A entrevista avança para uma das questões centrais da tese de defesa de José Sócrates para as sucessivas entregas de dinheiro por parte de Carlos Santos Silva que sempre teve a seguinte justificação por parte de Sócrates: “tratam-se de empréstimos”

Sócrates começa por explicar a ida para Paris para estudar no Instituto de Estudos Políticos, mais conhecido por Science Po, para tirar o mestrado em Teoria Política.

“Decidi ir estudar para Paris logo a seguir a deixar de ser primeiro-ministro. Pensei para mim próprio: ‘Este é o momento’. Como a minha mãe já tinha decidido vender a sua casa, avancei para essa venda. Como eu sabia que Carlos Santos Silva estava interessado em investir no mercado imobiliário, perguntei-lhe: ‘ queres comprar a casa?’. E ele decidiu comprar”, afirma.

Os 400 mil euros da mãe

Sócrates refuta qualquer espécie de benefício por parte de Carlos Santos Silva em termos de preço de compra. “O andar de cima da minha mãe foi vendido por 650 mil euros. O andar da minha mãe foi vendido por 600 mil euros. Onde está o benefício?

A partir dessa venda, conta Sócrates, o ex-primeiro-ministro falou com a mãe, Maria Adelaide, e pediu-lhe uma parte do dinheiro que resultou da venda do seu apartamento no Heron Castilho, no centro de Lisboa, no mesmo prédio onde o próprio tinha também um apartamento. “Perguntei à minha mãe que dinheiro me podia dar. E ela deu-me uma parte: cerca de 400 mil euros. Foi esse dinheiro que me permitiu viver em Paris. Esse dinheiro foi-me dado pela minha mãe”, enfatiza. “Entre o momento em que saí do governo e até ao final de 2012, quando vivi em Paris e sem fontes de rendimento, vivi com a doação da minha mãe da casa”, repetiu mais tarde.

Sócrates explicou ainda como surgiram os empréstimos de Carlos Santos Silva.

A partir de 2013 comecei a trabalhar e comecei a ganhar dinheiro, e ganhava razoavelmente, mas a verdade é que o meu filho mais novo ainda estava em Paris e eu estava em Lisboa e as minhas despesas cresceram muito em 2013. Apesar de já estar a trabalhar, recorri em 2013 a empréstimos do meu amigo Carlos Santos Silva. Falei disso com ele e planeava hipotecar de novo a minha casa mas ele disse-me que isso não era necessário porque tinha meios que me podia emprestar para que eu pudesse pagar mais tarde. Estava preso em Évora e vendi a minha casa em Lisboa e paguei-lhe, para já, 250 mil euros e vou pagar-lhe o restante.

Sobre a casa de Paris, cuja propriedade é-lhe atribuída pelo MP, o ex-primeiro-ministro afirmou:

“Vivi um ano num apartamento alugado. No segundo ano estive 9 meses num apartamento do eng. Carlos Santos Silva que ele me emprestou antes de ele fazer as obras que planeava fazer no apartamento para pôr a casa no mercado. Tinha a esperança de lá ficar porque entretanto decidi ficar mais um ano em Paris porque decidi fazer o doutoramento e o meu filho mais novo estava também em Paris. Mas como as obras estavam a demorar muito, aluguei outro. Isto é, como é possível a investigação afirmar que eu era dono de um apartamento em Paris se, durante o ano de 2014, aluguei outro?

José Sócrates mostrou-se revoltado com o que considera ver uma campanha contra si, um argumento recorrente ao longo de toda a entrevista, nomeadamente as acusações de que tinha “uma vida faustosa em Paris”. “Até chegaram a falar numa casa de banho com torneiras banhadas a ouro!”, recordou.

Sem falar dos preços de aluguer da casa que escolheu viver, localizada num dos bairros mais emblemáticos de Paris, ou do preço da casa que Carlos Santos Silva pagou pela segunda casa onde Sócrates viveu, o ex-primeiro-ministro afirmou: “A vida faustosa é ir para Paris e ter os filhos numa escola privada internacional. Isso é que e ter uma vida faustosa!”. Sócrates acrescentou ainda que “a vida faustosa foi investir um mestrado em Teoria Politica. Que tirei! Tive a melhor nota no meu mestrado. Então e aqueles que tiram mestrados e doutoramentos no estrangeiro. Pobre a investigação que se baseia nisso”, concluiu.

Confrontado novamente por José Alberto Carvalho com os empréstimos que diz terem sido feitos por Carlos Santos Silva, José Sócrates afirmou: “O dinheiro da minha mãe serviu para eu viver em Paris até ao final de 2012”.

