Jeremy Corbyn não é um político de carreira. É visto como um genuínothe real deal -: anti-austeridade, anti-elites, anti-establishment. É deputado trabalhista há 32 anos, eleito pela zona de Islington North, mas votou contra o partido mais de 500 vezes e, segundo o The Guardian, é o deputado de qualquer partido que menos despesas entrega ao Parlamento para ser reembolsado. Acaba de ser confirmado, este sábado, como novo líder do Labour, com quase 60% dos votos.

No discurso de vitória, Corbyn diz que esta votação mostrou a “determinação e a união” do Partido Trabalhista para lutar por “uma sociedade mais justa e decente para todos”. O novo líder do “Labour” agradeceu a várias pessoas incluindo Ed Miliband, que liderou o Partido Trabalhista até à “trágica derrota eleitoral” que o partido sofreu em maio, e adiantou que o primeiro ato como líder do partido será participar numa manifestação, esta tarde, de apoio aos refugiados.

O Observador contou-lhe, mais aprofundadamente, quem é o deputado britânico neste texto publicado no final de junho. No dia em que foi nomeado novo líder do Labour, sistematizamos as ideias e políticas do homem que, muitos analistas preveem, irá dividir o Partido Trabalhista e pode levar a que este tão cedo não vença o Partido Conservador e não regresse à liderança do governo.

Depois do colapso de Ed Miliband nas últimas eleições, que sofreu uma derrota histórica do Labour contra os Conservadores liderados por David Cameron, Corbyn foi um dos deputados do partido de esquerda que se reuniram para fazer um pouco de soul searching, isto é, de reflexão profunda sobre o que se assemelhou a uma crise de identidade.

Corbyn era tudo menos um líder vistoso no Labour, mas convenceu-se de que era a sua vez, como explicou numa entrevista à New Statesman. Avançou, para deceção de figuras como Tony Blair, que já veio em várias ocasiões aconselhar os deputados trabalhistas a não votarem em Corbyn, dizendo-lhes: “Se o vosso coração está com Corbyn, façam um transplante“.

O que justifica, então, os receios de Blair e de tantos outros trabalhistas? Ao que vem Corbyn?

Jeremy Corbyn quer uma “alteração fundamental” na política económica do Reino Unido e quer que o seu partido seja uma “alternativa credível” a David Cameron e aos conservadores. Quer inverter a política de austeridade e consolidação das contas públicas que, na sua visão, tem sido privilegiada pelo governo de David Cameron. Corbyn admite que deve ser uma missão de quem governa diminuir o défice das contas públicas, mas nunca ficar refém de calendários “arbitrários”.

Mais impostos para os mais abastados, mais subsídios para os desempregados. Uma luta vigorosa contra a corrupção, contra a fuga aos impostos (o que renderia 120 mil milhões de libras, calcula Corbyn) e contra os benefícios fiscais às empresas, que Corbyn chama “subsídios” às empresas. Segundo a BBC, Corbyn garantiu que, com estas últimas medidas, o Estado britânico teria meios para “duplicar” o orçamento do Serviço Nacional de Saúde, o NHS. Seria, também, criado um National Education Service para o ensino, com creches universais e gratuitas e eliminação de quaisquer propinas.

A certa altura, Corbyn defendeu, também, a introdução de um “salário máximo“, visando implicitamente os elevados salários e bónus do setor financeiro. A propósito de setor financeiro, o candidato a líder do Labour quer voltar a nacionalizar o Royal Bank of Scotland. As principais empresas de energia do Reino Unido também seriam novamente nacionalizadas, tal como as empresas de transportes, promete Corbyn.

O Banco de Inglaterra passaria a poder imprimir dinheiro para projetos públicos. Criticando os estímulos monetários que vários bancos centrais pelo mundo fora têm aplicado nos anos desde a crise, Corbyn não quer que os bancos aumentem a quantidade de liquidez no sistema para, depois, usar os bancos como intermediários para fazer com que esse dinheiro chegue à economia. O deputado quer um quantitative easing para as pessoas, ou seja, que se autorize o banco central a imprimir mais dinheiro (o que pode levar à desvalorização da moeda, inflação e perda de valor das poupanças existentes) em prol da sua utilização para financiar projetos de interesse público.

Qual seria a principal vantagem de uma medida deste género? Além de, como diz Corbyn, deixar de se tentar estimular a economia “subsidiando os bancos pelo meio”, esta medida criaria “um milhão de postos de trabalho qualificados e [vários] estágios genuínos, de aprendizagem”. Ao mesmo tempo, Corbyn quer travar a valorização acentuada do imobiliário em algumas zonas do Reino Unido, como na cidade de Londres, através da introdução de rendas controladas.

Na política externa, a BBC recorda que Corbyn há muito vem defendendo uma política “radicalmente diferente”, baseada em “soluções políticas e não militares“. Sob a liderança de Corbyn, o Reino Unido abandonaria a NATO e desmarcar-se-ia de qualquer país que promovesse ataques aéreos contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. O Reino Unido iria gastar na Defesa muito menos do que os atuais 2% do PIB no orçamento.

Corbyn não quis, até certa altura, esclarecer se era contra ou a favor da saída do Reino Unido da União Europeia. Dizia que tinha mixed feelings (opiniões divergentes) sobre esta matéria. Mais tarde, viria, contudo, a manifestar-se a favor da continuidade do Reino Unido na União Europeia, ainda que ambicione a criação de uma Europa “melhor”.

Se vier a liderar um governo trabalhista, Corbyn promete que metade dos seus ministros serão mulheres. Mas há uma mulher que terá razões para se preocupar se Corbyn vencer o Labour e, depois, as próximas eleições: a Rainha Elizabeth. Corbyn é um republicano, mas diz que “essa não é uma luta para agora”.