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“Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros. Sou super piedoso para as pessoas que fazem bem, erram, mas deram tudo”, disse, recentemente, numa entrevista. ILUSTRAÇÃO: ANA MARTINGO/OBSERVADOR

“Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros. Sou super piedoso para as pessoas que fazem bem, erram, mas deram tudo”, disse, recentemente, numa entrevista. ILUSTRAÇÃO: ANA MARTINGO/OBSERVADOR

Gouveia e Melo. O militar típico "de sim e não", que não recusa desafios e que no mar se sente gigantesco

Já foi apelidado de salvador da pátria e de assassino ao longo de meses que liderou a missão de vacinar os portugueses. Quem é e o que move Gouveia e Melo, que agora deixa a coordenação da task force?

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A primeira reunião que tiveram durou 7 minutos. Gouveia e Melo acabava de se tornar coordenador do plano de vacinação — missão que terminou esta terça-feira — e o bastonário da Ordem dos Médicos pediu-lhe uma reunião urgente. No dia seguinte ao pedido feito, o encontro aconteceu. O vice-almirante sabia na ponta da língua as principais exigências que os dois médicos presentes, Miguel Guimarães e Filipe Froes, lhe levavam. E até concordava com elas. Sem necessidade de enumerar o que todos sabiam de cor, rapidamente ficou resolvida a maior dor de cabeça do bastonário daquela altura: a vacinação prioritária dos médicos da rede privada.

Prático é um dos adjetivos que o bastonário Miguel Guimarães escolhe para descrever o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, “um militar típico, de respostas diretas, sim e não, que não perde tempo com floreados”. Aplaude-lhe o ter criado boas pontes com os parceiros institucionais, elogia-lhe a simpatia e garante ser “a pessoa certa no lugar certo” para garantir ordem no processo de vacinação, algo que ameaçava falhar nas primeiras semanas.

Ser a pessoa certa (ou não) depende do ponto de vista de cada um e não é esse, certamente, o dos negacionistas da Covid-19. A 15 de agosto, Gouveia e Melo foi insultado e apelidado de assassino por dezenas de manifestantes anti-vacinação no Pavilhão Multiusos de Odivelas, onde eram vacinados jovens de 16 e 17 anos. A sua resposta foi curta: “O obscurantismo no século XXI continua.” Desde então, mesmo que contra a sua vontade, o vice-almirante tem proteção 24 horas por dia de elementos de elite da PSP.

Ser militar típico não é sinónimo de manter distância nas relações. Pelo contrário. “Quem lhe escreve tem resposta no próprio dia ou no dia seguinte”, diz o bastonário dos Médicos que deu esse conselho a uma jovem que o procurou. Tinha pouco mais de 20 anos, ia seguir para uma missão humanitária num país africano de língua portuguesa e gostava de ser vacinada antes da viagem, embora não fizesse parte de nenhum grupo prioritário. Seguiu o conselho de Miguel Guimarães, expôs a sua situação à equipa do vice-almirante e seguiu para África já vacinada.

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“Sabe ouvir as pessoas, aproveitar os recursos disponíveis e tem uma boa capacidade de organização. E como é uma pessoa sensata tem uma grande capacidade de tomar decisões”, acrescenta Miguel Guimarães.

Portugal starts vaccination against COVID-19 of all teaching and non-teaching staff Portugal starts vaccination against COVID-19 of all teaching and non-teaching staff

Março de 2021. A primeira vacinação em massa em Portugal foi com pessoal docente e não docente e contou com a presença de António Costa e do ministro da Educação

NurPhoto via Getty Images

No início de junho, o coordenador do Plano de Vacinação viajou até aos Açores com a equipa militar de nove elementos que ia vacinar a população nas ilhas sem hospital. Durante esse périplo, cruzou-se com um grupo que vestia camisas da Ordem dos Enfermeiros — tinham sido desviados do seu trabalho habitual na organização para reforçar o processo de vacinação.

Com a sua figura esguia, e o seu metro e 93 de altura, que o destacam, à força, na multidão, dirigiu-se ao grupo de três profissionais e pediu para tirar uma selfie com eles. “Tenho de vos tratar muito bem porque se não a Ana Rita dá-me cabo do processo de vacinação”, disse brincando. A fotografia e a história chegaram à Ana Rita, apelido Cavaco, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros.

