Rádio Observador

Caitlyn Jenner

Ela é Cait, a voz dos transgéneros (agora na televisão)

Com a série "I Am Cait", Caitlyn Jenner quer defender a comunidade transgénero. Para isso vai contar a sua história, abrir as portas de casa e do "closet", e conhecer outras pessoas como ela.

As primeiras imagens de I Am Cait são de uma mulher que se filma, às quatro e meia de uma noite de insónias, com dúvidas sobre a vida: “Será que vou fazer tudo bem? Vou dizer as coisas certas? Vou dar a imagem correta? Tenho a cabeça às voltas. Só espero fazer tudo bem, só espero fazer tudo bem.” É Caitlyn Jenner. Bruce já não existe — a série documental com laivos de reality show não vai mostrar a mudança física, essa está feita.

Nesta confissão de madrugada,  Caitlyn explica o que quer agora: ser a voz de uma comunidade que sofre. Porque nem todos os transgénero têm apoio das famílias e amigos, nem todos têm recursos financeiros, alguns suicidam-se — repete várias vezes ao longo do primeiro de oito episódios de 45 minutos. “Há tantas pessoas transgénero que não têm uma voz. Eu não posso falar por eles, mas sou uma especialista na minha história.”

O programa estreou este domingo nos Estados Unidos e chega a Portugal no próximo dia 2 de agosto, às 19h00, no canal E! Entertainment. Depois da entrevista de Bruce Jenner a Diane Sawyer em abril, da capa da Vanity Fair em junho e do discurso nos prémios ESPYS na semana passada, I Am Cait é a mais recente etapa no acompanhamento mediático da transição de Caitlyn Jenner, outrora Bruce, campeão olímpico e símbolo de masculinidade e superação para os Estados Unidos.

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A capa da Vanity Fair que mostrou a mudança ao mundo.

O programa começa mesmo no início do novo ciclo de vida de Cait — no primeiro episódio, a mãe e as irmãs veem-na pela primeira como mulher. Cait deixa logo claro que esta é uma oportunidade para fazer história e mudar a forma como se olha para todos aqueles que desejaram fazer coincidir o seu corpo com o seu género. O seu testemunho é o ponto de partida e por isso o que se pode esperar de I Am Cait não é um mero vigiar da vida de Caitlyn — a série vai mostrar também pessoas da comunidade transgénero, fazê-las contar as suas histórias, visitar escolas e famílias. A estreia deu uma amostra disto mesmo ao mostrar a visita de Jenner aos pais de Kyler Prescott, o rapaz de 14 anos que se suicidou apesar do apoio da família. Caitlyn acaba por participar num momento de homenagem ao adolescente e diz: “Deem-se com as pessoas que vos amam e apoiam. Nós somos lindos.”

Um “reality show” que parece um documentário

Apesar da produtora do programa ser a Bunim/Murray Productions, a mesma de Keeping Up With the Kardashians — reality show em que Jenner participou como patriarca da família de Kim, Khloé e Kourtney — o estilo do programa será marcadamente diferente, deixam claro os diretores da produtora em entrevista ao The New York Times: “Não há irmãs a gritarem umas com as outras por causa de uma blusa. É um documentário puro sobre um ser humano a começar um novo capitulo na sua vida”, diz Jeff Jenkins, produtor executivo da Bunim/Murray.

“No Keeping Up, se uma das pessoas do elenco diz ‘não quero que filmem isto’, eu digo ‘tens que filmar, tens que partilhar isto, está no contrato, isto é um reality show, é o teu trabalho’”, explica Jenkins, produtor de Keeping Up with the Kardashians e de I Am Cait. “Com a Caitlyn não. Ela está no lugar do condutor, eu não pressiono. É um tema tão sensível que eu sinto que a Caitlyn tem uma melhor noção do que é certo ou errado e nós seguimo-la com a maior honestidade.”

Com um historial de reality tv em que o drama e a discussão são o prato forte — desde The Simple Life, com Nicole Richie e Paris Hilton, ao mais recente Total Divas, que segue as lutadoras da WWE — Jenkins conta, em tom de brincadeira, que quando está a trabalhar em I Am Cait o programa até parece para a PBS, estação pública americana. E se, por vezes, incita algumas situações com potencial dramático noutros programas, aqui apenas liga a câmara e “vê o que acontece”, como diz ao The New York Times.

