Pais e Filhos

Fazer uma volta ao mundo antes da escola primária

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De mochila às costas, há famílias portuguesas a partir à aventura pelo mundo. São famílias nómadas onde os filhos também seguem viagem. A experiência pode ajudar no desenvolvimento das crianças.

Inês deu a volta ao mundo com os pais em 2012, tinha cinco anos.

Diário Pikitim / http://www.pikitim.com/

Autor
  • Raquel Salgueira Póvoas

Move-os a vontade de conhecer outros sítios, outras histórias, pessoas e culturas. De explorar e de se conhecerem a si próprios noutros contextos. Os pais aventureiros com carimbos no passaporte e com uma vontade constante de rumar além-fronteiras são assim.

Quando a família aumenta, as mochilas à porta prontas para embarcar aumentam na mesma escala. E assim continuam, de aeroporto em aeroporto, de escala em escala.

Foi assim que aconteceu com a família de Inês, a menina de oito anos — na altura com cinco — que é mais conhecida por “Pikitim”, e é assim que vai acontecer com a de Mia, uma bebé de 18 meses que também tem uma segunda forma de ser tratada, por “Menina Mundo”. A primeira já voltou de uma viagem à volta do mundo com os pais, a segunda está prestes a partir.

Filipe Morato Gomes e Luísa Pinto pensaram pela primeira vez em viajar à volta do mundo com a filha quando ela ainda tinha poucos meses. “Engavetaram a ideia” durante uns anos e quando Inês estava prestes a entrar para a escola primária planearam a viagem, juntaram dinheiro, preparam a família e partiram durante dez meses.

Aconteceu em 2012. Singapura, Austrália, Nova Zelândia, Ilhas Fiji e Vanuatu foram algumas das paragens.

Foi uma viagem exigente e difícil, estarmos juntos 24 horas por dia durante dez meses não é fácil. Mas foi extraordinariamente recompensadora em termos pessoais, profissionais e familiares”, contaram os pais ao Observador.

Borobudur

Diário Pikitim / http://www.pikitim.com/

Para ambos, esta viagem continua a ser, com certeza, uma peça chave no crescimento de Inês. Hoje, o mais gratificante para Filipe e Luísa é “ter a noção exata do quanto essa experiência está a contribuir para o seu crescimento, para a tornar numa mulher mais curiosa, confiante, desenrascada, consciente dos problemas ambientais, tolerante e respeitadora das diferenças entre os povos. E mais bem preparada para enfrentar a vida adulta.”

O percurso profissional dos pais contribuiu para o impulso. A mãe é jornalista, o pai deixou a profissão que desempenhava há anos para se dedicar à escrita de crónicas e reportagens de viagens.

Depois da viagem com a “sociável, curiosa, criativa e tagarela” Inês, Filipe decidiu escrever um post no seu blogue de viagens intitulado “Viajar com filhos pequenos: 7 coisas que os pais devem saber”, para incentivar os pais a viajar mais com os seus filhos. Ao mesmo tempo, a mãe criou o “Diário da Pikitim”, com o relato dessa volta ao mundo em família. O blogue cresceu e hoje reúne histórias de outros pais que também tomaram a mesma decisão.

Acreditamos sinceramente que a estrada é a melhor escola da vida, como complemento ao ensino tradicional, e este é o nosso humilde contributo para ajudar a ‘descomplicar’. Sabemos que já influenciámos outras famílias a perder os medos, e isso é muito gratificante.”

A primeira grande viagem da “Menina Mundo”

Quem também perdeu o medo foi a família da pequena Mia, de 18 meses. Quando o Observador lhes perguntou quando decidiram viajar durante tanto tempo com a filha ainda tão pequena, não conseguiram identificar o momento-chave da tomada de decisão. Mas sabem que a pergunta “e se fossemos?” ficou sem resposta por pouco tempo. Do lado de Nélson, o pai, houve a preocupação quanto ao trabalho, os custos, o que iriam perder. Do lado da mãe, Miriam, houve o incentivo e a visão do que poderiam vir a ganhar.

O início da viagem está agendado para setembro e os primeiros seis meses vão passar-se entre a China, Vietname, Cambodja, Laos, Tailândia, Malásia, Singapura, Indonésia, Índia e Sri Lanka (não necessariamente por esta ordem). Depois vão decidir se continuam para a América do Sul ou se seguem para África.

Vamos com uma boa dose de flexibilidade e margem de manobra, respeitando o ritmo e a adaptação da Mia a cada poiso. Viajar com uma criança obriga a essa flexibilidade e a um ritmo diferente.”