“É um grande aliado e dá-nos cobertura para nós podermos ser organizados”, diz a bastonária. “Gostamos muito de trabalhar com o vice-almirante, porque o seu estilo é como o da Ordem: diz o que tem a dizer, é frontal, assertivo e não se preocupa se põe o pé na quinta de outro”, acrescenta Ana Rita Cavaco. A frontalidade é com todos, até mesmo com os portugueses que não se querem vacinar ou que procuram nos centros de vacinação os divãs de psicólogos.

Quando Gouveia e Melo foi pôr ordem no centro de vacinação de Monte Abraão, em Sintra, também em junho, deixou uma mensagem simples. Aos utentes indecisos, é explicar-lhes que só têm uma hipótese: serem vacinados.

“Vamos todos sê-lo e à força. Uns vão ter a vacina artificial, dada aqui e controlada, outros vão ter a vacina natural, lá fora, com 14 dias de quarentena garantidos, risco de hospitalização e até de morte.” Depois, deu o remate final: “Se ainda assim ‘estiverem a tremer’, é dizer-lhes o que se diz aos militares: colinho dá a mãe em casa. Isto é um centro de vacinação, não de psicoterapia.”

Numa outra ocasião, em abril passado, foi com sarcasmo que reagiu ao medo que algumas pessoas tinham de ser vacinadas com o medicamento da AstraZeneca, devido aos efeitos adversos raros que iam sendo conhecidos. “Não ser vacinado significa ser um em 600 portugueses que no ano passado morreu”, disse, no final de uma visita ao centro de vacinação de Gondomar, no distrito do Porto. “Se a pessoa quer estar nesse totoloto acho que não é uma boa solução.”

"(...) Só têm uma hipótese: serem vacinados, porque vamos todos sê-lo, e à força. Uns vão ter a vacina artificial, dada aqui e controlada, e outros a vacina natural, lá fora e com 14 dias de quarentena garantidos, com risco de hospitalização e até de morte. Se ainda assim ‘estiverem a tremer’, é dizer-lhes o que se diz aos militares: colinho dá a mãe em casa. Isto é um centro de vacinação, não de psicoterapia.”
9 de junho, centro de vacinação em Monte Abraão, no concelho de Sintra

Numa entrevista à RTP, lembrou o conselho que deu às equipas de vacinadores que, no início da campanha, eram constantemente bombardeados com perguntas sobre a marca da vacina que lhes ia ser administradas: “Respondam que é a vacina da boa”, disse rindo.

Esta frontalidade, muitas vezes embrulhada em exigência, nem sempre lhe trouxe amigos. Fonte da Marinha conta que se há quem o admire, mas também há quem prefira não se voltar a cruzar com o vice-almirante. O próprio não o esconde, e em duas entrevistas, usou sempre a mesma expressão para se referir a quem lhe aponta o dedo: os detratores.

Gouveia e Melo é o “herói discreto de Portugal” no combate à pandemia, diz Financial Times

Os detratores e os malandros

“Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros. Sou super piedoso para as pessoas que fazem bem, erram, mas deram tudo”, disse, recentemente, numa entrevista ao semanário Sol. Nas suas equipas não precisa de ter elites, precisa, isso sim, de quem dê tudo por tudo, mesmo que falhe.

Ao Expresso defendeu algo semelhante: não tem simpatia por quem “é muito inteligente em casa, mas finge-se de parvo quando é para trabalhar para o Estado”. São essas pessoas que o levam a mostrar o seu lado mais negro: “Aí sou mesmo mau. Quando um malandro começa a fazer malandrices, sou conhecido por não ser nada simpático.” Essas pessoas, reconhece, “deram-se francamente mal” na carreira enquanto estavam a seu lado.

O mesmo foi válido para quem abusou e quis passar à frente no plano de vacinação. Desde o primeiro dia que Gouveia e Melo avisou que não ia tolerar essas situações e, até ao final de junho, os casos de vacinação indevida deram origem a 216 processos-crime no Ministério Público. Mais recentemente, quando no Porto foram administradas doses a maiores de 18 anos, antes de ter sido dado início à vacinação desta faixa etária, falou em “ato de indisciplina” e a situação foi comunicada à PJ e à Inspeção Geral de Atividades em Saúde.

