O tema era “o futuro da economia portuguesa” e era o único painel da tarde das jornadas parlamentares conjuntas do PSD e CDS, que decorrem esta segunda e terça-feira em Alcochete. Na mesa, como oradores, para além dos líderes parlamentares das duas bancadas, estavam o economista e ex-presidente da AICEP, Pedro Reis, o empresário e presidente da Renova, Paulo Pereira da Silva, e o jornalista de economia da SIC, Luís Ferreira Lopes. Na plateia, dezenas de deputados dos dois grupos parlamentares, a ouvir e a intervir. Mas ao fim de quase quatro horas de debate nem uma palavra sobre o tema Grécia ou os impactos que o ‘não’ no referendo de domingo podem ter na economia da zona euro e, nomeadamente, no crescimento económico nacional.

O crescimento económico foi apontado desde logo como o tema chave das jornadas e, de resto, como o mote da campanha eleitoral da coligação que já começa a andar na estrada. Daí que o primeiro dia do encontro tenha sido estruturado inteiramente à volta desse ângulo – crescimento da economia, exportações, fiscalidade para beneficiar empresas e atrair investimento, potencialidades do mar, etc.

Mas em Alcochete, as ondas de choque do referendo grego de domingo à noite ficaram apenas reservadas para a parte da manhã, onde Paulo Portas, Luís Montenegro e Nuno Magalhães pegaram no tema incontornável e usaram-no sobretudo para apontar baterias ao PS. Ou seja, os ecos gregos chegaram ao discurso político, mas nem por isso chegaram ao discurso económico. Ao Observador, o deputado social-democrata Duarte Pacheco reconhece a ausência da ‘Grécia’ no painel dedicado à economia, mas adianta uma explicação: “O enfoque que quisemos dar foi sobre o futuro da economia portuguesa no médio e no longo prazo, e não propriamente sobre os efeitos do dia-a-dia, no imediato”, diz, lembrando que o tema quente já tinha sido abordado na parte mais política do dia.

Para o deputado, coordenador do PSD para os assuntos económico-financeiros, é impossível dizer que o que se está a passar na Grécia não afeta a economia portuguesa, assim como as restantes economias da zona euro, por uma questão de relação “credibilidade/investimento”. “O facto de uma economia da zona euro estar mal afeta sempre as restantes por uma questão de credibilidade, na medida em que a falta de credibilidade prejudica a atração de investimento”, diz.

Em todo o caso e mesmo perante o adensar do braço de ferro entre a Grécia e os credores, o social-democrata não dramatiza e relativiza o efeito de contágio: “Se isto [referendo grego] tivesse acontecido há um ano as consequências seriam muito maiores para Portugal”, afirma, sublinhando que estando Portugal já fora do programa de assistência da troika, “já não está no mesmo barco” do que a Grécia e, por isso, não está tão à mercê do dominó.

O debate foi, por isso, centrado nos demais desafios da economia portuguesa, com o ex-presidente da AICEP a alertar para o facto de a Europa estar “há anos a perder o comboio da competitividade” e de esse sim ser o problema número um do crescimento económico nacional e comunitário. Também a questão da lusofonia, das potencialidades da costa portuguesa e da reforma do IRC foram chamados à discussão como sendo temas incontornáveis para relançar a economia nacional e fazê-la crescer. Nas palavras de Pedro Reis, se o próximo governo – “seja ele qual for” – deixar cair a reforma que prevê uma diminuição do IRC para as empresas, “então vamos ter um problema com os investidores externos”.

Antes, a abertura das jornadas tinha cabido ao líder do CDS, Paulo Portas e também aos líderes parlamentares que, aí sim, abriram a porta à Grécia. Os três aproveitaram a onda grega para apontar o dedo ao PS, com Portas a defender que o Governo se moveu pelo “interesse nacional” ao distanciar-se da Grécia, enquanto Costa, se fosse governo, teria “deitado fora os esforços dos portugueses” por “solidariedade ideológica” com o Syriza.