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Os especialistas sabiam que estavam numa corrida contra o tempo, mas os 50 sismólogos e investigadores sociais que, há uma semana, chegaram a Katmandu, capital do Nepal, para estudar as maneiras de preparar a cidade para um sismo como o de 1934, nunca pensaram que esse dia, e esta desgraça, chegassem tão rápido.

“Era uma espécie de pesadelo que [sabíamos que] ia acontecer”, disse o sismólogo James Jackson, chefe do departamento de ciências da terra na Universidade de Cambridge, em Inglaterra. “O que ocorreu física e geologicamente foi exatamente o que tínhamos pensado que aconteceria”, rematou, embora admitindo que nunca pensou que chegasse tão rápido esse dia.

Há muito tempo que se falava que um sismo iria abalar Katmandu e com consequências graves, desde logo porque a cidade se encontra numa falha sísmica natural. Mas a dimensão dos estragos estão mais relacionados com as características do próprio local: uma cidade pobre, congestionada, excessivamente urbanizada e com construções de má qualidade.

“São os edifícios que matam as pessoas, não são os terramotos”, defendeu Jackson, que é também o cientista-chefe do grupo Terramotos sem Fronteiras, que tem por objetivo tentar reforçar a capacidade dos países asiáticos se recuperarem deste tipo de catástrofes.

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O governo do Nepal tem feito esforços para melhorar a construção, mas, dizem os peritos, tal progresso é dificultado pela pobreza e pela corrupção e, por isso mesmo, ficam muito aquém do que é necessário.

A ONG californiana Geohazards International, que promove projetos para reduzir o impacto das catástrofes naturais em países pobres, estimou, num relatório de 2001 que um terramoto semelhante ao de 1934 mataria 40 mil no Nepal e, num relatório atualizado este mês, alertou para os riscos crescentes que os habitantes do Vale de Katmandu corriam. Esta mesma ONG avisou que mais ou menos a cada 75 anos o Vale de Katmandu seria cenário de um terramoto intenso.

Os nepaleses foram afetados, no sábado, por um sismo de 7,8 na escala de Richter. O balanço oficial deste desastre natural já vai em mais de 3.617 mortos e mais de 6.500 feridos, com uma situação de emergência decretada e os serviços de saúde em colapso. As autoridades admitem que centenas de pessoas podem estar soterradas em aldeias que desapareceram completamente e que tinham populações entre 100 e 1.000 habitantes. Cerca de 90 pessoas morreram também em países vizinhos, incluindo a China e a Índia, devido ao sismo com magnitude de 7,8 na escala de Richter.