Em agosto, voltou a mostrar a mesma faceta quando falou em “quebra de confiança” ao referir-se à falha na cadeia de frio que levou à suspensão da vacinação no Queimódromo do Porto e ao atraso na notificação do problema. Enquanto não ficar claro por que motivo houve esse atraso, o centro de vacinação não será reaberto, garantiu a equipa do vice-almirante.

Outro traço do seu carácter é o nível de exigência que impõe a si próprio e a quem trabalha consigo. “Sempre fui muito exigente no meio português, que é pouco exigente por natureza e por cultura”, afirmou numa entrevista. E assume que o que pede a quem está à sua volta é elevado até para os padrões de um militar.

No posto de comando da task-force da vacinação, acompanhado por militares de todos os ramos das Forças Armadas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

É aí que os seus críticos — detratores como lhes prefere chamar — se enganam ao avaliar o seu temperamento e a sua natureza singular. Confundem, como assumiu o próprio, exigência com ambição, com falta de humanidade ou de empatia. Uma avaliação que Gouveia e Melo não aceita, garantindo ter relações humanas muito fortes com os seus colaboradores.

Apesar disso, alguns dos episódios com os seus detratores chegaram a dar origem a processos judiciais, em casos em que o vice-almirante respondeu sempre ao lado do almirante na reforma Macieira Fragoso, chefe do Estado-Maior da Marinha à data dos factos. Gouveia e Melo era então seu chefe de gabinete e respondeu por crimes de difamação agravada contra um antigo diretor-geral da Autoridade Marítima e por crimes de denúncia caluniosa e abuso de poder, num processo que teve origem numa queixa de um capitão-de-mar-e-guerra.

Processos judiciais à parte, por trás das censuras que lhe fazem, está, na sua opinião, a inveja. “Outra coisa que é muito portuguesa é a inveja. A maior parte das pessoas que viveram comigo parte do meu percurso nunca conseguiram entender o que me motivava. Há quem diga que fiz 31 dias num submarino porque era ambicioso. Ninguém quer sofrer 31 dias por ser ambicioso, eu pelo menos não.”

Um mês inteiro debaixo de água

Chamaram-lhe operação Endurance. O que era para ser duas missões distintas, quase seguidas, de 15 dias cada, acabou por tornar-se num recorde nacional. Foi um mês inteiro passado debaixo de água — os 31 dias de que fala Gouveia e Melo —, uma história do século passado, escrita entre 11 de junho e 11 de julho de 1997. A ideia foi sua e é, ainda hoje, a missão mais prolongada dos submarinos portugueses.

Mais tarde, quis fazer 60 dias, mas não o deixaram. “Se pudesse estar um ano no mar e conseguisse, fazia.”

Nessa altura, Gouveia e Melo era comandante do NRP Barracuda e sugeriu ao comandante da esquadrilha levar a autonomia dos submarinos da Classe Albacora ao máximo, numa altura em que o recorde português estava nos 18 dias. “Havia uma meta, eu tinha de a ultrapassar. E, além disso, para mim o importante era o que é que eu ia aprender”, disse Gouveia e Melo numa entrevista, garantindo que não foi só o recorde que o moveu.

Tinha tudo a ver com estratégia, já que é de estratégia que a sua mente vive, ou não fosse uma das suas paixões a matemática e o raciocínio a que ela obriga. Não é por acaso que os livros de álgebra se amontoam à sua volta. “O que me passou pela cabeça é que o submarino era o último refúgio de defesa do país em caso de crise. Enquanto um submarino estivesse a navegar, nunca haveria uma frota inimiga no mar, o que dava mais tempo de negociação ao Governo.”

Depois da luz verde, procurou voluntários: 56 homens aceitaram a missão de bom grado. O que Gouveia e Melo não aceitou de bom grado foi a festa que lhe fizeram, no regresso, da missão. Tinha preferido chegar sem alaridos, tomar os seus dois duches da praxe para tirar o cheiro a submarino e seguir para casa, onde tomaria o terceiro.

Naquela altura, as mulheres não desciam ao fundo do mar, barreira que foi quebrada por Noemie Freire, em 2019, quando se tornou a primeira submarinista portuguesa. Nessa altura, Gouveia e Melo, que tinha experiência de comandante de navio misto e de navio só de homens, congratulou-se com a novidade.