Um dos objetivos que os pais identificam com a realização desta viagem é “crescer”. Não apenas nos números de países visitados, mas noutros aspetos como os que dizem fazer bem “à alma e ao coração”. E o maior dos crescimentos — durante um ano –, será também o de Mia que, dizem, “crescerá em palavras, em pernas, em braços, em capacidade de adaptação a novos locais, ruídos, pessoas, novas formas de estar, de sentar, de comer, de brincar, de ser criança”.

Saberemos situar muitas primeiras vezes dela em diferentes locais: as palavras que ela dirá pela primeira vez na China, a primeira vez que tocará um elefante na Tailândia, a primeira vez que se verá de todas as cores no Holi, na Índia.”

Apesar do ano e meio de vida, já houve outras vezes em que Mia saiu do país: aos três meses fez a primeira viagem de avião para ir aos Alpes suíços, aos cinco meses foi ao Mediterrâneo, aos 13 voltou à neve helvética.

Nos Alpes suíços

Nelson Paiva

As próximas aventuras além-fronteiras vão ser registadas também num blogue, “Menina Mundo”. Antes da partida, a mãe já escreveu um post sobre “tudo o que precisa de saber para viajar com um bebé”.

O que ganham as crianças?

Inês Afonso Marques, psicóloga clínica e coordenadora da equipa Mindkiddo – área infanto-juvenil da Oficina de Psicologia –, explicou ao Observador que viajar com crianças pode ter imensas vantagens.

As crianças gostam de aprender assumindo um papel ativo nesse processo – experimentando, vivenciando, mexendo. O contacto direto com outras línguas, outros sabores, outras formas de vestir, outros cheiros, outros climas, outras rotinas, outros movimentos, fomenta a curiosidade e a vontade de questionar e de mais saber. Por outro lado, as crianças acabam por desenvolver estratégias de adaptação a novas realidades, sendo capazes de ‘fugir’ às suas rotinas de forma relativamente tranquila. A diversidade que encontrarão nas viagens também permite à criança desenvolver o respeito pela diferença, percecionando de forma integradora a existência de realidades mais ou menos diferentes da sua.”

De acordo com a psicóloga, não há uma altura aconselhável para se começar a viajar com crianças. “Tudo dependerá essencialmente das expectativas dos adultos em relação às mesmas, assim como da capacidade de planear a viagem antecipadamente. Serão os imprevistos aquilo que poderá gerar maior stress, aos pequenos e aos graúdos, longe das suas casas.”

Por isso, deixou alguns conselhos aos pais que optem por seguir este rumo. Alguns não são novidade, outros  vão ajudá-lo a “descomplicar” e a tornar a experiência ainda mais enriquecedora, se quiser fazer as malas como estas duas famílias:

  • Se a viagem até ao destino for longa, independentemente do meio de transporte eleito, pode ser útil levar uma mochila cheia de brinquedos e atividades diversas, como livros para colorir ou autocolantes, livros com imagens e roteiros do destino, plasticinas ou pequenos puzzles que ajudam a criança a distrair-se e a evitar sentir-se aborrecida.
  • Deve incentivar o seu filho a manter um diário de viagem. Ou seja, um caderno para encher de desenhos das paisagens, dos monumentos ou dos estados de espírito e onde escrever as palavras que retratem os locais visitados e as vivências nesses locais. A criança ficará em êxtase se, para além de um diário, tiver direito a uma máquina fotográfica só para ela, em que possa escolher os melhores ângulos dos locais que visita, em que observará o que a rodeia e selecionará aquilo que mais lhe interessa. É provável que os pais se surpreendam com os resultados.
desenho ines

Durante a viagem, Inês levou os lápis de cor e os cadernos para desenhar as suas aventuras. Foto: Diário Pikitim

  • Preparar um kit de primeiros socorros.
  • Saber a localização do hospital mais próximo do local onde ficarão alojados.
  • Fazer reservas de alojamentos, evitando ansiedades de última hora.
  • Deixar de lado inflexibilidades e levar na mala uma dose extra de paciência e descomplicação, isto porque as crianças são também mais vulneráveis a mudanças bruscas de horários ou mesmo a certas doenças.
  • Planear. Isto não significa ter uma agenda fechada, com horários rígidos para tudo. As crianças adoram explorar e não sentem a responsabilidade de cumprir horários. Por esse motivo, qualquer viagem deve incluir tempo “extra” para passeios sem rumo, para paragens com olhares atentos nos movimentos das ruas.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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