Em política, as declarações de Francisco Assis podem ser lidas assim: foram uma pré-candidatura à liderança do partido dependente de uns “mas”. Em entrevista à RTP3, o eurodeputado disse que voltará a ser candidato à liderança do partido em “circunstâncias excecionais” e que ainda está “muito longe de se chegar a uma situação dessa natureza”, mas, se tudo falhar, está disponível para o futuro: “Eu assumo as minhas responsabilidades, estaria mais tranquilo em Bruxelas (…). Vim aqui, estou aqui porque estou a assumir as minhas responsabilidades. (…) Podem contar comigo para tudo no PS”, disse. Na entrevista, Assis criticou a possibilidade de um governo de esquerda, mas também defendeu que não deve haver “entendimentos à direita” e que o PS deve avaliar caso a caso.

Francisco Assis disse que só será candidato em “circunstâncias excecionais” e se entender que tem a “obrigação perante a consciência política, perante o PS e o país”. Gerindo com pinças as declarações, Assis diz que ainda “estamos muito longe de chegar a uma situação dessa natureza”, contudo, tudo pode mudar e o tempo nem é medido em meses: “Ainda espero que seja possível nos próximos dias que as coisas evoluam num sentido tal que não tenhamos de chegar a uma situação dessa natureza”.

Mas se essas “circunstâncias excecionais” acontecerem e sobretudo depois das presidenciais, Assis deixa a certeza que assumirá as suas responsabilidades, mesmo em períodos em que tem posições “muito distintas” daquelas que são defendidas: “Eu assumo as minhas responsabilidades”. “Podem contar comigo para tudo no PS”, garantiu.

Acordos nem à esquerda nem à direita

Assis sempre tem sido contra a possibilidade de um entendimento para um governo de esquerda, mas nesta quarta-feira esclareceu que, além dessa hipótese, também não defende “entendimentos à direita”.

“Não vejo necessidade de estabelecer qualquer entendimento com a direita. Não vejo utilidade nestas negociações”, defendeu. Antes, tinha defendido que não é viável um acordo do PS à esquerda.

Para Assis, o PS deve avaliar caso a caso e votar consoante a responsabilidade e a negociação que fizer: “O PS assume-se como partido de oposição responsável e em cada momento deve negociar a aprovação ou não” do documento em causa. Quando questionado sobre a possibilidade de isso acontecer já no Orçamento do Estado para 2016 e de o resultado ser o mesmo, fim do governo de direita e possibilidade de governação à esquerda, Assis diz que “se assim acontecer, quem tem a responsabilidade é quem governa”, mas que o PS não “pode ter uma atitude de obstrução por obstrução”. Assis não explicou, no entanto, se com isto defende o voto a favor ou a abstenção logo à partida.

Assis, que recordou ser militante do PS “desde os 20 anos” e um “combatente do socialismo democrático”, fez questão de se dirigir a quem possa estranhar ou criticar a sua posição:

“Entendo que existam pessoas que se interroguem porque defendo que o PS não vá para o governo quando tem essa possibilidade. A resposta é muito simples: não se pode governar a qualquer preço e de qualquer maneira porque pagamos um preço grande por isso. (…) Corremos o risco de as nossas ideias, as nossas propostas para Portugal ficarem completamente desqualificadas”

Perante a situação do partido, Assis não vê mal num referendo interno a militantes, mas apenas se estiver em causa um acordo quer à esquerda quer à direita.

O socialista defendeu ainda que “a melhor solução para o país é aquela que passa pela coligação” e que em termos de governação, a “grande clivagem situa-se à esquerda do PS” e não entre esquerda e direita. “Não há uma esquerda em Portugal, há várias esquerdas”.

Principal clivagem política continua a ser entre o PS e os partidos à sua esquerda

Assim explicou que não considera que “a principal clivagem existente na Assembleia da República seja entre direita e esquerda”. Por isso não vê o Parlamento “numa perspectiva bipolar, mas sim tripolar”, pois considera que aí existem três blocos políticos: um bloco de direita, um bloco de centro-esquerda e um bloco da esquerda mais extremista. Para sustentar essa posição Francisco Assis fez uma análise do que são hoje o PCP (“um partido muito fechado e conservador”) e o Bloco de Esquerda (“atravessado também ele por tensões” e que pode passar por uma evolução “interessante”). Também defendeu que é preciso ver o que esses partidos “realmente são, e não aquilo que num qualquer momento, por razões táticas, querem fazer crer que são”. Ora a identidade desses partidos manifestou-se claramente nos seus programas eleitorais, onde por exemplo ambos se opuseram ao TIPP – que considerou ser um “tratado essencial para regular a globalização” -, para além de que enquanto os socialistas “acreditam na economia de mercado, esses partidos têm uma lógica profundamente anticapitalista”.

Em termos de governação, o eurodeputado defende que a clivagem não é entre a direita e uma “imaginária esquerda que, enquanto entidade unificada, não existe”. Por isso sustenta que essa clivagem se continua a situar entre o PS e os partidos à sua esquerda. Considerou que isso sucedia por causa de divergências fundamentais em temas como a União Europeia, o euro ou o Tratado Orçamental, mas também uma visão radicalmente diferente do que deve ser a inserção de Portugal no sistema internacional.

Sobre a legitimidade de o PS negociar à esquerda por poder não ter ficado clara, na campanha eleitoral, uma possível aliança com PCP e BE, Assis defende que não se coloca uma questão de legitimidade, mas a de saber se é ou não possível. E aí acredita que não, tendo em conta que os dois partidos têm posicionamentos históricos contrários ao PS em domínios centrais da governação e da visão do mundo e da sociedade.

Descartou também a hipótese de um governo minoritário do PS com apoio do PCP e da Bloco não só não daria garantias de estabilidade, como não poderia ser um governo reformistas. E, acrescentou, “o país necessita de reformas que só podem ser feitas ao centro”. Deu como exemplo a necessidade de “uma reforma séria da Segurança Social”. Considerando que o PS tem a responsabilidade histórica de “impedir a destruição do Estado Social” pela direita, acrescentou que isso só pode ser feito com “reformas permanentes nalguns aspectos do Estado Social”.

Para dentro do PS, fica ainda uma constatação de Assis:  “[Temos sido] vítimas de uma pressão inaceitável de outros setores muito arrogantes que querem colocar isto no plano moral ou noutros planos. [Estamos a ser] violentamente atacados”.

A entrevista pode ser vista na íntegra na RTP Play, aqui.