Jeremy Clarkson passou-se. Estava há horas em gravações, a falar e a atuar para as câmaras do Top Gear, programa da BBC que passara anos a pôr automóveis no topo das audiências no Reino Unido, ao domingo à noite. O apresentador, cansado e com a barriga a usar a fome para lhe incomodar a paciência, quis comer. O apetite fê-lo querer comida aquecida e o feitio difícil fez com que se chateasse por não a ter. Começou a discutir com quem achava responsável por isto, Oisin Tymon, um assistente de produção do programa. Clarkson falou alto e terá disparado insultos durante uns 30 segundos, até o esmurrar e lhe abrir o lábio com o soco. Isto aconteceu em março de 2015.

Agora, quase um ano depois, o apresentador de 55 anos — que a BBC despediu semanas depois do incidente — pediu perdão publicamente. Desta vez não falou, mas escreveu para “apresentar desculpas pelo incidente e pelas consequências” que este causou. “Gostaria de tornar claro que o abuso que ele sofreu é injustificável e lamento que tenha passado por isso”, referiu Jeremy Clarkson, no comunicado citado pela própria cadeia de televisão britânica. “Oisin sempre foi uma parte entusiasmada e criativa do Top Gear e desejo-lhe todo o sucesso em futuros projetos. Estou contente que este assunto esteja resolvido”, acrescentou. Mas não foi nada fácil.

Primeiro, porque Clarkson é um tipo de quem a maioria dos telespetadores gostava. Diz o que pensa sem filtro e com um humor que sempre o faz dizer o que o bom senso aconselharia a guardar para ele próprio. Assim que se soube da altercação com Oisin Tymon, o assistente de produção foi alvo de críticas e abuso no Facebook e no Twitter, redes sociais em que os fãs de Top Gear reagirem ao incidente. Depois, porque o alvo de agressão, noticia o Daily Telegraph, há meses que exigia uma indemnização de seis números a Clarkson, pelos danos causados pela polémica.

Daí o processo se ter arrastado durante quase um ano até que o apresentador, de 55 anos, alegadamente concordar em pagar pouco mais de 126 mil euros ao assistente de produção — com uma ajuda da BBC, que terá financiado parte da verba. O valor chegou às centenas de milhar pois, mesmo sem ter apresentado formalmente uma queixa às autoridades, Oisin Tymon alegou ter sido alvo de discriminação racial.

Uma investigação interna da BBC — que perguntava a funcionários o que viram e a pessoas que assistiram ao desacato o que ouviram — concluiu que Jeremy Clarkson chamou “irlandês preguiçoso”, com um palavrão incluído, a Tymon, antes de lhe dar um soco na cara. O pagamento da indemnização, contudo, matou o assunto. “Agora o Oisin quer colocar o tema atrás das costas”, confirmou Paul Daniels, advogado do assistente de produção, de 36 anos.

Na altura, a BBC demorou pouco tempo a despedir Jeremy Clarkson, que apresentava o Top Gear desde 1988, ano em que o formato original do programa começou a ser emitido. Os restantes apresentadores, James May e Richard Hammond, também abandonariam a estação, pouco depois, por vontade própria. Hoje, os três estão a trabalhar num novo programa sobre automóveis para a Amazon Prime, serviço de televisão da Amazon, enquanto Top Gear já conta com um novo conjunto de apresentadores — um deles é Matt LeBlanc, ator que protagonizava a personagem Joey, na série “Friends“, produzida entre 1994 e 2004.

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