Leonardo Jardim e Marco Silva têm nos respetivos contratos, com Mónaco e Olympiacos, uma cláusula que, caso o FC Porto (ou o Benfica, ou qualquer outro clube português) os contrate, o Sporting, anterior clube dos dois, tem que ser indemnizado — e no caso de Marco Silva o valor pode rondar o milhão de euros. A tudo a isso acresce, claro, o valor a pagar pela desvinculação a franceses e gregos, caso aceitassem sequer negociar.

Não se sabe se foi por isso, ou não, que o FC Porto não avançou para as suas contratações. Os ventos vindos do Dragão nos últimos meses, sobretudo desde que Lopetegui foi despedido em janeiro, “sopravam-nos”, Leonardo e Marco, a par de André Villas-Boas, Jorge Jesus ou Paulo Sousa, como os favoritos de Pinto da Costa e Antero Henrique para assumir o banco dos portistas no começo da nova época. Nenhum veio. Leonardo Jardim e Marco Silva tinham cláusulas a mais, André Villas Boas foi de ano sabático depois de sair do Zenit, Jorge Jesus só sairá do Sporting com um campeonato no bolso e Paulo Sousa está mais voltado a continuar no calcio do que a regressar a Portugal — onde só treinou a Seleção Nacional de Sub-15, no começo da carreira como treinador.

Nuno Espírito Santo não é uma “sobra”. Mas era um outsider que Jorge Mendes (quem mais?) fez insider. É ele o novo treinador do FC Porto. Conhece melhor o balneário do Dragão do que qualquer dos restantes (putativos) candidatos ao cargo. Villas Boas teve lá a sua “cadeira de sonho” e ganhou títulos nela sentado, sim, mas era treinador; Nuno ganhou tudo, absolutamente tudo o que havia para ganhar, da Liga à Champions, da Taça UEFA à Intercontinental, como jogador.

O empresário Jorge Mendes e o ex-futebolista (hoje treinador) Nuno Espírito Santo são "unha com carne", nos relvados como fora deles (Créditos: JACK TAYLOR/AFP/Getty Images e Manuel Queimadelos Alonso/Getty Images)

O empresário Jorge Mendes e o ex-futebolista (hoje treinador) Nuno Espírito Santo são “unha com carne”, nos relvados como fora deles (Créditos: JACK TAYLOR/AFP/Getty Images e Manuel Queimadelos Alonso/Getty Images)

O que vai ser enquanto treinador? Não se sabe. Não no FC Porto. Neste FC Porto. Sabe-se que, antes, no Rio Ave e no Valência, foi treinador revelação das respetivas ligas, a portuguesa e a espanhola. Sabe-se que futebol quer ver (e sobretudo o que não quer) nas suas equipas. E sabe-se de onde veio e para onde foi, como futebolista. Sempre com um amigo que mantém até hoje — e lhe abriu, abre e abrirá portas onde Nuno quiser entrar: Jorge Mendes.

Mendes, a discoteca em Caminha, o (bom) contrato na Corunha e Nuno

O primeiro futebolista que Jorge Mendes agenciou (quando ainda nem agente de futebolistas era) foi Nuno Espírito Santo. Estávamos no ano de 1996. Na altura, Mendes (um ex-futebolista nas divisões amadoras e ex-proprietário de um videoclube no Porto) deixou o clube noturno do qual era proprietário (e onde conheceu Nuno) em Caminha, no distrito de Viana do Castelo, criou o que viria a ser a Gestifute e vendeu o guarda-redes, um suplente de Neno no Vitória de Guimarães, aos galegos do Deportivo, presididos, então, pelo carismático Augusto César Lendoiro. Nuno tinha 22 anos.

Nuno (na altura ainda não utilizava o apelido Espírito Santo; na camisola nunca o utilizou) disputou oito jogos em seis épocas de ligação ao clube da Corunha. Na época de 1999/2000, quando o Deportivo fez história e se sagrou, pela primeira vez desde a sua fundação, campeão de La Liga, Nuno encontrava-se emprestado, no Mérida, da Liga Adelante, a segunda divisão espanhola. E foi no clube da Extremadura que começou, por fim, a dar nas vistas: ganhou o troféu Zamora, que distingue o guarda-redes que menos golos encaixou durante a época inteira.

