– Então, como é que se conheceram?

– Pus um anúncio no jornal, naquela secção dos classificados obscuros, e o Fred respondeu.

Por umas raras frações de segundo, a história que esteve na origem do Isco teve um enorme potencial jornalístico. Literário, até. Mas logo a seguir ao ponto final, Tânia Martins desmentiu tudo. Era brincadeira. Infelizmente para a peculiaridade deste artigo, felizmente para a reputação do parceiro de aventura, Frederico Carvalho.

Tânia, a anfitriã, e Frederico, o chef, não são propriamente novatos nestas andanças. Ela, que tem formação na área dos vinhos, esteve na origem de vários projetos que mexeram (positivamente) com a restauração lisboeta: Taberna e Petiscaria Ideal, Pharmacia e Osteria, o único destes a que continua ligada. Ele, que tinha tudo bem estudado/encaminhado para se tornar arquiteto, foi chef executivo da Go Natural durante seis anos e desempenhou o mesmo papel em vários restaurantes de Olivier da Costa.

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Tânia e Frederico sentados no seu novo restaurante, o Isco.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

“Quando abrimos a Petiscaria, o Fred veio trabalhar connosco e fez o mesmo no Pharmacia. Já há muito que dizíamos que um dia ainda íamos ter uma coisa os dois”, explica Tânia, desta vez fiel à verdade. Foi tudo muito rápido. Em dezembro do ano passado ficaram com o espaço onde durante alguns anos funcionou o Le Petit Bistro, na Bica, e atiraram-se ao mar. Não literalmente, mas quase.

Tânia sabia bem o que queria. “Uma marisqueira, era o restaurante que me faltava”. Frederico achou por bem juntar o peixe à festa. E assim foi. O nome Isco encaixa que nem limão nas amêijoas, mas surgiu quase por acaso. “Tínhamos tudo menos o nome: andávamos para trás e para a frente com ideias até que uma colaboradora nossa, do nada, falou em Isco”, conta Tânia. Frederico completa. “O isco do peixe geralmente é camarão, isco, marisco, petisco, era perfeito.” Isco ficou.

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Aqui o mexilhão não se lixa, come-se. Com caril e leite de coco.
(foto: © Al Richardson)

Será legítimo alegar que conceito de marisqueira/peixaria moderna não é propriamente novo em Lisboa, onde restaurantes como o Sea Me ou a Peixaria da Esquina, por exemplo, já o praticam há algum tempo. Mas o Isco é diferente. Mais informal no ambiente, mais rústico na decoração — faz lembrar uma cabana de pescadores, ripas de madeira incluídas — e mais dinâmico na oferta, o que se comprova pelos vestígios deixados no quadro onde está escrita a ementa. “Queremos que isto seja a soma das nossas memórias, daquilo que gostamos de comer”, afirma Tânia.

Escrever que Frederico definiu a carta é errar no tempo verbal. Porque Frederico define a carta todos os dias. “Vamos rodando as coisas: só trabalhamos com produto fresco e não controlamos o mar”, justifica o chef, que fez um trabalho extensivo para tentar chegar “o mais direto possível aos fornecedores.” Assim, a matéria-prima chega de zonas costeiras bem distintas, de Sesimbra à Galiza, da Ria Formosa a Peniche.

No dia em que o Observador esteve no restaurante, o mar tinha permitido servir coisas como camarão frito à Isco (12€), mexilhão com caril e leite de coco (12€), creme de sapateira e amêijoa (7,50€) ou taco de peixe frito e tártaro de manga (9€). O que não muda, para já, são os três pratos de carne, identificados como “sustento”: sandes de cachaço de porco (5€), um bitoque de carne maturada (13€) e asinhas de frango (8,50€). Nem as sobremesas (2,90€) cuja designação é criativa: Going Peanuts, Titanic Meets Iceberg ou Não há Duas sem Três. A que correspondem? Não vamos estragar a surpresa.

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A carta de cocktails foi desenhada por Dave Palethorpe, do Cinco Lounge, especificamente para acompanhar peixe e marisco. (foto: © Al Richardson)

A carta de vinhos foi escolhida por Tânia, como não podia deixar de ser, e segue o famoso lema poucos mas bons. Já a de cocktails é assinada pelo inevitável Dave Palethorpe (do Cinco Lounge) e, segundo os responsáveis “foi desenhada especificamente para acompanhar peixe e marisco.” Há ainda uma sangria, também com receita de Dave, que Tânia aconselha vivamente. Com uma versão familiar (5l) servida em jerricã. Afinal, também pode ser combustível para uma noite feliz.

Para conseguir experimentar tudo isto é bom tirar vantagem do horário contínuo e alargado do restaurante: os lugares não abundam (são 28) e só se fazem reservas para grupos acima de oito pessoas. E quando a casa está cheia não se dá o nome nem se escreve na parede: tira-se senha. Tal e qual como na peixaria.

Nome: Isco
Morada: Rua do Almada, 29 (Bica).
Telefone: 21 346 1376
E-Mail: iscodabica@gmail.com
Horário: De domingo a quinta-feira, das 12h30 às 00h30. Sexta-feira e sábado, das 12h30 à 02h (a cozinha encerra à ooh30)
Preço Médio: 20€
Reservas: Só para grupos acima de 8 pessoas
Site: facebook.com/restauranteisco