Mãos na uva, pés no mosto. Se em tempos as vindimas foram única e exclusivamente trabalho de gentes da terra, atualmente a exigente tarefa de apanhar a uva (e, num sentido mais lato, de trabalhá-la) é considerado um pequeno luxo para quem vê no vinho uma arte e quer ir além das tradicionais provas, onde cheiro, cor e estrutura são analisadas a mando do gosto pessoal. Por todo o país, mas com maior incidência no Douro, existem quintas que promovem programas de enoturismo apostados nas vindimas, a época mais gratificante do ano vinícola. O convite passa por perceber o trabalho que é feito nos bastidores da produção de um vinho para, no final, o beber melhor. Assim, fique a par das seis propostas que reunimos para si e que decorrem no final de agosto e durante o mês de setembro.

1. Quinta de La Rosa

Na propriedade que se estende por 55 hectares ao longo da encosta direita do rio Douro há um programa de vindimas com a duração de sete horas, que arranca ao início da tarde e se prolonga pela noite dentro. A primeira etapa é precisamente o corte da uva, cujo jeito se vai ganhando a cada cacho removido (aconselha-se o uso do chapéu quando estiver em plenos socalcos durienses). Segue-se uma visita à adega e ao armazém, a qual culmina com uma prova de seis vinhos, três de consumo e três do Porto. O jantar é servido pelas 19h30 num dos terraços com vista para o rio e a lagarada, essa, acontece já o sol se pôs e o relógio marca as 21h00. Agora sim, é tempo de arregaçar as calças e colocar os pés no mosto frio e escorregadio q.b. — o ideal será apoiar-se nos seus colegas de equipa para que não haja qualquer descuido. E, no final, existe a possibilidade de ficar hospedado na quinta, que dispõe de 10 quartos e quatro suítes, todos com acesso à piscina (vale a pena o desvio).

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50 euros por pessoa, com possibilidade de adquirir as atividades de forma avulsa (ao valor indicado acrescem 100 euros em caso de estadia). O programa decorre durante o mês de setembro, mediante reserva (tel.: 25 473 2254) e para um grupo mínimo de seis pessoas.

2. Real Companhia Velha

Na Real Companhia Velha o regresso à terra também se faz por esta altura, com um programa que, à semelhança do primeiro, promete ser preenchido e inclui duas propriedades. Na Quinta das Carvalhas é feita a apanha da uva que, por ali e por tradição, é manual e raramente realizada por homens — não há, no entanto, restrições de sexo no que aos turistas diz respeito. Recolhidos os cachos sob um sol quente de verão, e esgotadas as primeiras energias do dia, é tempo de provar a feijoada à transmontana, regada com uma trilogia de néctares da casa (branco, tinto e Porto). Já na Quinta do Casal da Granja todo o enófilo poderá participar na mesa de escolha e na lagarada. Se a primeira consiste na seleção das uvas e na remoção de cachos menos bons e suas folhas, a segunda envolve cantorias entoadas ao som de brindes constantes, além de uma pisa da uva nos tradicionais lagares de granito. A euforia prolonga-se ainda numa prova de vinhos comentada, a ter lugar na loja de vinhos da Quinta das Carvalhas.

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85 euros por pessoa, para grupos de 6 a 18 pessoas; marcação obrigatória (tel.: 22 377 51 00). Todas as visitas são acompanhadas por um técnico da Real Companhia Velha.

3. Quinta do Pôpa

Já antes falámos sobre a quinta gerida por Stéphane e Vanessa Ferreira, uma propriedade que leva no nome a alcunha do avô dos dois irmãos — um homem que nasceu entre vinhas que não lhe pertenciam e que cresceu a sonhar ter um “pedacinho do Douro”. E é neste pedaço que com o tempo perdeu o “inho” que se realizam vindimas num regime de exclusividade. A ideia é juntar um grupo de 12 a 25 pessoas, escolher uma data e arregaçar as mangas — a pequenada também está convidada. A quinta abre as portas a todo o curioso que queira estar por dentro do processo de vinificação, da uva que cresce nos socalcos na encosta da melhor estrada do mundo, a N222, ao copo meio cheio (ou meio vazio, se preferir) aquando das provas incluídas no programa. Ao corte da uva e respetiva pisa no lagar, acrescentam-se ainda visitas à adega, cave e garrafeira, além do almoço num jardim sobre o rio Douro, onde não vão faltar propostas tradicionais portuguesas: sopa de cebola, pezinhos de coentrada, rojões, bacalhau com grão e pratos de bacalhau e carne. O vinho, como seria de esperar, está presente em todo o processo.