Nuno, depois dos penaltis na final da Taça Intercontinental, contra o Once Caldas. O FC Porto venceu (Créditos: TORU YAMANAKA/AFP/Getty Images)

Nuno, depois dos penáltis na final da Taça Intercontinental, contra o Once Caldas. O FC Porto venceu (Créditos: TORU YAMANAKA/AFP/Getty Images)

Nuno Espírito Santo haveria de regressar ao Depor, novamente como suplente, mas haveria também (e pouco depois) de regressar a Portugal, assinando pelo FC Porto. Para ser titular? Não. Foi suplente de Vítor Baía, primeiro, e de Helton, depois. Mas jogou. Pouco, mais jogou. E conquistou títulos em barda: quatro campeonatos, três vezes a Taça de Portugal, uma Liga dos Campeões, uma (extinta) Taça UEFA e uma Taça Intercontinental.

Na Intercontinental, disputada no estádio Yokohama, em Tóquio, haveria de ser “decisivo”. Foi suplente, sim, mas entrou aos 103′ do prolongamento para o lugar de Vítor Baía. O jogo contra os colombianos do Once Caldas manteve-se num teimoso 0-0 até final e só foi decidido nas grandes penalidades. E aí, Nuno defendeu mais (ou melhor: atrapalhou mais; nenhum dos guarda-redes chegou a tocar verdadeiramente na bola) do que o excêntrico (da mesma estirpe de René Higuita) Juan Carlos Henao.

Na época de 2004/2005, Nuno deixou o Dragão. Foi na época de Luigi del Neri, Víctor Fernández e José Couceiro. Mas não foi sozinho: para a Rússia e para o Dynamo de Moscovo seguiram com ele Seitaridis, Derlei, Maniche e Costinha — os dois últimos, tal como Nuno, agenciados por Jorge Mendes. Era o contrato de uma vida. Mais um, e novamente com Jorge Mendes na sombra.

https://www.youtube.com/watch?v=7k-6FE6Tatg

Nuno nunca escondeu o quão importante o empresário foi na sua vida. Em entrevista ao Público, no começo do ano, foi-lhe perguntado se é “um protegido” de Jorge Mendes. Nuno atirou sem gaguejar: “O Jorge Mendes é empresário dos melhores do mundo e eu tenho a felicidade de ser mais um, e de tê-lo a zelar pelos meus interesses.” Célebre é também o episódio que aconteceu pouco depois de Nuno, então treinador do Rio Ave, derrotar o Sp. Braga e se apurar para a final da Taça de Portugal. Atendeu o telefone a Jorge Mendes em plena conferência de imprensa e disse-lhe, à frente de todos e olhando diretamente para a câmara de TV: “É para ti e por ti! Promete-me que vais ao Jamor. Prometes-me? É p’raaa ti! Adoro-te”.

Jorge Mendes foi mesmo a Oeiras. E Nuno haveria de perder essa final para o Benfica.

No Dragão é apenas “o” Nuno. Como chegou ele ao FC Porto – e como se fez Porto?

Nuno voltou do frio russo na época de 2006/2007. Não para o FC Porto, mas para o Desportivo das Aves. Ao Dragão só retornaria na época seguinte, pela mão de Jesualdo Ferreira. Foi bicampeão, mas terminaria a sua derradeira época (2009/2010) como futebolista em terceiro lugar no campeonato. O campeão foi o Benfica de Jorge Jesus.

Mas a época fez correr muita tinta fora dos relvados. Para entender porquê, é necessário recuar ao dia 20 de dezembro de 2009, quando o Benfica derrotou o FC Porto por 1-0 na Luz. O golo foi de Saviola. Mas não foi do conejo argentino que mais se falou no dia seguinte. É que Hulk e Sapunaru foram castigados por, alegadamente, terem agredido um segurança do clube rival no túnel que dá acesso aos balneários. O brasileiro e o romeno ficaram três meses a ver os jogos da bancada.

Nuno não era um titular. Fez 30 jogos em três épocas. Mais nas taças do que na Primeira Liga. O titular era Helton. Mas Jesualdo Ferreira, sabendo como Nuno conhecia os cantos à casa, sabendo tudo quanto Nuno ganhou com a azul-e-branca vestida, fez dele um dos capitães, a par de Bruno Alves e do próprio Helton.

Voltando ao túnel da Luz. Quando se soube do castigo, o plantel indignou-se e acorreu ao auditório José Maria Pedroto, no estádio do Dragão. Os castigados Hulk e Sapunaru sentaram-se nas cadeiras, o restantes plantel circundou-os, todos com ar pesaroso, os capitães estavam sentados também, mas só um falou em nome de todos: Nuno Espírito Santo. Nuno falou pouco. Quase de improviso. E o castigo de três meses manteve-se ao avançado e ao lateral. Mas o que disse Nuno, como disse, ainda hoje se escuta no balneário do Dragão. Sobretudo uma frase, breve, brevíssima, de arreganho e vontade de vencer, pejada de simbolismo:

— Somos Porto!

