O senso comum diz-nos que muitas mulheres fingem prazer para agradar aos seus companheiros. Uma notícia publicada na revista Time, em 2014, dizia que 80% das mulheres fingia orgasmos — sim, 80%. Este é um número assustador quando estamos a falar de algo que deveria — tem de ser — proveitoso para as duas partes. Mas muito mais do que falar de orgasmos fingidos, quisemos ir ao centro da questão: por que razão não andam as mulheres a ter prazer nas suas relações sexuais?

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Um inquérito levado a cabo pela revista americana Cosmopolitan indica que apenas 57% das mulheres tem orgasmos (quase sempre ou sempre) com o seu parceiro, contra 95% dos homens. Sortudos, poderíamos dizer… Entre os principais obstáculos, 50% diz que está quase mas o parceiro não consegue terminar o “trabalho”, 38% não tem estimulação clitorial suficiente, 35% não tem a estimulação certa por parte do parceiro e 32% está demasiado preocupada a pensar se estará bem sem roupa. Dados mais preocupantes são os 15% que simplesmente não tem orgasmos em nenhuma circunstância.

Reunimos um painel de 10 mulheres e perguntámos-lhes diretamente: têm orgasmos? Algumas disseram “às vezes”, outras disseram que “só com penetração não” e duas “acham que nunca tiveram”.

Como é que numa sociedade onde as mulheres estão cada vez mais esclarecidas e o sexo é uma escolha pelo próprio prazer, ainda há quem finja orgasmos ou não saiba o que eles são? Joana Almeida, sexóloga, disse ao Observador há uns meses que os tabus sexuais ainda existem:

“Homens e mulheres, a sociedade no geral, ainda não sabe comunicar sobre sexualidade da mesma forma que o faz sobre questões mais simples, como política, educação ou saúde.”

Terão as mulheres vergonha de falar com os seus companheiros sobre a falta de orgasmos? “Eu gosto de sexo, os homens com quem já estive gostavam do sexo, simplesmente nunca consegui atingir um orgasmo com nenhum deles”, diz uma das mulheres do nosso painel, acrescentando que “nunca falei com nenhum sobre isto e vou tentando outras formas de ter prazer”.

Outra (que também quis manter o anonimato) explica-nos que “o primeiro [orgasmo] foi lá para os 29 anos, antes nunca tinha tido. Mas dos bons e daqueles a sério que quase nos fazem partir a cama, só já quase nos 40. Parece incrível mas, até aqui, nunca havia sequer percebido que não tinha, achava que aquilo que sentia era suficiente.” Perguntámos-lhe se falava com os seus parceiros sobre a falta de orgasmos: “Antigamente não falava, achava que era perfeitamente normal mas agora, depois do término de uma relação de anos, procuro focar-me em mim. Se não estou a gostar, digo. E se o timing do orgasmo passa e não mo conseguem proporcionar, também não finjo que sim.”

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Mas, afinal, como saber se temos ou não um orgasmo? Cientificamente falando, a Universidade de Brown explica que quando as endorfinas são libertadas na corrente sanguínea através da estimulação sexual, o nosso cérebro sofre uma alteração química que leva a mudanças na respiração, sensações de calor, vibrações do corpo, consciência alterada, tonturas, perda de controlo do corpo e um pico de prazer. Na teoria, um orgasmo significa que a vagina e o útero se contraem, uma espécie de resposta sexual, e, após o pico de prazer, relaxam — fruto da libertação de energia que ocorre com o orgasmo. Nesta fase, o corpo sofre algumas contrações involuntárias, como se estivesse anestesiado. Ou entorpecido, como diriam os poetas.

“Eu sinto qualquer coisa, só nunca soube realmente se era um orgasmo — nunca foi nada de fazer subir paredes, como dizem”, partilha outra mulher do nosso painel. Se isto não encaixa na sua ideia de orgasmo, não é a única.

Marta Cuntim, psicóloga clínica especializada em Sexologia da Oficina de Psicologia, explica em declarações ao Observador que em primeiro lugar é preciso conhecer a anatomia feminina.

“Ainda há mulheres que nunca se tocaram/masturbaram e, por isso, não conhecem bem o seu corpo e não sabem como obter prazer. Quando a mulher não se conhece o suficiente e não sabe como obter um orgasmo, terá maior dificuldade em explicar ao parceiro aquilo que quer e que gosta.”

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Contam — e afinal contam tudo. “É importante que o casal se explore mutuamente e, para as mulheres, os preliminares são obrigatórios”, explica Marta Cuntim. E a ciência confirma. Para além dos novos estudos que questionam se o famoso ponto G não será mito, uma investigação publicada no Clinical Anatomy diz que a maioria das mulheres não atinge orgasmo através da penetração.

