O antigo primeiro-ministro português e ex-presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso considerou hoje que uma saída da Grécia do euro seria negativa, mas gerível, e admitiu que pode decidir-se nos próximos dias.

Durante uma conferência promovida pela associação cívica Plataforma para o Crescimento Sustentável, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, Durão Barroso voltou a apontar uma saída da Grécia do euro como mais provável hoje do que há dois ou três anos.

“É gerível uma saída da Grécia do euro, mas é negativa do ponto de vista do precedente que abre. Portanto, se a Grécia sair do euro, não vai haver, penso, imediatamente uma turbulência dos mercados, como teria havido alguns anos atrás, com efeitos terríveis de contaminação e de contágio”, afirmou.

Durão Barroso, que abordou este tema em resposta a uma questão da assistência, acrescentou: “Mas é um precedente mau, é um precedente negativo que se abre, razão pela qual deveríamos fazer tudo para evitar que tal aconteça. Haverá sabedoria do lado grego e do lado dos parceiros do euro que evite isso? Não sei”.

Segundo o ex-presidente da Comissão Europeia “a questão pode decidir-se nos próximos dias”, tendo em conta a informação dada pelo Governo grego de que “não poderia cumprir o pagamento de um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) já no mês de junho se não se conseguisse entretanto um acordo”. “É uma questão que está neste momento em discussão. Eu vou estar, aliás, esta semana para alguns contactos informais em Bruxelas. Espero ter aí mais notícias, e ver se conseguem evitar, de facto, uma situação que não é boa”, concluiu.

Durão Barroso defendeu que se a Grécia sair do euro isso “não é bom para nenhum país”, mas desdramatizou esse cenário: “A dar-se isso hoje, será muito diferente de que se tivesse dado no passado. Porque entretanto os outros países já demonstraram que era possível adaptarem-se, e conseguirem concluir programas de ajustamento, nomeadamente Portugal e a Irlanda. Mesmo o Chipre está no bom caminho”.

“Por isso, se a Grécia hoje sair os mercados pensarão que não é tanto por debilidade do sistema, é mais por debilidade da Grécia. Também como a dívida grega hoje está essencialmente nos outros países europeus, no Fundo Monetário [Internacional] e no Banco Central Europeu, e não nos bancos, não vai haver os efeitos de contaminação que podem gerar instabilidade no sistema financeiro”, sustentou.

Antes, o ex-primeiro-ministro fez uma intervenção a história e a geografia portuguesas e a identidade nacional, no final da qual apontou a crise dos últimos anos como “um teste à convicção europeia de Portugal” e deixou críticas a “setores das elites” do país. Durão Barroso considerou que se assistiu neste período recente ao “regresso de algumas tentações nacionalistas em alguns dos setores das elites portugueses”, que “antes não se tinham afirmado contra a integração europeia” – e que associou “centralismo” e “clientelismo de Estado”.

“Foi fácil desculpabilizar o país da situação, a tendência para atribuir a outros as responsabilidades próprias, culpando o euro, culpando a Europa, culpando até dos alguns países que nos emprestaram dinheiro em situação de rutura financeira, em vez de se analisar com maior rigor o que é que levou Portugal a colocar-se numa situação de dependência nacional, à beira da insolvência”, criticou.

De acordo com Durão Barroso, contudo, “graças à chamada saída limpa” do programa de resgate, Portugal “evitou desastres muito maiores” e “conseguiu superar também este obstáculo”.