Numa altura em que as negociações entre gregos e credores continuam longe de conhecer um final feliz, a hipótese de a Grécia sair da zona euro está a ser encarada com muita preocupação por vários membros do Partido Socialista, que se têm desdobrado ora entre críticas ao “imperial” FMI e à falta de solidariedade dos parceiros europeus, ora à estratégia de “confrontação” seguida por Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis.

Para a direção do PS, os dois lados da barricada falharam. Os gregos por não terem procurado o apoio dos outros parceiros europeus e por se te terem isolado no palco das negociações. E os restantes parceiros, com o Governo português à cabeça, porque não fizeram tudo o que podiam para chegar a um acordo.

Esta é, pelo menos, a posição oficial do partido. Na segunda-feira, António Costa definiu o tom dos socialistas e, num artigo publicado na edição digital do jornal Ação Socialista, acabou por disparar em todas as direções:

“É urgente substituir o confronto entre posições radicais por uma negociação construtiva. A intranquilidade que estamos a viver demonstra a imprudência de quem, como o Governo português, não se empenhou num acordo e o erro estratégico de quem pensa ser possível virar a página da austeridade numa posição unilateral de confronto“.

Entre “o erro estratégico” dos parceiros europeus e a “posição unilateral de confronto” do Governo helénico, António Costa fez questão de deixar um aviso para o futuro: é preciso investir na “construção de alianças à escala europeia que permitam construir alternativas no quadro do euro”. Até lá, todos os Estados-membros devem respeitar o referendo e a vontade do povo grego, insistiu o secretário-geral do PS. Mas na hora de atribuir responsabilidades, nem todos os socialistas que se pronunciaram sobre o mais recente episódio da crise grega escolheram o Governo de Tsipras como corresponsável deste impasse negocial.

É o caso de João Cravinho, por exemplo. Ao jornal i, o ex-ministro e dirigente do partido denunciou a existência em Bruxelas de “um desprezo absoluto pela democracia” e comparou o “imperial” FMI à Inglaterra vitoriana.

“O FMI arroga-se do direito de dizer, dentro de cada país, quem deve ser aliviado de impostos e quem deve ter maior carga”. Nem a Inglaterra vitoriana, no auge do seu poder, ousou ser tão imperial como o FMI”, afirmou Cravinho.

Antes dele, já Manuel Alegre tinha sido muito duro com aquilo que considera ser a “ditadura da finança” e o espírito de “soberania limitada” que atravessa hoje a Europa. E numa mensagem que pode ser entendida também como um recado para a direção do PS português, o poeta pediu aos socialistas europeus que tivesse uma “posição mais firme” e se deixassem de “posições de meias-tintas”.

“A Europa está a transformar-se numa ditadura da finança e as posições dos seus responsáveis fazem-nos lembrar a doutrina Brejnev [antigo presidente do Soviete Supremo e chefe de Estado da União Soviética] sobre soberania limitada. Gostaria de ver os socialistas europeus com uma posição mais firme. Uma situação destas não pode ser abordada com posições de meias-tintas”, afirmou Alegre em declarações à Agência Lusa.

Também Sérgio Sousa Pinto, da ala esquerda do partido, veio a terreiro criticar a rejeição da proposta grega, que precipitou novo impasse nas negociações. Num comentário publicado este sábado na página oficial do Facebook, o deputado escreveu que “melhores ou piores, as propostas gregas poderiam ter sido apresentadas por qualquer partido social-democrata ou democrata cristão”.

E se dúvidas restassem em relação à posição de Sérgio Sousa Pinto, o secretário-nacional do PS fez questão de dissipá-las: “[As propostas de Atenas] foram recusadas por razões políticas idênticas às que ditaram várias inaceitáveis intromissões anteriores na política interna democrática dos estados”.

No entanto, e apesar das posições assumidas por Cravinho, Alegre e Sousa Pinto, a linha oficial do partido foi-se pautando pela divisão de responsabilidades entre gregos e credores. No domingo, Carlos César veio a público criticar tanto a via de austeridade escolhida por Pedro Passos Coelho como o “radicalismo inconsequente, improdutivo, destruidor da unidade europeia e destruidor das economias nacionais como, por exemplo, o que é seguido pelo novo Governo grego”.

Tal como Costa e Carlos César, também Marcos Perestrello, líder da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) do PS, criticou o Governo português por “não se empenhar na obtenção desse acordo”, ao mesmo tempo que atribuía responsabilidades ao Executivo de Alexis Tsipras por ter “assumido uma opção estratégica de confrontação com as instituições europeias”.

Lagarde está a ser pressionada por Wolfgang Schäuble, diz eurodeputada socialista

Maria João Rodrigues, vice-presidente dos Socialistas Europeus, revelou esta terça-feira que o acordo entre gregos e credores estava “no melhor caminho”, mas acabou por cair por vontade das “forças conservadoras na Europa”.

Mesmo admitindo que nos últimos tempos o Governo de Alexis Tsipiras “adotou uma atitude mais confrontacional”, a eurodeputada não tem dúvidas em imputar responsabilidades a Christine Lagarde e a Wolfgang Schäuble, diretora-geral do FMI e ministro das Finanças alemão, respetivamente.

“Não tenhamos ilusões, por detrás disso estava a posição, nomeadamente, do ministro das finanças alemão, que tem conseguido pressionar a sra. Lagarde, nomeadamente porque a sra. Lagarde está agora num ponto crítico da sua carreira, que é ser reeleita para diretor geral do FMI”, acusou Maria João Rodrigues.

Apesar dos obstáculos que existem e que foram sendo colocados pelos dois lados da barricada, Maria João Rodrigues acredita que ainda é possível chegar a uma solução. E tal como os seus colegas de partido, a eurodeputado acusou o Governo português de não se ter batido pela melhor solução para a Grécia e de ter, inclusivamente, dificultado a negociação.