A dívida, o funeral do irmão e o pagamento de 250 mil euros

Confrontado com a falta de liquidez, diz ter recorrido ao seu amigo Carlos Santos Silva. “O meu amigo disse-me que tinha meios para me emprestar e eu aceitei”.

E enfatiza de forma veemente: “Eu não aceitei ser ajudado por um empresario. Aceitei ser ajudado por um empresário com quem tenho uma relação fraternal. Não por um empresário!

Em relação ao montante que já pagou a Carlos Santos Silva, com quem está proibido de contactar, José Sócrates diz que “as contas ainda não estão completamente saldadas. Mas tenho que falar sobre o seguinte”, disse com uma visível emoção, “O meu amigo Carlos Santos Silva aceitou pagar o funeral do meu irmão [António Pinto Sousa]. Eu preciso de saber se ponho isso, ou não nas contas”, afirmou claramente emocionado, numa alusão ao seu irmão mais velho que faleceu.

José Sócrates diz já ter pago 250 mil euros ao amigo da Covilhã e voltou a reafirmar que planeia “pagar tudo o que devo ao meu amigo Carlos Santos Silva”, acrescentando, por mais de uma vez, que “ele tem muitos meios de fortuna, ele tem muitas empresas, desde há muito tempo”.

“Estou a dizer exatamente aquilo que se passou. A verdade. E estou a dar essas explicações por que a investigação colocou nos jornais o que estava em segredo de justiça”, concluíu.

As “fotocópias” e os “queijinhos”

José Alberto Carvalho confrontou José Sócrates com o conteúdo das escutas telefónicas da Operação Marquês, nomeadamente com o, que o Ministério Público, classifica de “pedidos de dinheiro” através de expressões como “queijinho”, “fotocópias” ou “aquilo que gosto muito”.

José Sócrates respondeu no seu estilo veeemente: “Algumas dessas expressões são mentira! Se existe alguma coisa no processo que possa ser interpretado dessa forma, isso é mentira!”

Santos Silva, o alegado testa-de-ferro

José Alberto Carvalho confrontou ainda José Sócrates com a principal imputação do Ministério Público (MP): Carlos Santos Silva é um testa-de-ferro e os 23 milhões de que euros que amealhou na Suíça pertencem a José Sócrates.

É a primeira vez que Sócrates responde sobre essa imputação.

“Conheço o engenheiro Carlos Santos Silva desde a minha juventude. Há mais de 40 anos. Ele é o meu melhor amigo fora da politica. Sou amigo da mulher e da filha dele. Ele é amigo do meu pai e dos meus filhos. Há mais de 20 anos que passo as férias com Carlos Santos Silva. É absolutamente extraordinário que digam que o dinheiro é meu!”, afirma.

Sobre a origem do dinheiro de Santos Silva. O ex-primeiro-ministro afirma: “Eu sempre pensei que o Carlos Santos Silva era um empresário de sucesso não é de agora. É de há mutos anos. Nunca perguntei quanto dinheiro tinha e onde ganhou – nem queria saber! Sabia que ele tinha fortuna. Mas não é de agora. É de há muitos anos”

Confrontado com o facto de Santos Silva ter aderido à Regularização Extraordinária de Rendimentos aprovado pelo seu governo, Sócrates diz: “Eu não sabia que o eng. Carlos Santos Silva tinha dinheiro na Suíça! Esse dinheiro não é meu. É do meu amigo Carlos Santos Silva. Ponto final!” “Esta é uma investigação que não tem moral e que quer perseguir-me”, afirma.

“Passa pela cabeça de alguém que eu tivesse uma fortuna de 23 milhões de euros na Suíça e não tivesse um documento que me permitisse ter acesso a esse dinheiro?”, perguntou, de forma retórica.

“Em matéria de corrupção, eu pergunto: ‘há algum depoimento que me comprometa? Há algum documento que me incrimine”, pergunta de forma retórica o ex-primeiro-ministro.

José Sócrates falou ainda sobre as suspeitas de corrupção na segunda parte da entrevista à TVI. Começa pelas alegadas suspeitas sobre um encontro com Manuel Vicente, vice-presidente de Angola. “Falaram-me de um telefonema para o sr. vice-presidente de Angola. Marquei uma audiência para o Grupo Lena como fiz para muitas empresas! Esse era o meu dever. Surgiu uma dificuldade, que já não me recordo do que era, e pediram-me para ajudar a marcar o encontro. E isto é uma suspeita de corrupção, imagine! Isso é uma imputação genérica“, começou por afirmar, para rejeitar completamente tal crime. “O Ministério Público (MP) ao imputar-me o crime de corrupção foi além do que podia fazer. Não podia fazer isso! Por que é falso!”, diz.

