No seu código ético, o Podemos declara que, ao contrário da generalidade dos partidos políticos, não se financia através de empréstimos bancários. Sem o recurso à banca, a forma escolhida pelo partido de extrema-esquerda espanhol para fazer face às despesas das campanhas eleitorais é o recurso a um sistema de microcréditos, que se situa algures entre o crédito e a recolha de donativos. As eleições legislativas em Espanha são no próximo dia 20 de dezembro e desde quarta-feira que o Podemos pôs em marcha a sua campanha de recolha de microcréditos: em menos de uma semana reuniu mais de 370 mil euros em contribuições, escreve o jornal El Espanol. 

Mas o que são os microcréditos? São empréstimos a partir de 100 euros que o partido se compromete a devolver dentro de um ano – assim que receber a subvenção pública dada pelo Estado para cobrir os gastos de campanha. É que a subvenção do Estado espanhol só é paga no final do processo e em função dos resultados eleitorais. Segundo o mesmo jornal, que falou com o tesoureiro do partido, Segundo González, um jovem economista de 27 anos especialista em economia colaborativa, o objetivo é chegar aos cerca de 2 milhões de euros. Se as contribuições superarem esse valor, contudo, o partido estabelece desde logo o teto de 3 milhões como limite máximo, para evitar problemas de endividamento caso os resultados eleitorais não sejam os esperados e, consequentemente, a subvenção pública seja inferior à estimada.

A ideia é, de acordo com o número dois de Pablo Iglesias para os assuntos financeiros, fazer com que os gastos eleitorais sejam de facto proporcionais à base de apoio da população. “Se temos mais apoio, temos mais financiamento. Como não temos créditos bancários, temos que ir ajustando os gastos àquilo que vamos recebendo da parte dos cidadãos”, explica Segundo González ao El Espanol. Os microcréditos podem ir de 100 a 10 mil euros e podem ser consultados na página do partido na internet, que já conta com uma soma de mais de 370 mil euros, sendo que em alguns casos se trata de renovações de crédito já feito para as últimas eleições autonómicas.

Certo é que a lei eleitoral prevê que os partidos recuperem uma parte dos gastos das campanhas em função da representação eleitoral que venham a obter. Mas esse reembolso estatal só acontece no fim do processo, depois de serem conhecidos os resultados do sufrágio. O que acontece, regra geral, é que os partidos gastam valores superiores e acabam por se endividar. “O modelo está desenhado para o endividamento, o que condiciona muito a atividade política dos partidos que, no fim, acabam de pés e mãos atados pela dívida que contraem com os bancos”, acrescenta o tesoureiro. 

Nas últimas eleições europeias, o Podemos gastou um total de 135 mil euros na campanha, muito inferior aos restantes partidos, numa campanha que foi baseada em crowdfunding ou em donativos: ou seja, em recolha de fundos sem devolução. “Podiam-nos ter dado uma subvenção de cinco milhões se os tivéssemos gasto, a diferença é que assim poupa-se esse dinheiro ao erário público”, explica ainda o responsável do Podemos pelas finanças do partido.

As eleições espanholas são no próximo dia 20 de dezembro e as sondagens têm mostrado o Podemos na quarta posição, com uma percentagem de intenção de voto na ordem dos 17%. A última sondagem relativa ao mês de novembro, feita para o El País, mostra o pequeno partido Ciudadanos a ganhar cada vez mais terreno rumo à liderança, ficando apenas a um ponto do PP de Mariano Rajoy, que apresenta uma preferência na ordem dos 23,5%.