Os rumores confirmaram-se: José Mourinho foi despedido do Chelsea. Again, já que Roman Abramovich, o milionário russo que é dono do clube londrino, já tinha prescindido do treinador português em 2007, quando estava na quarta época a tomar conta do clube. Mas desta vez foi diferente, para pior. Primeiro, porque esta era a terceira temporada de Mourinho em Londres desde que voltou ao Chelsea, em 2013, e segundo, devido ao estado em que deixará a equipa — quase no fundo da Premier League, plantada na 16.ª posição pelas raízes de nove derrotas em 16 jogos (mais quatro vitórias e três empates), apenas a um ponto dos lugares de descida de divisão. Isto foi demais para o proprietário do Chelsea.

Mesmo assim, Roman Abramovich teve mais paciência do que há oito anos, quando despediu o português logo em setembro, ao fim de três vitórias, quatro empates e uma derrota. Aí José Mourinho aguentou oito jogos na época 2007/08, um terço dos que fez esta temporada, em que a direção do Chelsea resistiu até à derrota (na segunda-feira, por 2-0) com o Leicester que hoje é treinador pelo homem que Abramovich não quis para ter Mourinho, em 2004 — Claudio Ranieri. Esta foi a nona derrota do português esta época, para o campeonato, mais do em qualquer uma das 15 temporadas anteriores que dividiu entre União de Leiria, Benfica, FC Porto, Chelsea, Inter de Milão e Real Madrid.

Sabendo isto, José Mourinho já não poderá ser o Happy One.

Foi assim que se descreveu, sorridente e feliz da vida, quando regressou ao clube londrino no verão de 2013. “Agora sou o tipo feliz. Se tiver de escolher uma alcunha para este período, é essa, porque estou muito contente. Tenho a mesma natureza, o mesmo coração e a minha paixão pelo futebol. Neste momento sou uma pessoa muito feliz por chegar a um clube que já adoro”, confessou, descontraído, no dia em que foi apresentado, depois de três anos no Real Madrid que lhe deram mais cabelos brancos do que alegrias (as picardias com Pep Guardiola, o dedo enfiado no olho de Tito Vilanova, a guerra com Iker Casillas, a manita sofrida contra o Barcelona).

Historia-de-Mourinho

O português parecia estar aliviado por voltar a Londres, a um clube de onde saíra a mal, mas ao qual regressava a bem. Além de lhe pedir para fazer o Chelsea voltar a reinar em Inglaterra (2009/10), Roman Abramovich terá dito a José Mourinho que o quer queria mesmo era vê-lo a brilhar na Liga dos Campeões. À segunda época deu-lhe o primeiro pedido e conquistou a Premier League, mas, tal como na primeira passagem pelos blues, Mourinho não foi capaz de concretizar o segundo — chegou às meias-finais em 2013/14, na época seguinte ficou pelos “oitavos” e, nesta, qualificou o Chelsea em primeiro lugar na fase de grupos ao mesmo tempo que tramou o FC Porto (foi eliminado para a Liga Europa).

Da primeira vez que José Mourinho foi despedido, o Chelsea conseguiu, nessa temporada, chegar à final da Champions. Fê-lo com Avram Grant, o israelita que o substituiu no banco de suplentes. Aliás, isso aconteceu sempre que cortou relações com um técnico português, pois Roberto Di Matteo conquistou a prova em 2011/12, depois de pegar na equipa que André Villas-Boas lhe deixou. E agora, como vai ser?

A segunda saída do português do Chelsea equivale à oitava troca de treinador do clube desde 2003, ano em que passou a ter Roman Abramovich como dono. Já lá vão 12 épocas, mas a verdade é que José Mourinho sai como o técnico com o maior número de títulos (e não só) conquistados nos 110 anos de história do Chelsea. Nas sete temporadas (duas delas incompletas) no clube, o português venceu três Premier Leagues, uma Super Taça de Inglaterra e três Taças da Liga inglesa. Mas o sucesso não se mede apenas com títulos e Mourinho deixa o Chelsea com outros números que o provam, como este — 66%, a melhor percentagem de sempre de vitórias entre treinadores que contam mais de 100 jogos feitos no campeonato inglês (diz a Opta).

Londres, 10/02/2015 - O treinador de futebol José Mourinho recebeu, esta manhã, no centro de estágio do Chelsea FC, em Cobham, o prémio de melhor treinador português das últimas três décadas atribuído pelo Jornal O Jogo, troféu que assinala os 30 anos do diário desportivo. (Leonel de Castro / Global Imagens)

Foto: Leonel de Castro / Global Imagens

É por isto que, mesmo alterando a alcunha quando regressou ao Chelsea, o português continue a ser o Special One, como se autointitulou na primeira vez que foi apresentado como treinador do clube. “Não me chamem arrogante, porque o que estou a dizer é verdade. Sou campeão europeu, acho que sou um tipo especial”, disse, em 2004, quando viajou do Porto para Londres com duas ligas portuguesas, uma Taça de Portugal, uma Super Taça, uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões. Em duas temporadas com os dragões, o treinador só não ganhou duas (uma Taça de Portugal e uma Super Taça Europeia) das oito provas em que participou. E, depois, o português conseguiu ser campeão com todas as equipas que treinou, incluindo os dois períodos em que esteve a tomar conta do Chelsea.

Se quem faz isto só pode ser especial, o que chamar ao homem que por duas vezes decidiu prescindir de José Mourinho?

Talvez o Rich One, pois isto prova que dinheiro é mesmo coisa que não lhe falta: em agosto, o Chelsea renovou o contrato com o português por mais quatro épocas, fazendo-o ganhar algo como 17 milhões por ano até 2019. Os jornais ingleses dizem que Roman Abramovich pagou o reminiscente dos vínculos a todos os treinadores que já despediu até eles encontrarem um novo clube. No caso do português, isso dá qualquer coisa como 344 mil euros por semana.