“Abrir o leque de hipóteses de seleção é muito importante. As mulheres dão um toque diferente às guarnições”, já que lhes reconhece uma sensibilidade que os homens não têm. “A partir de agora passa a ser uma coisa normal”, quando “a normalidade é algo que procuramos”.

A primeira vez que Noemie Freire desceu ao fundo do mar foi na guarnição do NRP Tridente, submarino que se não fosse Gouveia e Melo talvez nunca tivesse feito uma missão ou, se tivesse, poderia ter custado vários milhões ao Estado português.

"[O uniforme] quer dizer que não estou sozinho e sou ajudado pelos três ramos das Forças Armadas, tenho pessoas a trabalhar comigo da Marinha, do Exército e da Força Aérea”. É muito importante passar a mensagem que não é uma única pessoa, mas que são as Forças Armadas que estão a ajudar ao processo. Eu sou, digamos, a ponta do iceberg.”

Quem tramou os alemães do Tridente?

Há 11 anos, em 2010, chega ao Alfeite o NRP Tridente. É o primeiro submarino alemão a chegar a Portugal, depois de uma longa telenovela que teve como protagonistas vários governos e cores políticas, e muitas suspeitas de corrupção pelo meio. O fim seria escrito em 2014, com o Caso dos Submarinos, como ficou conhecido o processo que investigava a alegada corrupção, a ser arquivado. E, sem acusação, ninguém fora a julgamento.

O papel de Gouveia e Melo neste processo foi, como de costume, no terreno. Era comandante da esquadrilha, mas o oficial que devia testar o submarino morreu antes de fazê-lo. Foi no regresso a Portugal, já a bordo do submarino, que sentiu que a torre vibrava. Os alemães garantiam não haver problemas, mas ele prometeu partir-lhes a torre se insistissem em ignorar o problema.

Assim foi, depois de levar a embarcação ao máximo. “Não só o fabricante assumiu a reparação do Tridente como modificou o Arpão, a unidade que viria a seguir, e os submarinos que construíram depois. As alterações custaram milhões de euros aos alemães”, lembrou, numa entrevista recente.

Na altura, a reparação do Tridente sem custos para Portugal foi notícia em todos os jornais. Augusto Santos Silva, então ministro da Defesa, explicava apenas que se tratava de um problema nas placas de revestimento da torre, uma deficiência que não punha em causa a segurança do submarino e da tripulação.

Gouveia e Melo ao comando da fragata NRP Vasco da Gama (direita, 2008). A bordo do NRP Tridente com o capitão tenente Frutuoso, 1° Comandante do submarino, durante uma fase de testes (esquerda, 2009)

José Luis Bolina

Prestige. Gouveia e Melo também ajudou, não foi só Nossa Senhora

Em fevereiro passado, quando Gouveia e Melo substituiu Francisco Ramos na coordenação da task force para a vacinação contra a Covid-19, Paulo Portas lembrava as memórias que tem do vice-almirante, porta-voz da Marinha à data em que Portas era ministro da Defesa.

Apesar de não o ver há muitos anos, no seu comentário televisivo semanal na TVI24, Portas lembrou uma pessoa que teve vários cargos na Marinha, competente, com muita experiência de comunicação e que estaria completamente focada na missão, já que “os militares sabem mandar e obedecer”.

“Conheço-o e posso dar testemunho. Ajudou-me muito a mim e ao chefe do Estado-Maior da Armada numa das provas de stress que tive mais duras na minha vida pública que foi a crise do Prestige. Foi uma pessoa competentíssima”, lembrou Portas.

Em 2002, o petroleiro Prestige, carregado com 77 mil toneladas de combustível, encalhou na costa da Galiza, partiu-se em dois e causou uma maré negra que chegou à costa galega. “Foi uma intervenção de Nossa Senhora de Fátima”, disse na altura Portas, referindo-se ao facto de Portugal ter escapado incólume ao desastre ambiental.

Sobre o papel de Gouveia e Melo não entrou em detalhes, mas deixou-lhe o agradecimento público.

