, mais vale serem eles do que tu. Porque se interrompes e a bola foi boa, o ponto tem de ser repetido. E a culpa foi tua“, argumenta, até que, às tantas, olha para o relógio e vê a sua equipa aproximar-se do estádio. Era o sinal que precisava para se preparar.

Minutos depois estava a entrar, de óculos escuros na cara e boné a tapar a cabeça, no court central, para ajuizar o final do jogo entre João Domingues e André Gaspar Murta, que o segundo venceu. Ainda ficaria para o último que, no sábado, primeiro dia do Millennium Estoril Open, o estádio acolheria, em que o outrora finalista (em 2010) Frederico Gil, de 30 anos, atropelou (duplo 6-1) Duarte Vale, de 16, altura em que as nuvens já iam dando umas pingas de água a ameaçarem chuva e perto de 300 pessoas preenchiam as bancadas do estádio.

Pedro Almeida gosta de tudo isto e por isso está sempre pronto para voltar a fazê-lo. O dinheiro que recebe em troca, diz, não é muito, mas também garante que não é isso que importa. “Fazemos isto por gosto”, assegura, ao revelar que ele e dezenas de outros juízes de linha “jogam ténis há muitos anos” ou “são da faculdade de desporto”. Por isso, fora do Estoril Open e no resto do ano, já são “um grupo de amigos”.