Quem por estes dias passe na Avenida Guerra Junqueiro, em Lisboa, talvez se espante por aquela típica artéria lisboeta já não ter o aspecto que mantinha há anos: as árvores que a caracterizavam foram podadas em nome da segurança e a mudança paisagística foi tal que a contestação não demorou a surgir nas redes sociais. Agora, são as árvores da contígua Praça de Londres que vão ser podadas – mas onze já têm o destino marcado: vão ser abatidas.

Num relatório de avaliação do arvoredo da zona, elaborado em julho de 2014, ao qual o Observador teve acesso, técnicos da Câmara Municipal de Lisboa consideram necessário o abate de 27 árvores na Avenida Guerra Junqueiro e na Praça de Londres por apresentarem uma “perigosidade elevada” para pessoas e bens. Foi essa a justificação, aliás, que levou a junta de freguesia a podar as árvores da Guerra Junqueiro na semana passada e gerou uma onda de indignação entre moradores e movimentos de cidadania.

“Eu tenho de garantir a segurança do cidadão que passa na rua”, diz Fernando Braamcamp, autarca do Areeiro, ao Observador, referindo “uma série de acontecimentos”, nos últimos meses, em que ramos das árvores caíram na Guerra Junqueiro e na Praça de Londres. “Felizmente sempre em cima de automóveis” e não de pessoas, diz Braamcamp, que ainda assim sublinha que a junta se viu obrigada a desembolsar “mais de 10 mil euros” na reparação das viaturas.

Apesar da medida, o presidente da junta do Areeiro, eleito pelo PSD, admite que também a ele lhe faz confusão ver a avenida mais despida do que nunca. “Lembro-me de ver a Guerra Junqueiro [como] uma avenida extremamente agradável, um ex-líbris daquela zona. Não me agrada, mas não há outra forma de gerir a cidade”, diz o autarca, sublinhando que “há que proteger as pessoas”.

O argumento, no entanto, não colhe junto de alguns moradores e comerciantes, que se manifestaram no Facebook, considerando “desastrosa” a intervenção no arvoredo promovida pela junta. A plataforma MaisLisboa lançou um abaixo-assinado contra a medida (conta com 363 assinaturas) e o tema vai ser levado à reunião camarária desta quarta-feira pela mão dos vereadores comunistas, que vão procurar junto do executivo de Fernando Medina explicações para o “abate indiscriminado de árvores feito pelas juntas”.

Câmara sabia do mau estado das árvores desde 2012

O relatório da câmara elaborado em julho de 2014 foi feito com base numa “avaliação visual” dos freixos existentes na zona e numa outra inspeção, realizada em outubro de 2012, pelo Instituto Superior de Agronomia, de que Braamcamp se queixa não ter sabido. A câmara, diz, “entregou-nos o estudo de 2012 nos finais de 2014, inícios de 2015”, daí as podas estarem a ser feitas agora. Mais, o autarca queixa-se de que “a câmara municipal não fez rigorosamente nada” na manutenção dos freixos nos últimos 50 anos.

No documento de 2012, o Instituto Superior de Agronomia sinalizou seis freixos na Praça de Londres e 20 na Guerra Junqueiro como apresentando “perigosidade elevada”. Exceptuando uma árvore, todas as outras estavam sinalizadas com “perigosidade moderada”. Já no relatório de 2014 é proposto o abate de onze árvores desta espécie na praça e de 22 na avenida, algo que a junta pretende cumprir.

Apesar da contestação na internet, alguns moradores e comerciantes com quem o Observador falou no local não pareciam totalmente contra a poda. Há 52 anos que Carlos Lopes Nunes engraxa sapatos em frente à Pastelaria Mexicana, numa das pontas da Guerra Junqueiro, e garante que as árvores, que estão ali desde essa altura, nunca foram podadas antes. “Têm caído diversas pernadas”, diz, explicando que uma delas “por pouco” não lhe acertou. Ainda assim, o engraxador considera que as árvores “deviam ser limpas todos os anos”, sem ser preciso agora “arrancar tudo”. Também uma funcionária de uma perfumaria, que preferiu não ser identificada, disse que “já se ouvia falar de uma poda, mas não tão grande”. Contudo, afirmou também, a limpeza dos freixos era “uma necessidade”, dadas as quedas de pernadas.

Ainda não é certo quando os abates serão feitos, “provavelmente no final do verão”, diz Fernando Braamcamp, que no entanto tem uma certeza: no lugar das árvores velhas não haverá freixos. Para a Praça de Londres vão magnólias, para a Avenida Guerra Junqueira vão liquidâmbares.