É uma faceta da vida de Marcelo Rebelo de Sousa menos conhecida pela generalidade dos portugueses. Na conferência “Conversas com Deus”, uma iniciativa moderada por Maria João Avillez e patrocinada pela Renascença, o candidato presidencial falou da sua relação com a fé ao longo da vida – uma fé praticada para os outros e com os outros – e, entre outras revelações, disse rezar “o terço todos os dias”, sobretudo nos “sítios menos ortodoxos possíveis”.

Numa Capela do Rato, em Lisboa, hiperlotada, Marcelo Rebelo de Sousa revelou que rezar o terço não era, para ele, um “mandamento” ou uma obrigação. “É como respirar“, explicou o candidato a Belém. “Não é preciso ser outubro ou maio [para o fazer]. Aí é um bocado mais pesado. É mais o rosário”, acrescentou. Estaria também a referir-se à época alta das eleições? O professor não o disse.

Mas não foi de política que se falou desta vez – ou melhor, a política esteve sempre em segundo plano. A conversa centrou-se na forma como Marcelo se relaciona com a fé e com o ser cristão. “Uma vida cristã” vivida “através dos outros e pelos outros”, “ativista”, “comunitária” e assente na ideia de “prestação de serviço público”. “A vida eterna começa já”, mas é, sobretudo, “no dia-a-dia que podemos criar eternidade na vida dos outros”, explica.

“[No outro dia, na faculdade] estavam duas jovens, uma chorava e outra consolava. E eu parei e perguntei o que se passava“, começou por ilustrar o ex-líder social-democrata. Então, a jovem explicou que estava com problemas familiares e académicos e que queria desistir do curso. “Ali, [naquele momento], a minha vida parava“, confessou. Todos os compromissos que tinha “passavam a ser menos importantes do que falar com aquela pessoa”. 

Depois de algum tempo a falar com a jovem aluna, Marcelo conseguiu convencê-la a desistir de dar aquele passo. “Demorou um tempo”, mas “correspondia a um ponto marcado no rally paper daquele dia”, contou o candidato presidencial. 

A metáfora do rally paper acompanhou, de resto, a conversa de Marcelo Rebelo de Sousa. “A vida cristã é uma espécie de rally paper onde se marca e perde pontos. Pecamos 10 vezes e temos três boas ações, é mais ou menos a minha média”, confessou o professor, antes de revelar que continua a fazer um balanço diário das suas ações e que chegou, inclusive, a atribuir classificações no final de cada dia. Mas foi obrigado a desistir. “Há dias catastróficos que correm muito mal”, acrescentou, entre risos.

É essa preocupação pelo próximo, diz Marcelo, que o acompanha quando desenvolve ações de voluntariado junto de doentes que precisam de cuidados paliativos, para, de alguma forma, aliviar a dor de quem está já perto do fim da vida – outra faceta do candidato pouco explorada publicamente. Mas, aí, quando consegue confortar os que mais precisam, o mérito não é seu.

“Há pessoas que não conseguem disfarçar o que sentem na altura. Eu consigo manter uma conversa longa, criando expectativa, alimentado histórias, dando esperança de vida, dando significado à vida que foi – e à que ainda falta -, como se fosse tudo normal, sem me trair. E isto não é mérito. Isto é mão divina“, assumiu.

Um homem crente que defende que a fé não é – nem tem de ser – “irracional” e que chegou a ser convidado por Adelino Amaro da Costa para integrar a Opus Dei. Acabou por não acontecer, porque Marcelo, diz o próprio, era demasiado “insubmisso” e “rebelde” para integrar uma instituição “altamente respeitável”.

Como alternativa, Marcelo Rebelo de Sousa envolve-se nas discussões religiosas e sociais do “Grupo da Luz“, onde conhece, na altura, figuras como Miguel Beleza e António Guterres, a quem convida para se tornar acionista no jornal Expresso, como recordou esta noite. 

Começou nessa altura, então estudante de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a materializar mais a tal fé ativista que professa, através de projetos de “intervenção em bairros sociais” e de acompanhamento de crianças que chegavam do interior. “O maior número número de intervenções na sociedade civil” que os 20 anos permitissem. Era, ao mesmo tempo, uma “vivência religiosa” e “sociopolítica”, que ainda hoje o conduz. Até porque é “só através dos outros que chegamos lá cima“. 

Mas foi antes, no Concílio Vaticano II e, sobretudo, já durante o pontificado de Paulo VI, um período recordado como de grande renovação da Igreja Católica, que a relação de Marcelo Rebelo de Sousa com a religião ganhou raízes mais fortes. Foram tempos de “uma clivagem profunda” com os pressupostos anteriores e nem sempre bem compreendida. 

Em 1970, o Papa VI recebeu os dirigentes do MPLA (Angola), FRELIMO (Moçambique) e PAIGC (Cabo Verde), o que gerou tensões entre o Vaticano e o Governo português. “Para o meu pai [Baltasar Rebelo de Sousa, Governador-Geral de Moçambique e próximo de Marcello Caetano] era muito complicado perceber. O mundo dele era outro mundo”, lembrou Marcelo, que, recorda, viveu esses tempos de “forma muito entusiástica“. 

E essa dimensão política na religião ainda hoje o acompanha, reconhece. Mas o facto de ser cristão não o torna melhor ou pior candidato – dá-lhe apenas uma maior responsabilidade. “Não há incompatibilidade nenhuma entre ser Presidente e ser cristão. A denúncia da injustiça é um imperativo cristão”.

A terminar, Marcelo Rebelo de Sousa concretizou: “Deus é, para mim, a razão de ser da vida. Deus concretizado no caminho de salvação que eu disse: os outros. [Isto é], eu não concebo a minha realização pessoal senão através dos outros. E isso é um imperativo que vem da minha fé cristã”.

A próxima convidada d’As “Conversas com Deus” será a candidata presidencial Maria de Belém. Seguem-se Fernando Santos, Pedro Mexia, a fadista Carminho, Henrique Monteiro e João Taborda Gama, o recém-nomeado secretário de Estado da Administração Local. As “Conversas” vão estender-se até 16 de dezembro e são transmitidas, no essencial, às quintas-feiras, entre as 22hoo e as 22h30, pela Rádio Renascença.