Muitas mulheres têm sido diagnosticadas com problemas sexuais que são baseados em algo que não existe: o orgasmo vaginal. Focar o sexo na penetração é, provavelmente, um dos maiores erros que os casais cometem e que leva à falta de orgasmos femininos.

Vincenzo Puppo, um dos autores desta investigação, diz que a ejaculação masculina (após o homem atingir o orgasmo) não significa automaticamente o fim do sexo para as mulheres porque os beijos, os toques e a estimulação sem penetração podem ser usados para produzir o orgasmo na mulher.

“A grande dificuldade passa pela distração cognitiva, ou seja, as mulheres podem estar cognitivamente distantes de onde estão fisicamente. Podem estar num contexto de intimidade e de repente focarem-se em fragilidades do seu corpo, recordarem tarefas que têm a fazer no dia seguinte, serem invadidas por preocupações de alguma ordem… enfim, um sem número de pensamentos que as desfoca do aqui-e-do-agora e desliga os sentidos”, explica Marta Cuntim. “No meio dos pensamentos automáticos, acabam por faltar os pensamentos mais importantes para o orgasmo, que são os pensamentos eróticos.”

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“Muitas mulheres têm receio de partilhar estas questões por vergonha e culpabilização, como se tivessem algum defeito; noutras situações, o receio maior é o de ferir a masculinidade dos companheiros”, diz Marta Cuntim.

“Mas a mulher deverá expressar sempre o que sente. Pode ir introduzindo o tema aos poucos, sem atribuir culpas, explicitando o que gosta. Ninguém consegue ler pensamentos, pelo que um casal deverá expressar de forma clara o que lhe dá mais prazer. Se a mulher precisa de mais tempo de preliminares ou de determinado tipo de toque, se sente mais prazer numa determinada posição, se gosta de determinados brinquedos sexuais, tudo isto deverá ser dito ao parceiro. Em última instância, tanto o homem como a mulher deverão estar dispostos a dar prazer um ao outro.”

A comunicação é a chave. A propósito disso, regressamos a outra das mulheres do nosso painel, que partilha: “No passado, fui muito submissa e não me sentia à vontade para partilhar este tipo de questões. Nas duas últimas relações que tive, partilhei a falta de orgasmos e vi algum esforço da parte deles. Mas, por vezes, isso levava a que o sexo fosse tão mecanizado, com eles a tentarem perceber se eu estava ou não a ter um orgasmo, que acabava por criar novos bloqueios. Julgo que nunca cheguei a atingir aquele ponto de clímax máximo dos máximos. Só um ‘cheirinho’…”

Os medos e as inseguranças podem levar a alguns bloqueios, mas tornar o sexo uma preocupação também. Marta Cuntim, na sua experiência com casais, explica que um dos conselhos que dá é para se encarar o momento de interacção sexual como um momento de prazer e intimidade e não como mais uma tarefa.

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Porque o orgasmo é diferente de mulher para mulher, não vale a pena fazer comparações ou tentar imitar coisas que outras mulheres gostam. Cada corpo reage de forma muito peculiar aos estímulos sexuais. De acordo com a Society of Obstetricians and Gynaecologists of Canada, há cinco mitos que deve esquecer:

  • O orgasmo é uma experiência de outro mundo e há algo de errado com uma mulher se não o consegue atingir Algumas mulheres têm orgasmos e não sabem e outras podem não sentir a contração dos músculos da pélvis, normalmente associados aos orgasmos, mas atingem um pico de excitação seguido de um pico de relaxamento — as mesmas sensações que outras mulheres sentem após o orgasmo.
  • Mulheres “normais” têm orgasmos com a penetração Há quem precise de preliminares, há quem esteja tão excitado que a penetração leva a um clímax, há quem só lá vá com estimulação manual e oral. Todas as mulheres são diferentes e todos os meios que levem a um orgasmo são válidos.
  • Se uma mulher não atinge o orgasmo, é “frígida” ou há algo de errado na relação Pode simplesmente nunca ter aprendido o tipo e a duração da estimulação que precisa para lá chegar.
  • Se uma mulher não consegue atingir o orgasmo, é porque tem um mau parceiro A comunicação entre duas pessoas é importante e cabe à mulher informar o seu parceiro daquilo que gosta e não gosta no sexo.
  • O sexo só é bom se a mulher tiver um orgasmo Muitas mulheres gostam de desfrutar da proximidade e da intimidade física que o sexo proporciona, mesmo que, por vezes, não tenham um orgasmo.