Aconteceram no início de novembro do ano passado, foram buscas discretas e visavam um objectivo simples: recolher prova documental sobre todas as vendas do livro “Confiança no Mundo” para comprovar a alegada compra em massa da obra de José Sócrates que o Ministério Público (MP) suspeita que foi ordenada pelo próprio ex-primeiro-ministro e que terá sido coordenada por Carlos Santos Silva. Os alvos: os armazéns da marca espanhola “El Corte Inglês“, a empresa francesa Auchan que explora os hipermercados “Jumbo” e o grupo livreiro Almedina. A FNAC e a sede das livrarias Bertrand já tinham sido alvo de buscas idênticas.

O Ministério Público (MP) quis com estas buscas recolher prova documental (listagens das vendas, facturas/recibos emitidos, a forma de pagamento, etc.) contra José Sócrates, o que indicia claramente que esta matéria constará do despacho de encerramento de inquérito que ainda não tem data marcada. No entender do procurador Rosário Teixeira, titular da Operação Marquês, a compra em massa do livro de José Sócrates tem relevância criminal por ter sido financiada por Carlos Santos Silva através da conta do Banco Espírito Santo que recebeu os 23 milhões de euros repatriados da Suíça em 2010 ao abrigo da Regime Excecional de Regularização Tributária – valor que, segundo o MP, pertencerão a Sócrates. Tendo em conta que a origem desses fundos é explicada pelo MP com a alegada prática de crimes de corrupção e de fraude fiscal, a compra em massa do livro de Sócrates poderá corresponder a um alegado crime de branqueamento de capitais. Isto porque o MP pode encarar o financiamento da operação que catapultou o livro “Confiança no Mundo” para o ranking dos livros mais vendidos como uma tentativa de dissimular a alegada origem ilícita do dinheiro utilizado.

O foco dos investigadores concentrou-se nas livrarias do El Corte Inglés, Jumbo, Almedina, FNAC e Bertrand por terem sido nos pontos de venda destas marcas que o livro de Sócrates esgotou ou vendeu mais nos primeiros dias. Os pontos de venda das primeiras três empresas venderam cerca de 1500 exemplares da primeira edição do livro de Sócrates , tendo esgotado o stock que receberam da editora da obra que se baseia na dissertação de mestrado que o ex-primeiro-ministro completou no Institute d’Étude Politiques de Paris. Era precisamente essa a intenção do ex-primeiro-ministro quando, segundo o MP, ordenou a Santos Silva a organização de tal compra massiva: promover o sucesso comercial do livro.

O Astérix e os camaradas da província

A própria editora do livro, a Babel, ficou surpreendida com as cinco edições e os cerca de 18 mil exemplares vendidos nas duas primeiras semanas. Vários responsáveis da editora foram chamados pelo procurador Rosário Teixeira para testemunhar, tendo revelado a surpresa generalizada com as vendas da obra. Um desses responsáveis, José Araújo, terá dito mesmo que um livro que se baseia numa tese de mestrado não venderia mais do que 3 mil exemplares em dois anos, tal como o semanário Sol noticiou em Janeiro. “Um fenómeno de vendas como José Rodrigues dos Santos e Margarida Rebelo Pinto”e “Só Asterix vende mais do que José Sócrates” – eram algumas das frases utilizadas em 2013 para descrever o sucesso de uma obra de filosofia e de um género literário, o ensaio, que por definição é a antítese do best seller.

Um sucesso que, contudo, será artificial visto que uma parte significativa dos livros foram comprados, a pedido de Carlos Santos Silva, por Inês do Rosário (mulher de Santos Silva), o advogado Gonçalo Ferreira e o gestor Rui Mão de Ferro – os três arguidos da Operação Marquês. Também Carlos Martins, actual vereador da Câmara da Covilhã, o motorista João Perna e a sua mulher, Lígia Correia (amiga de Sócrates e ex-assessora de diversos Executivos do PS) e os deputados Renato Sampaio e André Figueiredo (dirigentes do PS muito próximos de Sócrates) foram outros protagonistas desta operação que além de financiada também foi coordenada por Carlos Santos Silva.

Alguns membros deste último grupo, os que não são arguidos, já foram ouvidos na Operação Marquês com o estatuto de testemunha. André Figueiredo, que ajudou a organizar a festa de lançamento do livro no Museu da Electricidade, foi um deles.

Ao que o Observador apurou, o ex-chefe de gabinete de José Sócrates no PS foi confrontado com os indícios que revelam a sua participação nesta operação de compra em massa, bem como os encontros que terá tido com Carlos Santos Silva para alegadamente receber dinheiro em numerário para comprar exemplares da “Confiança no Mundo”. Figueiredo terá explicado tais aquisições com as solicitações que recebeu de pessoas da província, de camaradas do PS e de amigos. Além do mais, terá explicado ao procurador Rosário Teixeira, queria oferecer algumas cópias a familiares.