A infância em África, a chegada à metrópole e o avô espírita

“Digo muitas vezes que o meu coração está em África e o cérebro em Portugal.” Foi numa segunda-feira, quando o ano de 1960 se aproximava do fim, que Henrique Eduardo nasceu na cidade portuária de Quelimane. A 21 de novembro, em Moçambique — país onde a quantidade de chuva que cai é o que diferencia as estações do ano — tinha início o tempo húmido e chuvoso, deixando para trás os dias secos. Foi por ali, a 1.600 quilómetros de Maputo, que Henrique Eduardo e o irmão Manuel nasceram e cresceram na capital da província da Zambézia.

O pai era coimbrão, gostava de tocar violino e cantar fado, chegou a ser juiz, e foi para Moçambique convencido pela mulher, de ascendência italiana, onde se dedicou à advocacia. Parte da família já vivia no país africano desde o século XVIII, mas foi a mãe de Gouveia e Melo que, recém-casada, quis levar o marido para o país onde o seu pai era diretor da Companhia Colonial de Navegação.

“Qualquer ser que apareça como salvador da pátria é mau para a Democracia. A Democracia salva-se em conjunto. Não é uma personagem que salva a Democracia. Isso cheira a outra coisa. Eu não quero ser essa pessoa.”

É pelo lado da mãe, que Henrique Eduardo é bisneto de um militar condecorado: o general Viriato Zeferino Passaláqua que, para além de se ter distinguido na carreira militar, foi um pioneiro espírita em Portugal e um dos mais cultos analistas do Velho e do Novo Testamento.

A infância em África, antes de a família se mudar para São Paulo, no Brasil, para fugir a um Portugal onde a democracia ainda não era realidade, foi livre. Nesse tempo, o jovem Henrique ganhou a alcunha de Marlon (como o ator Marlon Brando) devido ao sucesso que tinha entre as raparigas. O truque, dizia aos amigos, era fazê-las rir.

Com o pai a deixar a casa às 7 da manhã e a regressar apenas ao final da tarde, Henrique tinha tempo e espaço para “as brincadeiras típicas do pequeno selvagem”: ia para o mato, fazia vela, andava no lodo do rio. Apesar da liberdade, era focado e estudioso ao ponto de o pai o proibir de passar tanto tempo enterrado nos manuais escolares.

“Desde pequeno que sou muito disciplinado. Fui um estudante preocupado, muito focado nos objetivos que tinha para cumprir.” O objetivo não era ser bom aluno, explicou numa entrevista, mas ultrapassar os desafios que, naquela altura, tinham a forma de testes. “Gostava tanto de aprender que não me preocupava com os pormenores do exercício, queria perceber a dinâmica da coisa. E para perceber essa dinâmica nem tinha tempo para terminar os exercícios todos, o que acabava por me prejudicar em termos de nota.”

Não queria ser como os colegas que repetiam os exercícios vezes sem conta para nunca cometerem um erro e serem máquinas. “Mas depois, se o problema lhes aparecia de um ângulo diferente, já não o conseguiam resolver. Ao longo da minha carreira, isso sempre foi útil.”

Para além de disciplinado, também não bebia, ao contrário dos amigos, hábito que mantém até hoje. O motivo? Perder o autocontrole faz-lhe confusão. A única exceção é nas raras vezes em que acede a fazer um brinde. Tabaco também dispensa, mesmo nas alturas da praxe: quando os submarinos emergem e todos aproveitam para acender um cigarro e matar o vício.

De Moçambique, trouxe consigo a paixão pelo Benfica simplesmente porque Eusébio era do mesmo país que o viu nascer. O que não trouxe foi mágoa pela perda das colónias e pelo facto de a família, que era privilegiada, ter perdido muitas das posses que tinha.

Marinha

Setembro de 2017. Gouveia e Melo, enquanto comandante Naval da Marinha, na cerimónia de entrega do comando da Força Europeia (EUROMARFOR) a Portugal

Jose Sena Goulao/LUSA

“Vivo bem com o processo histórico. Estávamos no sítio errado e no contexto errado. Sou dos últimos portugueses do Império, mas os impérios acabaram. Tenho é saudades do espaço, dos cheiros, do tempo, porque lá havia tempo para tudo”, confessou numa entrevista.