E hoje Nuno volta a ser FC Porto. E líder como antes. Mais fora do relvado do que dentro. Como sempre, afinal.

De treinador revelação (em Portugal e Espanha) a treinador no olho da rua

Futebolistas houve que, cedo, ainda quando as pernas corriam na relva e o banco era tudo onde não queriam sentar-se, revelaram o desejo de vir a ser treinadores. Noutros, como é o caso de Nuno Espírito Santo, essa revelação nunca foi pública, mas estava latente.

Tanto assim que, quando Jesualdo Ferreira deixou o Dragão e foi treinar o (então milionário) Málaga na época de 2010/2011, levou Nuno com ele. Seria o seu treinador de guarda-redes. A época correu mal, Jesualdo saiu cedo de Espanha, mas acabou 2011 por outras latitudes, no Panathinaikos da Grécia, e mais uma vez Nuno acompanhou-o. Mais uma vez a treinar aqueles que, tal como ele, um dia, não têm por missão marcar golos, mas defendê-los. Assim seria durante essa época e na seguinte.

Até que, por fim, na temporada de 2012/2013, Nuno se “emancipou” de Jesualdo e resolveu trilhar o seu percurso a sós, como treinador principal. Não começou por cima, por nenhum”grande”, mas também não começou por baixo, nas segundas desta vida.

Jorge Mendes, próximo da direção do Rio Ave, colocou-o em Vila do Conde. Mais do que oferecer-lhe o banco, Mendes ofereceu-lhe um plantel. Por via direta do empresário, ou através de negócios que este intermediou, o Rio Ave tinha nesse ano Jan Oblak (hoje no Atlético de Madrid), Ederson Moraes (o “Ederson” do Benfica), Alberto Rodríguez (ex-Sporting de Braga e de Alvalade), Diego Lopes (ainda ligado ao Benfica e hoje por terras da Turquia), Filipe Augusto (ex-Valência e hoje no Sp. Braga), Ahmed Hassan (também em Braga), Ukra (um dos poucos que se mantém em Vila do Conde), Bebé (o “senhor 8,8 milhões de euros” que Mendes impingiu a Alex Ferguson sem o escocês o ter visto a jogar tão pouco) ou Yonathan Del Valle (internacional pela Venezuela, que quando acelera até parece que vai de mota).

A matéria-prima era muita. Era a época de estreia, acabou em sexto lugar na Primeira Liga — quase apurou o Rio Ave para a Liga Europa; faltaram três pontinhos só –, sendo eliminado na meia-final da Taça de Portugal. Nada mal. Mas a época seguinte daria a Nuno o título de treinador revelação. O campeonato foi um fiasco: terminou em 11º lugar. Mas a época foi de sonho, pois Nuno apurou os vila-condenses para duas finais: a da Taça de Portugal e a da Taça da Liga. Perdeu ambas para o Benfica.

Era altura de sair de Vila do Conde e ascender na carreira. Sp. Braga, quiçá V. Guimarães, FC Porto ou Sporting a seguir? Não. Nuno voltaria a emigrar, e novamente para Espanha. Fê-lo, claro, pela mão de Jorge Mendes, homem da máxima confiança de Peter Lim, o milionário de Singapura que resolveu jogar Football Manager na vida real com o Valência. Quem é Lim? Mais do que falar dele, falemos da conta bancária. Lim tem a sua fortuna estimada em dois mil milhões de dólares. E é um investidor: investiu na FJ Benjamin, empresa que detém ações de marcas de vestuário como a GAP, a Guess ou a Givenchy; fez o mesmo na Thomson Medical, empresa que tem clínicas de saúde espalhadas um pouco por toda a Ásia; e detém ações na McLaren, equipa que compete na Fórmula 1, sendo proprietário de 70% do capital da FASTrack Iskandar, um consórcio que investiu quase 755 milhões de euros na construção de um circuito automobilístico, na Malásia, que deverá estar concluído em meados de 2016.

O Valência, que adquiriu em 2014, foi mais um investimento. Mas, por enquanto, não é um investimento lucrativo, mas despesista — o melhor que conseguiu foi um 4º lugar na La Liga de 2014/2015, a temporada de estreia de Nuno no banco do clube Ché. Com isso, o Valência qualificou-se para a Liga dos Campeões, algo que não acontecia há três temporadas. Aquela época, para Lim, apesar de tudo, foi má, pois terminou sem títulos. Mas Nuno venceu um, o de treinador revelação de La Liga.

