Timor-Leste inspirou o grupo de hackers português mais conhecido, o TOXyn, a realizar, entre 1997 e 1998, a que é considerada a primeira campanha de “defacement” – a alteração ilegal do aspeto de uma página online – da história.

A campanha “hacktivista” intitulou-se “Free East Timor – Free Xanana Gusmão” e foi levada a cabo em defesa da independência timorense com ações sucessivas de ‘defacement’ a várias páginas web relacionadas com a Indonésia.

Comuns atualmente – há ‘defacements’ regulares em todo o mundo, muito dos quais não chegam sequer a ser conhecidos do grande público – este processo de protesto era, nessa altura, insólito e pouco visto.

O livro Hackstory.es – com “a história nunca contade do underground hacker da Península Ibérica” – recorda esta campanha afirmando que foi a primeira, sustentada, a usar este método.

Citando o livro e recorrendo ao arquivo de um hacker veterano, Jericho, o jornal El Mundo recordou esta semana o que se considera o primeiro ‘defacement’ da história, realizado por motivos políticos: o assalto à página web do Departamento de Justiça dos Estados Unidos em 1996 em protesto contra o Communications Decency Act.

Porém este foi um ato isolado e acabou por ser a campanha dos TOXyn, que começou um ano depois, a ser a primeira sustentada baseada nos ‘defaces’.

Na campanha da TOXyn participaram vários hackers, incluindo do grupo português Pulhas e o catalão Savage, antes conhecido como The Phreaker, membros do grupo Apòstols.

Coube a Savage, refere o livro, escrever alguns dos programas que se usaram para atacar de forma massiva servidores do Governo da Indonésia.

“Conheci os elementos do TOXyn em 1996 quando tentaram entrar em algumas máquinas do meu ISP. Ficámos amigos e em 1997 fiz algumas coisas impublicáveis que utilizaram na campanha contra a indonésia”, recordou Savage.

A intenção dos TOXyn era “chamar a atenção” para o problema de Timor-Leste e assaltar páginas web e alterar as suas páginas principais era a arma perfeita.

O jornal recorda que o primeiro ataque ocorreu a 10 de fevereiro de 1997 contra o servidor do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Jakarta, tendo-se seguido outros ataques a 24 de abril e 30 de junho.

Em cada um a TOXyn mostrava a lista de servidores governamentais e comerciais – dezenas – que tinha assaltado desde o último ‘deface’.

O ataque mais destrutivo ocorreu a 22 de novembro de 1997 quando caiu a web da Agência para o Desenvolvimento e Aplicação da Tecnologia e com ela se apagaram todos os dados de 27 servidores atacados de forma simultânea.

A ação foi assinada pelo UrBan Ka0s y Portuguese Hackers Against Indonesian Tiranny (P.H.A.I.T.).

Foi o único caso de destruição de dados sendo que a TOXyN sempre manteve que nas suas ações “nunca se apagou ou destruiu nada, só se hackeou as suas páginas”.

“Somos como outros manifestantes nas ruas que simplesmente têm a habilidade de poder entrar nestes sítios. Podem tentar restringir a informação, mas a tecnologia permite que sejamos todos iguais”, justificava o grupo.

A campanha continuou até 1998, um ano antes do referendo que daria a independência a Timor-Leste.