O que acontece na casa de Caitlyn — que pelas imagens panorâmicas parece ser uma mansão acolhedora perdida em Malibu — não é só uma conversa educativa sobre as dificuldades da comunidade transgénero e sobre como Jenner tem a sorte de ter o apoio da família. Caitlyn Jenner percebe agora o porquê da existência dos soutiens de desporto — é a própria quem o comenta durante uma partida de ténis com a irmã Pam –; tem de se desfazer das antigas camisas — “em que raio estava o Bruce a pensar?”, brinca ao olhar para as riscas em tons pastel –; e toma a decisão de assinar, pela primeira vez, o cartão de aniversário para a mãe como Caitlyn.

Por enquanto, é precisamente na mãe Esther, de 89 anos, que está o ponto mais sensível desta transição. A mãe ainda está a habituar-se: chama-lhe Bruce e troca-se nos pronomes, relembra episódios em que, ainda criança, o então Bruce fazia birras ao comprar roupas de rapaz, questiona-se acerca dos versículos da Bíblia que proíbem homens de vestir roupas de mulher. “Não é nada fácil”, confessa Esther a Caitlyn, “mas eu quero o que tu quiseres”. “Quando o via no pódio pensava que não podia estar mais orgulhosa dele. Estava errada. Estou mais orgulhosa pela coragem que está a ter”, acaba por dizer para a câmara.

Bruce tinha mau gosto para camisas, Cait adora Tom Ford

Ao longo do episódio e à medida que as irmãs, a filha mais nova Kylie e a enteada Kim e o marido Kanye West conhecem a nova figura de Caitlyn Jenner, a questão que assalta a ex-atleta olímpica é o que pensam eles quando viram as costas e voltam para casa? E porque é que os outros filhos e enteados ainda não a visitaram? Questões marcantes para alguém na sua posição, mas também bons ganchos para um episódio futuro.

A questão da representação e dos limites até onde um reality show como este pode ser ou não escrito é aliás um dos pontos fracos apontados pela imprensa internacional nas críticas ao primeiro episódio. “Da maneira como está editado e como os discursos parecem ter sido ensaiados para a câmara, I Am Cait imita a reality tv típica ao forçar a entrada de narrativas dramáticas na vida do dia-a-dia. Se no Kardashians detetar a falsidade e a representação fazem parte da graça, aqui acaba por ser contraproducente”, escreve o The Atlantic.

O New York Times acrescenta que “não há razão para duvidar da sinceridade de Jenner quando cita estatísticas sobre o suicídio entre os adolescentes transgénero, ou quando consola a mãe, mas não há como não notar que ela parece estar a ler um guião”.

Para a Variety, a série ganharia se superestrelas como Kim Kardashian e o marido fossem afastadas. “Enquanto as interações de Jenner com a família são claramente parte da narrativa, enfiar o casal e Kylie no primeiro episódio é um truque baixo, como se o canal E! e os produtores precisassem de uma garantia de que estão a chegar àquela audiência [aos fãs de Keeping Up…] também.”

A presença de Kim não é meramente introdutória do amor da família. No início do episódio já tínhamos visto Caitlyn a preparar-se nervosamente para a chegada da mãe e das irmãs como se estivesse à beira de entrar numa passadeira vermelha: que roupa, que joias, que maquilhagem usar? Quando Kim aparece é altura de entrarmos a fundo no closet: Cait mostra os tons neutros, e um ou outro vestido em que já foi apanhada pelos paparazzi. Finalmente, o vestido Tom Ford que adora. “A mãe tem um igual”, diz Kim sobre Kris, ex-mulher de Caitlyn. “Sabes o que é que era giro?”, continua, “combinávamos um jantar, eu pedia-lhe para usar esse vestido e tu usavas também. Ia ser tão divertido!”

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Caitlyn Jenner

Sentir-se mulher

Lucy Pepper
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Não me incomoda nada que haja homens que queiram ser mulheres, nem que a sua ideia do que é ser mulher seja a Jessica Rabbit. Mas gostaria que admitissem que não sabem o que é ser mulher.

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