Nuno, como treinador já usando do apelido Espírito Santo, começou bem no Valência. Mas não terminou a segunda época (Créditos: JOSE JORDAN/AFP/Getty Images)

Nuno, como treinador, já usando o apelido Espírito Santo, começou bem no Valência. Mas não terminou a segunda época (Créditos: JOSE JORDAN/AFP/Getty Images)

Jorge Mendes, que já lhe havia apetrechado o Valência com João Cancelo, Otamendi, Rúben Vezo, Enzo Pérez, André Gomes ou Rodrigo na primeira época, ainda mais o apetrechou na segunda, ajudando a trazer para Valência Aymen Abdennour, Danilo Silva ou Álvaro Negredo. Mas a época foi má, francamente má. Nuno seria despedido no final de novembro, afastado da Liga dos Campeões ainda na fase de grupos, com o Valência no 9º lugar de La Liga, e somente com oito vitórias em 20 jogos disputados.

Ao Público, quando questionado sobre se o despedimento deixou alguma marca negativa na sua imagem como treinador, Nuno respondeu: “Não. Não absolutamente. Nós conseguimos… Fomos treinadores do Valência durante 500 dias, conseguimos 77 pontos, classificar a equipa para a Liga dos Campeões, não perder em casa, construir uma equipa, ganhar em casa aos grandes clubes de Espanha, projetar a imagem do clube a nível mundial, tudo coisas positivas. A carreira de um treinador é feita de pressão e de crítica e temos é de estar preparados.”

O que esperar Nuno? Não esperem o “tiki-taka” de Lopetegui (afinal, nem do de Guardiola ele gosta)

Não, o despedimento não manchou o percurso de Nuno Espírito Santo até aqui. Tanto que é hoje treinador do FC Porto e foi o escolhido de Pinto da Costa para limpar a má figura que o FC Porto fez nas últimas épocas. Mais concretamente três anos e duas épocas, pois desde o verão de 2013 que os portistas não deitam a mão a qualquer troféu.

O que esperar de Nuno como treinador? É certo que ainda não se sabe que plantel terá, quem entra e quem sai, mas uma coisa é certa: o 4-3-3 (que Lopetegui aboliu e Peseiro não soube potenciar) vai voltar a ver-se.

A defesa é a quatro, mas Nuno é adepto de laterais que sobem. Foi assim com Lionn e Edimar no Rio Ave, foi assim com Cancelo e Gayá no Valência, e será assim, ao que tudo leva a crer, com Maxi e Layún no FC Porto. Os centrais não têm que ser necessariamente velozes, capazes de sair a jogar, mas Nuno quer centrais matulões, que se impõem no futebol aéreo. Avancemos até ao meio-campo, que é sempre a três, mas “clássico”: um pivô defensivo, um médio de transição — o chamado “8” — e um organizador de jogo, não necessariamente um “10”, mas alguém capaz de dar o litro a apoiar na hora de defender e definir o ataque, quando por fim a hora deste chegar. No Valência, este último médio dava pelo nome de André Gomes. E no FC Porto não há, ainda, um “André Gomes”. Quanto ao ataque, os extremos têm que ser velozes e desequilibradores, capazes de cruzar. Esses, o FC Porto tem: Corona e Brahimi. Caso permaneçam, claro. O ponta-de-lança é provável que com Nuno seja mais André Silva do que Aboubakar. É que, ao contrário dos centrais, na posição de avançado-centro Nuno prefere o esguio ao matulão. Tanto que encostou Negredo no Valência e com ele só Paco Alcácer era titular de caras.

Uma coisa não se vai voltar a ver tão cedo no Dragão: “carrosséis”. Como os de Lopetegui, adaptados (mal) do “tiki-taka” do Barça de Guardiola. Os catalães (tal como o Bayern depois) circulam a bola, sim, bola cá, bola lá, do ataque para a defesa e da defesa para o ataque, mas marcam que se fartam. A baliza está sempre na mira. Com Lopetegui não era tanto assim. Nuno não é fã desse futebol. E assumiu-o, ainda no Valência, em entrevista à Cadena COPE.

“Gosto de equipas organizadas, intensas, equipas de homens, que tenham a capacidade de entender e controlar o jogo. O Barcelona de Guardiola? Jogava muito bem, mas acabou por fazer mal ao futebol. Implantou-se uma tendência única [Nuno falava do futebol sustentado na posse de bola dos blaugrana], quando na verdade não é assim.”

Em agosto se verá como vai ser o futebol de Nuno Herlander Simões Espírito Santo, de 42 anos. No Dragão, antes como agora, só Nuno.