Tudo isso ficou para trás, quando a família regressou à capital portuguesa. Aos 19 anos, o jovem Henrique tomaria a decisão que iria definir o seu percurso profissional até hoje: continuar os estudos na Marinha. Em setembro de 1979 ingressou na Escola Naval como cadete e, em 1984, após terminar o curso na Classe de Marinha, com 23 anos, foi promovido a guarda-marinha, um posto de oficial subalterno.

Com 24 anos, e por vontade própria, integrou a Esquadrilha de Submarinos em 1985, onde navegou nos submarinos NRP Albacora, NRP Barracuda e NRP Delfim. Nos submarinos fez mais de 20.000 horas de imersão, o que equivale a 833 dias debaixo de água — pouco mais de dois anos no total.

O chamamento do mar, onde Portugal é maior do que a Europa

“Tive uma espécie de apelo. Nasci em África, vi o nosso império desfazer-se e voltamos ao canto europeu”, contou, numa entrevista à RTP, sobre o chamamento que sentiu para a vida militar. Na cabeça de Gouveia e Melo cabia-lhe contribuir para Portugal ser grande outra vez, não através da grandeza territorial, nem explorando os povos. “Eu vi o mar como oportunidade. Nós no mar somos gigantescos. O país é pequeno e ultra periférico, mas no mar somos centrais. A marinha para mim era uma coisa óbvia, era ali que eu queria estar.”

Depois de África e do Brasil, de viver nos grandes espaços, sentiu que Portugal era pequeno demais e, por isso, foi o mar que o atraiu. “O mar sob jurisdição portuguesa é do tamanho quase da Europa inteira. No mar não somos pequeninos, não há falta de espaço. Em terra, às vezes, sinto-me acanhado.”

O paradoxo vem a seguir. Como pode, quem se sente acanhado com os pés assentes em terra, sentir-se livre debaixo de água, num submarino onde até as camas são usadas, à vez, por três marinheiros? “Muita gente já me perguntou isso. É um posicionamento psicológico”, explicou numa entrevista à estação de televisão pública.

“Se eu me sentir dentro do submarino sinto-me acanhado. Se eu me sentir o submarino tenho a liberdade não só da extensão do mar, mas de uma terceira dimensão que é a profundidade do mar. Por isso, tenho muito mais liberdade do que estar num navio de superfície em que estou preso à superfície e não consigo sair dali”, detalhou Gouveia e Melo.

O mar, não tem dúvidas, “é o novo El Dorado” e custa-lhe que se passe ao lado dessa oportunidade. “Anda o homem a explorar a Lua quando ainda não explorou um quinto do mar. O nosso mar tem uma importância geopolítica fantástica, as pessoas nem têm noção.” Portugal, defende, tem o mar profundo totalmente por explorar. “Somos um país que, cada vez que se foca em terra, perde força. De cada vez que se foca no mar, ganha força. Eu quis participar de uma coisa que seria estruturante para esse grande projeto que era o mar.”

“Eu vi o mar como oportunidade. Nós no mar somos gigantescos. O país é pequeno e ultra periférico, mas no mar somos centrais. A marinha para mim era uma coisa óbvia, era ali que eu queria estar.”

Nas suas mais de ​32.000 horas de navegação (1.333 dias), a maior parte passada em submarinos, foi autor de algumas façanhas: para além do recorde de 31 dias debaixo de água, realizou o único reabastecimento de combustível a navegar com o submarino em mar aberto (NRP Bérrio, em 1993), comandou dois submarinos em simultâneo (o Barracuda e o Delfim) e foi o primeiro português a passar entre dois submarinos em imersão, dum submarino de salvamento britânico para o Delfim a 110 metros de profundidade. “Isso foi na altura em que um submarino russo, o Kursk, afundou e morreu toda a tripulação”, recordou o vice-almirante numa entrevista. “A partir daí comecei a fazer umas engenhocas e exercícios na esquadrilha para treinar o salvamento dos submarinos caso acontecesse um acidente.”

No fundo do mar, esticou sempre os submarinos como um racer leva o seu carro ao máximo numa autoestrada. Levava muito a sério os exercícios de guerra da NATO e os adversários levavam-no a sério. “Na NATO, ele era temido”, contou o almirante Luís Macieira Fragoso, antigo chefe do Estado-Maior da Armada, ao Expresso. “Um dia embarcámos num porta-aviões americano, e encontrámos um oficial francês que nos disse: ‘Tu é que és o Melo? Então és aquele de quem se dizia: Beware, Melo is at sea… [Cuidado, o Melo está no mar.]’”

