Mais uma entrevista de José Sócrates, mais um ataque cerrado à justiça: “A minha prisão visa impedir o PS de ganhar as eleições”. É a principal queixa da entrevista dada ao Diário de Notícias e à TSF, publicada nesta terça-feira.

A entrevista foi feita em modo diferido: de acordo com os próprios meios de comunicação, as perguntas foram enviadas por escrito e posteriormente José Sócrates terá escrito à mão as respostas que chegaram através dos advogados. Por isso não houve contraditório e a entrevista não seguiu os padrões normais – tendo mesmo o preso recusado responder a questões relacionadas com os empréstimos de Carlos Santos Silva e o estilo de vida que teve. Respondeu sim a várias questões relacionadas com o processo, ligando-o de forma direta às eleições legislativas que se aproximam.

Precisamente por causa da “legítima suspeita” de que o processo serve para prejudicar as hipóteses do PS nas eleições, Sócrates promete silenciar “qualquer palavra que possa prejudicar a liderança do PS” neste período pré-eleitoral. E não poupa nas palavras, dizendo-se vítima de um processo que é um “embuste”:

Tenho a legítima suspeita que a verdadeira intenção da minha detenção abusiva e da minha prisão sem fundamento não foi perseguir crime nenhum mas tão só impedir o PS de ganhar as próximas eleições legislativas.

Quando confrontado com declarações de António Costa, que afirmou que “é preciso despoluir o debate político” deste e de outros processos, recusa responder:

Não esperem de mim, em período pré-eleitoral, qualquer palavra que possa prejudicar a liderança do PS. Até porque me ficaria mal.

Logo de seguida, os jornalistas questionam o ex-primeiro-ministro sobre aquilo que já diversas vezes tem sido dito por alguns políticos, de que deve haver uma efetiva separação entre Justiça e política. Sócrates responde:

Como muitas vezes acontece, a simplicidade das fórmulas políticas pode confundir mais do que esclarecer. É muito frequente ser difícil distinguir o discurso da responsabilidade do da covardia e da rendição.”

Já sobre o balanço faz da prisão preventiva, o ex-líder do PS é claro:

Seis meses de prisão preventiva e sem acusação. Seis meses de uma violenta campanha de difamação efectuada e dirigida pela acusação. Seis meses impedido de me defender. Seis meses de ameaças e intimidação (“pessoas próximas ainda em liberdade”, julgo ser a linda expressão que usam). Seis meses de abuso, de arbítrio e mentiras. Seis meses de caça ao homem. Ainda assim, não venceram.”

A isto junta um descritivo detalhado da sua visão do processo, que segundo ele se resume a um chorrilho de acusações sem fundamentação nem credibilidade. Diz não ter sido confrontado com indícios nem provas e utiliza o voto de vencido do juiz desembargador José Reis para se defender e repetir que o comportamento do Ministério Público não é sério.

“A política para si acabou?”, questionam no fim os jornalistas. Responde o ex-primeiro-ministro:

Oh, pelo contrário. Isto ainda agora começou.”