A X Convenção Nacional do Bloco de Esquerda terminou como começou: com a Europa. Durante dois dias, vários militantes bloquistas subiram ao palco para dizer que é preciso travar uma batalha contra os “tecnocratas” da União Europeia, que têm alimentado a Europa da “chantagem da finança”, do “racismo e do xenofobismo”. O Observador decidiu assinalar o conclave bloquista com a primeira edição — e muito provavelmente a única — dos prémios “Louçãs de Ouro”. Para classificar tudo o que de importante se viu este fim de semana. Consegue imaginar quem venceu na categoria de “Melhor Vilão”?

A Bloquista do Ano — Catarina Martins

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É inevitável. Só Catarina Martins pode merecer o galardão máximo: o Louçã de Ouro mais importante é este. A coordenadora do Bloco teve a ingrata tarefa de suceder a Francisco Louçã (não o de ouro, mas o que deixou o partido numa situação complicada), sobreviveu às sucessivas derrotas eleitorais, enfrentou a oposição interna e ousou desafiar António Costa a derrubar o muro que dividia a esquerda portuguesa. E, contra todas as expectativas, venceu.

O Bloco de Esquerda é hoje um partido unido em torno de uma estratégia centrada na devolução de rendimentos e direitos sociais. A grande parte dos bloquistas reconhece o papel indispensável de Catarina Martins no sucesso dessa solução. A coordenadora do partido sabe que a sua liderança saiu reforçada e esta Convenção serviu de consagração de uma líder que desbloqueou o Bloco.

Galardão Autocrítica — Pedro Filipe Soares

Jornadas Parlamentares do Bloco de Esquerda

Pedro Filipe Soares, líder da bancada parlamentar do Bloco de Esquerda, foi responsável uma dura disputa pela liderança do partido, depois de ter desafiado Catarina Martins e João Semedo em 2014. Uma das críticas que a ala que apoiava Pedro Filipe Soares apontava à dupla de coordenadores era, precisamente, a tentativa de aproximação ao PS.

A luta foi de tal forma renhida que as duas correntes acabaram tecnicamente empatas, o que obrigou à criação de uma comissão permanente composta por seis cabeças, em que todas as sensibilidades do partido eram representadas.

Dois anos volvidos, a situação interna do Bloco é muito diferente. Prova disso é que Pedro Filipe Soares, antigo challenger de Catarina Martins, subscreveu a moção da coordenadora do partido. Com os machados de guerra enterrados, Pedro Filipe Soares foi à Convenção do Bloco elogiar a ‘solução geringonça’ e apontar para o futuro. “O Bloco quer ser a força mais forte do Governo de Portugal”.

O Melhor Vilão — A União Europeia

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Podia ser qualquer um. Angela Merkel ou François Hollande. Juncker, Draghi ou Dijsselbloem. Até podia ser Durão Barroso. Por isso, o mais justo mesmo é serem todos premiados com o galardão de Melhor Vilão da X Convenção Nacional do Bloco de Esquerda. A falência do projeto europeu esteve no centro de quase todos os discursos destes dois dias.

A grande dúvida é perceber o que fará o Bloco de Esquerda. Catarina Martins definiu o tom, reforçando o que já antes tinham dito José Manuel Pureza, Mariana Mortágua ou Marisa Matias. O combate do Bloco (e do país) deve ser travado dentro da União, com os restantes parceiros europeus, mas também fora, através de uma convergência alargada entre partidos e movimentos de esquerda da Europa, numa “Assembleia Europeia das Alternativas”. “O Bloco de Esquerda é e será europeísta”, garantiu a coordenadora, no discurso de encerramento da Convenção.

Mas as regras do jogo podem mudar a qualquer momento. Permanência no euro? Sim — hoje. Amanhã, tudo poderá ser diferente. Se a Comissão Europeia decidir aplicar sanções a Portugal, é uma declaração de “guerra aberta” e o Bloco não claudicará, assegurou Catarina Martins. Nesse caso, será preciso convocar um “referendo para tomar posição contra a chantagem” da União Europeia. Os próximos episódios ditarão a evolução do Bloco de partido euro-entusiasta a eurofóbico.