“Nisso, sou o mais sanguinário possível”, contou o próprio ao Sol. “Se entra um inglês no exercício, é o primeiro que ataco porque lhes quero tirar o snobismo. Não gosto de snobes. Aos franceses também não perdoo, porque são chauvinistas, e os alemães também não deixo escapar porque tenho família judaica.”

O custo pessoal de ser chamado para a vacinação

Em fevereiro passado, não era o cargo de coordenador da task force que os militares esperavam ver associado ao nome de Gouveia e Melo. O almirante Mendes Calado terminava a 1 de março o seu mandato como chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) e era quase unânime apontar-se o nome do vice-almirante como seu sucessor. Não aconteceu e, agora, dificilmente acontecerá. Pelo caminho, o Governo optou por não apontar outro sucessor e manter Mendes Calado como CEMA por mais dois anos.

Assim foi. A 16 de fevereiro, 13 dias depois de o vice-almirante se tornar o coordenador da vacinação, Marcelo Rebelo de Sousa deu luz verde à decisão de António Costa de manter no cargo o almirante Mendes Calado, tendo tomado decisão idêntica no caso de António Silva Ribeiro, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.

Em 2017, enquanto Comandante Naval, com António Costa, numa vista à Base Naval de Lisboa, no Alfeite

LUSA

A partir daqui é fazer contas, como o vice-almirante tanto gosta, e perceber que a probabilidade de a sua carreira terminar como comandante da Marinha Portuguesa e, consequentemente, como almirante é quase nula. Em novembro deste ano, Gouveia e Melo completa 61 anos e o Estatuto dos Militares das Forças Armadas prevê, para um vice-almirante ou tenente-general, os 62 como idade limite de passagem à reserva. O teto sobe para 65 anos se se tratar de um almirante ou general. Assim, em 2023, quando Mendes Calado abandonar o cargo, já Gouveia e Melo deverá estar na reserva, não podendo ser indicado para CEMA.

Em declarações ao Diário de Notícias, o almirante Melo Gomes, antigo CEMA, mostrou não ter dúvidas sobre a posição que Gouveia e Melo, “uma das melhores cabeças da Marinha”, tomou ao ver-se nesta encruzilhada. Aceitou a “missão patriótica, sabendo que poderá não ter outra oportunidade” de chegar a chefe de Estado Maior da Armada. “Perante o que está em causa, nunca iria colocar o seu interesse pessoal à frente do país, o dever vem sempre primeiro”, argumentou o almirante Melo Gomes. E, numa frase, define o homem que conhece bem: “É respeitado na Marinha por quem não teme competência e odiado pelos que se acomodam às conveniências e aos lugares.”

Desse dia em diante, Gouveia e Melo não voltou a tirar o camuflado já que encara a missão contra a Covid-19 como uma guerra. Por outro lado, é o único uniforme comum aos três ramos das Forças Armadas, o que significa que não está sozinho na missão. “É muito importante passar a mensagem que não é uma única pessoa, mas que são as Forças Armadas que estão a ajudar ao processo. Eu sou, digamos, a ponta do iceberg.”

Ainda que brevemente, pendurou o camuflado para um encontro com o Presidente da República. Talvez por saber que dificilmente virá a conferir posse a Gouveia e Melo como chefe do Estado-Maior da Armada, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou, a 19 de agosto, o vice-almirante pela sua carreira com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis. Gouveia e Melo, que já tinha sido condecorado comendador da mesma ordem, tem muitas outras condecorações acumuladas, inclusive atribuídas pela Marinha Francesa e pela Marinha do Brasil.

Apesar disso, diz não gostar de andar com as medalhas ao peito. Usa somente uma fita com quatro delas. “Nem são as mais importantes na hierarquia das medalhas. Foram as que tiveram mais significado por causa das pessoas que me as deram e que tenho em elevada consideração,” disse numa entrevista ao Expresso.