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60 euros por pessoa; marcação obrigatória, com uma antecedência mínima de 15 dias (tel.: 92 438 2643).

4. Herdade do Esporão

Do Douro seguimos para o Alentejo, começando pelo Esporão — esse nome que num ápice faz lembrar néctares como Monte Velho e Esporão Reserva. A herdade que já leva 40 anos de existência ficou entre as 100 melhores adegas do mundo, segundo a Wine & Spirits, em 2014. E se há pouco tempo abriu as portas para entreter os amantes de vinho durante 24 horas, agora convida-os a participar nas vindimas, tidas como um “acontecimento cultural que se mantém até aos dias hoje” e que continua a reunir tradições e saberes populares. Tudo começa com um passeio pelas vinhas e consequente participação nas vindimas — não tenha problemas em sujar-se e fique atento às explicações de quem sabe, até porque vale a pena conhecer que castas vai roubando às plantas à medida que corta os cachos. Não muito tempo depois, faz-se uma viagem até 12 metros de profundidade para conhecer as caves e a adega. Para o fim fica o almoço ao comando do chef Pedro Pena Bastos, que inclui bochecha de porco preto em folha de videira, pastinaca e borras de alicante bouschet, com os devidos vinhos a acompanhar.

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85 euros por pessoa (65 euros sem harmonização de vinhos no menu de almoço), mediante marcação com 48 horas de antecedência.

5. Herdade das Servas

Por aqui há lagares de mármore e não de granito, não estivesse a herdade da família Serrano Mira — uma das mais antigas na produção de vinho no Alentejo — situada em Estremoz. Mas as diferenças, tendo em conta os restantes programas, não se ficam por aqui: uma vez que na vinha as temperaturas são elevadas e estão algo longe da propriedade central (a herdade tem um património vitivinícola de 300 hectares), não há apanha da uva, pelo menos não diretamente do cacho. O trabalho de recolha começa na mesa de escolha, onde são selecionadas as melhores uvas. E, ainda antes de se aconchegar o estômago com um almoço de encher as medidas, há a tão popular pisa que, com os novos tempos e as novas tecnologias, tem perdido protagonismo. A proposta na Herdade das Servas não fica completa sem antes ser oferecida uma t-shirt da vindima (um souvenir para, mais tarde, provocar saudade), bem como um diploma de participação e uma garrafa em sinal de agradecimento.

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50 euros por pessoa (25 euros sem almoço), mediante marcação (tel.: 29 632 2949).

6. L’And Vineyards

O luxuoso L’And Vineyards, construído na pacatez de Montemor-o-Novo, é conversa recorrente quando em debate está a cozinha do chef Miguel Laffan, um dos rostos mais associados ao projeto. Comida à parte, este é um wine resort, pelo que o vinho também faz parte da sua identidade. Como se o nome não fosse suficiente para o provar, a unidade tem uma vinha com castas típicas alentejanas cultivadas com métodos naturais, além de uma pequena adega integrada no edifício principal, mesmo a jeito de ser descoberta pelos hóspedes. Assim não é de estranhar que o L’And aposte num programa de vindimas diurnas e noturnas — sim, noturnas, daquelas que incluem pequenas lanternas para todo o enófilo transportar à cabeça, como se de um mineiro se tratasse. A aventura não fica completa sem duas noites de estadia e um jantar que se distribui por sete pratos. É, pois, a melhor maneira de vindimar, beber e dormir à luz das estrelas (o teto dos quartos pode ser recolhido se o cliente assim o desejar).

A partir de 650 euros para duas pessoas em suite (obrigatoriedade de duas noites), valor que inclui um jantar de degustação, um pack de duas garrafas L’And Reserva 2011 personalizadas e ainda degustação de vinho L’And. O programa decorre durante o mês de setembro.