Pior filme estrangeiro – Syriza

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Foi um dos momentos curiosos da X Convenção do Bloco. Quando foi anunciado o nome do outrora considerado “partido-irmão” e farol da esquerda, como um dos convidados internacionais presentes no conclave bloquista, ouviram-se expressivos “buuuuuss”.

É um sinal dos tempos. Os bloquistas vibraram com a vitória do Syriza, na Grécia. Acreditaram que começava ali, no Mediterrâneo, a mudança que a Europa precisava. Celebraram os puxões de orelhas de Tsipras e Varoufakis a Merkel, Schäuble & Companhia. E até o resultado no referendo grego às medidas de austeridade exigidas por Bruxelas parecia ser o sinal de que os povos do sul da Europa precisavam para reclamar a soberania.

Mas, depois, Alexis Tsipras cedeu e decidiu aplicar um duro programa de austeridade. Preferiu ficar no euro à incerteza de sair. O Bloco faria diferente, se fosse Governo, garantem os bloquistas. Os apupos que se ouviram este domingo e as declarações de vários dirigentes bloquistas contra o “euro-romantismo” do Governo grego são prova de que o Bloco não se revê neste Syriza.

A Ovelha Negra — Luís Fazenda

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Calma, não é exatamente um insulto para os bloquistas. O simpático ruminante tresmalhado era e é um símbolo partido desde os tempos do PSR, que haveria de estar na génese do Bloco. Nesta Convenção, de resto, havia camisolas com a ovelha negra em destaque, à venda na banca ao pé do bar. Significava que não iam com o rebanho, nem se confundiam com as maiorias do mainstream.

Desta vez coube a Luís Fazenda vestir, metaforicamente, a camisola. Ganha o Louçã de Ouro para a Ovelha Negra, porque, num momento em que o partido celebra as conquistas que conseguiu por estar, pela primeira vez, no centro das decisões políticas, foi o fundador do partido a lembrar que este não é o Governo do Bloco.

“Sim, estamos numa maioria parlamentar, mas estamos a preparar uma alternativa. Nós não fazemos parte de uma coligação governativa, quem foi defender uma coligação governativa com o PS nas últimas eleições vaporizou-se. [Este não é] o Governo de esquerda que queremos. Queremos ir muito mais longe”. Palavra de fundador.

Melhor Participação Especial — Miguel Urbán

X Convenção Nacional do Bloco de Esquerda

Prémio Louçã de Ouro mais do que merecido. O dirigente do Podemos e eurodeputado espanhol subiu ao púlpito e incendiou uma sala de congresso algo adormecida. Foi o melhor discurso dos dois dias.

A menos de 24 horas das eleições espanholas — Urbán interveio no sábado –, o dirigente do Podemos pôs os bloquistas a aplaudir de pé e a gritar “Si se puede”, com o punho esquerdo em riste.

Com uma mensagem voltada para a necessidade de a esquerda se unir contra “a chantagem europeia”, Urbán entusiasmou os bloquistas: “Vim buscar amigos e amigas para mudar a Europa. Se no dia 26 ganharmos as eleições, vocês também as ganharam. A partir de domingo, não será mais uma luta de David contra Golias”. Acabou ovacionado.

Utopia Romântica Radical — A oposição interna

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Ao contrário do que aconteceu em 2014 quando o Bloco de Esquerda estava divido em duas grandes correntes que disputaram o poder, desta vez foi diferente. Catarina Martins conseguiu unir o partido e a oposição que existe é minoritária.

Minoritária, mas não silenciosa. Longe disso. Os representantes das duas moções ‘B’ e ‘R’ fizeram questão de subir ao palco para criticar o rumo escolhido pela atual liderança. Exigiram mais democracia interna, criticaram a direção por faltar à discussão, pediram mais trabalho junto das bases e uma rutura imediata com esta Europa.