Marcelo Rebelo de Sousa condecorou, a 19 de agosto, o vice-almirante pela sua carreira com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis

Miguel Figueiredo Lopes/Presidê

O futuro ao mar pertence (ou então, a África)

“De reforço em reforço [de vacinação], tenho emprego para 100 anos.” A frase do vice-almirante foi dita ainda no início do verão, numa entrevista ao Sol. Nessa altura, como já tinha frisado antes, Gouveia e Melo reforçou a ideia de que não estará para sempre à frente da vacinação contra a Covid-19. “O fundamental é deixar escola”, defendeu. Ajudar o Ministério da Saúde a crescer na sua organização interna para depois saber lidar com a situação, explicou o militar. “Nenhum Ministério da Saúde do mundo estava preparado para vacinar a população toda. Agora já estão preparados.”

A data para passar a pasta pode até estar próxima. No final de agosto, o Diário de Notícias dava como certo que esse dia estava iminente e escrevia que o vice-almirante pretende deixar nas mãos de MartaTemido um documento com todas as lições aprendidas, uma espécie de guião onde cabem todos os passos que foram dados, a organização, as prioridades escolhidas e as suas próprias impressões sobre o processo. Na passagem de testemunho, a task force pretende ainda criar um texto na Wikipédia sobre o que foi a missão de vacinar todos os portugueses.

Com mais de 7 milhões de portugueses vacinados — tendo atingido a meta de ter 70% da população inoculada dezoito dias antes da data prevista — Gouveia e Melo deverá voltar a dedicar-se a 100% à vida militar, embora também essa tenha prazo de validade à vista. Nada que tire o sono ao militar. O homem que “se pudesse” morria no mar, de preferência antes de ser velho, já repetiu várias vezes a mesma frase: “ Não estou preocupado com o meu futuro.”

Certo é que está a dois anos de passar à reserva. “Se passar, passei. Costumo dizer que tenho uma doença e estou à espera que me curem da doença. Ou é a idade que me cura a doença ou alguém que me diz que já não precisam de mim. Aí, fico livre. Hei de ir para África fazer alguma coisa”, disse numa entrevista.

Apesar do aspeto rijo, Gouveia e Melo leva escondido no peito um pacemaker, mas que não lhe causa (mais) cabelos brancos. Foi a solução médica necessária cinco anos depois de ter sofrido um choque elétrico fortíssimo numa operação com um helicóptero, depois de pegar num cabo elétrico que tinha falhado a descarga. Não perdeu a consciência, mas ficou temporariamente paralisado. Não só o acidente não o deixou abalado, como chegou a testar a reação do aparelho ao magnetismo da carga elétrica no submarino. Tirou as suas conclusões e enviou-as ao fabricante. “Não tenho a obsessão de morrer velho, de morrer a olhar para o sol e de ver os dias a passar”, disse já, revelando que essa ideia o deixa profundamente deprimido.

Salvar vidas, resiliência do Estado e libertar a economia: as três prioridades de Gouveia e Melo com a campanha de vacinação

Leonardo Negrão/Global Imagens

“Espero que me dê qualquer coisa ainda no vigor da minha idade, é mais fácil, e que seja rápida. Quando a vida me carimbar o passaporte, vou de certeza contente.”

Se tem pouca vontade de acabar os seus dias a ver o pôr-do- sol, terminar a carreira nos corredores do Parlamento ou noutro viveiro de políticos está fora dos seus planos. Disse-o, pelo menos, várias vezes e repetiu-o a 25 de agosto na Guarda, altura em que defendeu que qualquer um que surja como salvador da pátria é mau para a democracia. “Não é uma personagem que salva a democracia, porque isso cheira a outra coisa. Eu não quero ser essa pessoa, quero ser um militar que cumpriu o seu papel quando foi chamado.”

Dos cerca de 10 milhões de residentes em Portugal (10.347.892), 8.889.941 pessoas já tomaram uma dose da vacina e, destas, 8.546.688 concluíram o esquema vacinal, segundo o mais recente relatório de vacinação da Direção-Geral da Saúde.

Quando tomou posse, Gouveia e Melo tinha três objetivos: salvar vidas (a idade passou a ser a regra da vacinação), a resiliência do Estado (implicava vacinar polícias, militares e outros profissionais) e libertar a economia. Com check feito nas três caixinhas, Gouveia e Melo pode seguir para o desafio seguinte. E se os colegas da Marinha tivessem de fazer apostas, punham todo o dinheiro numa nova missão impossível, já que entre eles é essa a reputação que tem: tornar possível o impossível.

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