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O presidente da Comissão Europeia deixa um aviso claro ao Reino Unido antes do arranque das negociações para a saída da União Europeia. “Out means out”. Ou seja, para Jean-Claude Juncker, sair quer mesmo dizer ficar de fora. Em entrevista ao jornal alemão Bild, o responsável reage aos resultados do referendo que deu a vitória ao Brexit.

“Os tratados europeus são claros nesta matéria. O artigo 50 prevê os termos de saída da União Europeia e também aqui não pode haver renegociação. Primeiro trata-se de uma matéria para um divórcio limpo porque os cidadãos e as empresas precisam de certeza legal.” É uma mensagem direta para aqueles que no Reino Unido, em particular no setor financeiro, têm a expectativa de que será possível manter uma relação privilegiada com a União Europeia, em particular ao nível da livre circulação de pessoas, bens e capital.

E será possível existir uma nova parceria com o Reino Unido no futuro? “Todos os 27 estados membros têm de concordar com essa parceria”, responde Juncker. E o Reino Unido teria primeiro de fazer a reflexão interna sobre o que o quer para si. Não se pode escolher só o melhor dos dois mundos.

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E quanto tempo vai demorar a consumar o divórcio? O mais depressa possível. O tratado prevê que uma saída seja concretizada num prazo máximo de dois anos. Mas é preciso desfazer 43 anos de casamento ao nível das leis, o que levanta questões muito específicas e complexas. Há mais de 50 acordos de comércio livre que foram negociados pela União Europeia em nome de todos os estados-membros que também ficam suspenso para o Reino Unido. Mas serão as questões mais importantes:

Qual será o estatuto legal dos milhões de cidadãos da União Europeia que vivem no Reino Unido e dos milhões de britânicos que vivem na União Europeia? Como é que a saída irá afetar os milhares de pensionistas ingleses que vivem em Portugal e Espanha que vão perder o acesso ao sistema de saúde e pensões?

Nesta entrevista ao jornal alemão, Juncker deixa também críticas duras ao ainda primeiro-ministro britânico. Aqui em Bruxelas fizemos tudo para responder às preocupações de David Cameron. “Eu e os meus colaboradores passamos dias e noites a negociar um acordo que fosse justo para o Reino Unido e para os outros 27 estados membros. Fiquei muito surpreendido ao ver que este acordo não teve qualquer intervenção na campanha no Reino Unido. Ao mesmo tempo não é surpreendente”.

“Se uma pessoa se queixa da Europa de segunda a sábado, ninguém vai acreditar nela no domingo quando diz que é uma europeia convicta”.

Juncker considera ainda que ganhar o referendo era uma missão de David Cameron e da não das instâncias europeias.

Apesar de se confessar “profundamente triste” com esta decisão, Jean-Claude Juncker recusa a ideia de que o Brexit é o princípio do fim da União Europeia. “Definitivamente não”. A UE, assinala, tem décadas de experiência em ultrapassar crise e sempre emergiu mais forte depois de as superar. O que é crucial é focar no que a Europa pode fazer pelas pessoas: estimular o investimento, criar empregos e assegurar em conjunto a segurança dos cidadãos.

A “família europeia pode ser tudo menos perfeita, mas é a melhor coisa que temos para juntar os países da Europa todos à volta da mesma mesa e para forçar compromissos de forma a que as pessoas consigam viver em paz, liberdade e prosperidade”.

Ingleses continuam a ser funcionários da união

O presidente da Comissão Europeia escreveu ainda aos funcionários da Comissão, com uma mensagem especial aos colaboradores de nacionalidade britânica a quem prometeu o seu apoio neste processo difícil. Num mail em inglês, francês e alemão, citado pela Antena 1, Juncker lembrou aos colaboradores do Reino Unido que não deixam de ser funcionários da Comissão Europeia por causa da saída do seu país da União Europeia. Pelos estatutos da União, quando entraram como funcionários da UE deixaram os “chapéus nacionais” à porta.