Os filmes não variavam muito. Eram tipos com boas roupas, até vestidos com camisa e fato escuro, chapéu a tapar a cabeça, ar de mauzões, quase sempre armados, que cometem um crime como quem esfrega um olho. É o estereótipo de gangster, do mafioso que vários filmes, sobretudo na década de 80 ou 90, retratavam quando o tema era a máfia. Não era o único: com a imagem típica de um mafioso vinha atrás uma história dos conflitos entre grupos rivais que se travavam nas ruas e nos negócios sujos. Podia ser ficção, mas qualquer história inventada vai buscar inspiração a estórias reais, certo? Talvez, porque o que se está a passar no Japão parece ser o guião de um próximo filme de Hollywood.

Máfia, a palavra que se arranjou para descrever uma organização clandestina de criminosos, não existe apenas nos EUA — onde os filmes sobre ela abundam –, ou em Itália, onde se vai buscar a inspiração. Porque no Japão há os yakuza e o problema é que se estão a chatear. Há semanas, o maior grupo que opera no país, os Yamaguchi-gumi, separaram-se em duas fações e a polícia japonesa teme que, em breve, irrompa uma guerra entre gangues em várias cidades do país. E ninguém sabe ao certo como é que isto aconteceu.

Vamos por partes e a primeira é a do início. Os yakuza surgiram em 1915, mesmo ano em que os Yamaguchi-gumi foram criados, em Kobe, por um pescador, resume o Wall Street Journal. O grupo cresceu, foi estendendo os seus tentáculos por vários ramos de crime organizado e aumentando os seus números. Este ano, o do centenário da sua existência, estimava-se que o grupo englobava perto de 23 mil pessoas, o equivalente a quase 45% do número total de yakuzas que se crê existirem no Japão. O problema surgiu em agosto, quando o chefe dos Yamaguchi-gumi decidiu expulsar os líderes de 13 das 72 fações que integram o grupo.

To go with AFP story "Japan-society-crime-yakuza", Feature by Harumi Ozawa In this picture taken on on May 27, 2013, silicone-made fingers and limbs are displayed on a work bench at prosthetics specialist Shintaro Hayashi's office in Tokyo. Going straight after a lifetime spent as a member of Japan's feared yakuza organised crime mobs poses a number of challenges. Chief among them is what to do about the fingers you chopped off. AFP PHOTO / TOSHIFUMI KITAMURA (Photo credit should read TOSHIFUMI KITAMURA/AFP/Getty Images)

Na cultura yakuza é frequente cortar o dedo, como castigo, quando o membro de um gangue comete um ato de deslealdade ou traição para com o líder. Foto: TOSHIFUMI KITAMURA/AFP/Getty Images

Porquê? Niguém sabe ao certo. A BBC, por exemplo, noticiou que pelo menos sete desses líderes foram expulsos por falta de lealdade para com o Shinobu Tsukasa, o cabecilha do grupo. Já o The Guardian escreveu que Tsukasa, que assumiu o controlo dos Yamuguchu-gumi há 10 anos, começou a ser acusado por dar tratamento preferencial aos membros de uma fação que fundara em Nagoya — isto quando o grupo está sediado em Kobe. E Tsukasa já provou que não é a melhor pessoa para ser contrariada: na década de 70, foi condenado a uma pena de 13 anos de prisão por matar o líder de um gangue rival com uma espada samurai.

O chefe dos Yamaguchi-gumi terá chegado a sugerir que a sede do grupo fosse deslocada para a cidade de Kobe. Os líderes das tais 13 fações, aí, revoltaram-se e terão sido expulsos. Depois uniram-se e formaram um grupo autónomo, denominado Kobe Yamaguchi-gumi, que já contará com cerca de três mil membros. Agora, a polícia japonesa tem alertado os cidadãos para a iminência de um escalar de violência em várias cidades do país. Não seria a primeira vez.

Em 1984 também se registaram cisões em grupos yakuza e, nos três anos seguintes, pelo menos 25 pessoas morreram, dezenas ficaram feridas e centenas foram detidas pelas autoridades na sequência de confrontos entre fações mafiosas rivais. “Se os Yamaguchi-gumi se desmembrassem, a ordem pública provavelmente piorava. Sei que pode ser difícil acreditar, mas estou a proteger o grupo para me livrar das fações violentas”, chegou a dizer, em 2011, Shinobu Tsukasa, quando concedeu uma entrevista a um jornal japonês.

Aqui chegamos a outro ponto, já que o líder do maior grupo yakuza do país apenas falou porque, no fundo, os yakuza têm um estatuto legal, como recordou a BBC. As várias fações têm sede registada, números de telefone, logótipos oficiais e até cartões de visita. Têm um estatuto legal, embora operem em atividades ilegais e criminosas. Sobretudo desde 1992, quando o governo japonês aprovou uma nova lei que passou a criminalizar várias práticas dos yakuza. Em 2011 entrariam em vigor várias outras leis que apertaram o cerco aos grupos mafiosos do país. Em 2005, segundo dados do Wall Street Journal, existiam mais de 80 mil yakuzas no Japão. Hoje são menos de 40 mil.

E a polícia japonesa poderá aproveitar esta cisão nos Yamaguchi-gumi para apertar ainda mais o cerco aos yakuza. Ou para reforçar o policiamento nas ruas para contrariar a violência que temem poder vir a escalar.