A primeira parte da entrevista transmitida ontem tinha ficado marcada por um ataque cerrado ao Ministério Público, tendo José Sócrates responsabilizado a procurador-geral Joana Marques por tudo o que está a acontecer de errado, no seu ponto de vista, na Operação Marquês. “A sra. procuradora-geral da República é a principal responsável por este processo. Ela é que tem de dar uma explicação sobre o que está a acontecer. Foram esgotados todos os prazos para a conclusão da investigação. O MP devia pensar bem no que está a fazer e olhar para as regras do direito penal. Aquilo que deve fazer é: ou acusar ou calar-se!”, disse o ex-primeiro-ministro, convidando assim o MP a arquivar o inquérito que abriu contra si.

Também António Costa ficou com as ‘orelhas a arder’. Num tom distante e frio, Sócrates criticou abertamente a opção do secretário-geral do PS e atual primeiro-ministro de não comentar publicamente o seu processo nem de classificá-lo como um processo político. Fazendo questão de que recordar que o PS perdeu as eleições e associando essa derrota às consequências da Operação Marquês, José Sócrates acrescentou:

Ao fim de seis meses, esperava que o PS dissesse: “desculpem, não será o momento de apresentar as provas. A atuação do MP serviu para prejudicar o PS. Isso afeta o prestigio da justiça”, concluiu.

Sócrates repetiu uma ideia que já tinha afirmado nas duas conferências que deu recentemente sobre a relação entre Justiça e Política. “Não pode haver uma pressão do poder político sobre o poder judicial. Mas quem garante as regras da justiça é a política, somos todos nós. Numa democracia, quando vemos um abuso a um cidadão, essa é uma ameaça sobre os demais”, afirmou, transmitindo a ideia de que o alegado abuso sobre si deve preocupar todos os portugueses.

As conspirações contra Sócrates

Questionado pelo entrevistador, e a propósito de um argumento recorrente por si utilizado, sobre a razão para tantas conspirações contra si, José Sócrates fez questão de recuar no tempo e recordar o famoso caso das escutas em que o Presidente Cavaco Silva suspeitava de que estava a ser escutado por São Bento – informação que terá sido passada para os jornais por um assessor presidencial.

Recordou ainda o caso Freeeport, onde diz que o chefe de gabinete de Pedro Santana Lopes [Miguel Almeida] fazia com a Polícia Judiciária a investigação contra o próprio Sócrates, o líder da oposição de então que acabou por ganhar em fevereiro de 2005 as legislativas antecipadas contra Santana por maioria absoluta.

E chegou à Operação Marquês onde voltou a afirmar que “tenho a suspeita que este processo foi feito para prejudicar-me, que visa prejudicar o PS, lá isso tenho” e que tal suspeita está relacionada com “o ódio pessoal que a direita tentou criar contra mim. O ódio que o Correio da Manhã tentou criar contra mim com as histórias sobre a casa de Paris e de ter uma vida faustosa em Paris”.

“Isto é uma questão pavloviana. Não estou a ver outra motivação”, afirmou.

Vara e o PROTAL

José Sócrates abordou ainda o alegado favorecimento que o seu governo terá concedido, segundo o Ministério Público, ao empreendimento de Vale do Lobo, cujos acionistas terão transferido cerca de 15,5 milhões de euros para a conta de Carlos Santos Silva na Suíça. Pegando na questão do instrumento urbanístico da costa algarvia, aprovado pelo seu governo, que terá estado na origem do alegado favorecimento na expansão do resort de Vale do Lobo, Sócrates afirmou: “A cláuslua de excepção do PROTAL não se aplicou a Vale do Lobo, não se aplicou. É uma imputação de favorecimento absolutamente absurda”

Sócrates disse ainda que “não sabia quem eram os accionistas de Vale do Lobo” em 2005/2006, na altura em que um grupo de empresários liderados por Hélder Bataglia (do Grupo Escom) comprou um dos mais antigos resort do Algarve e solicitou um empréstimo de mais de 220 milhões de euros à Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Confrontado com as suspeitas criminais que são imputadas a Armando Vara por alegadamente, e enquanto vice-presidente da CGD, ter financiado os novos acionistas de Vale do Lobo, Sócrates afirmou: “Armando Vara é meu amigo e acredito na inocência dele” . “A CGD tomou as suas decisões por modo próprio”, afirmou, negando que alguma vez tenha falado com Vara sobre Vale do Lobo.

“Esta é uma investigação que não tem moral e que quer perseguir-me”, concluiu.

Corrigido o valor da doação da mãe de José Sócrates