Seria Carlos Carujo, da “Moção R – Crescer pela Raiz” — que se assumiu como “romântico” e orgulhosamente “radical” — a elevar o tom das críticas. Para o bloquista, esta foi “uma convenção-comício” refém “de um debate-silêncio”. “Faltou coragem” para discutir o Orçamento do Estado, o plano para as autárquicas, um referendo interno a uma eventual rutura do acordo com o PS ou como desobedecer à Europa. As moções minoritárias — “R” e “B” — acabaram por receber apenas 58 e 32 votos respetivamente. Bem menos do que os 444 votos da moção “A”, da atual liderança. Mas Catarina Martins teve de ouvir as críticas.

Figurante da Convenção — António Costa

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No filme que Catarina Martins levou à reunião magna do Bloco de Esquerda António Costa foi personagem secundária. O Louçã de Ouro para o primeiro-ministro, que se fartou de elogiar os parceiros no Congresso do PS, mas nada ouviu em troca, é inteiramente merecido. Catarina Martins olhou pelo retrovisor e lembrou as conquistas alcançadas nestes primeiros meses como se fossem exclusivamente suas.

Prometeu mais no discurso de abertura. E até anunciou medidas — aprovação da lei da renda apoiada e o fim das apresentações quinzenais periódicas nos centros de emprego — como se fosse ela a chefe da “geringonça”.

Melhor argumento trotskista — Jerónimo de Sousa

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Se António Costa foi votado a papel de figurante, Jerónimo de Sousa ainda teve menor destaque. Vai para ele o “Louçã de Ouro” para o Melhor Argumento Trotskista. Na banca que vendia livros à entrada da convenção, havia resquícios do passado em que a guerra entre comunistas e trotskistas era mais do que uma luta de fações. Havia várias obras de Leon Trotsky, a baixo preço, como por exemplo “A Revolução Desfigurada: A Falsificação Estalinista da História”. Este nunca estaria numa banca de um congresso, por exemplo, do Partido Comunista.

No Bloco, onde convergem os antigos trotskistas, não houve uma palavra para os antigos estalinistas. É verdade que Estaline mandou matar Trotsky, mas seria demais dizer que foi por isso que os comunistas foram ignorados. A coordenadora do Bloco só mencionou Jerónimo para citar a “graça” sobre as autárquicas: “Não há pacto nem agressão”. As razões para ignorar os comunistas são mais prosaicas do que as velhas lutas e têm a ver com a disputa do eleitorado. Quando Catarina Martins puxou dos galões e assumiu a responsabilidade plena das conquistas alcançadas pela “geringonça” nem mencionou o papel que o PCP também teve nas negociações. Apagou os comunistas da fotografia, à boa maneira estalinista. No fundo, o Bloco antecipa-se ao PCP e marca o terreno aos comunistas, que só em dezembro terão o seu Congresso. Trotsky que vai à frente…

Prémio Carreira — Francisco Louçã

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O verdadeiro Francisco Louçã também merece um “Louçã de Ouro” para o seu percurso político que começou antes do 25 de abril com a crise da Capela do Rato e que culmina agora com a posição de conselheiro de Estado. Uma institucionalização inimaginável quando era dirigente da LCI – Liga Comunista Internacionalista, ou quando liderava o PSR. Em 2011, quando o catedrático de Economia decidiu rejeitar o convite para reunir com a troika, estaria longe de imaginar que aquele momento seria o princípio da derrocada eleitoral do Bloco de Esquerda. Um ano depois, em 2012, o fundador deixava um Bloco reduzido a oito deputados.

Ao fazê-lo, provocou uma crise de sucessão sem precedentes, exponenciada pelo modelo encontrado — uma coordenação bicéfala proposta pelo próprio. Parecia ser o fim da linha para o Bloco de Esquerda. O resultado nas eleições legislativas provou que as notícias sobre a morte do Bloco de Esquerda eram exageradas. E Louçã não conseguiu esconder o “orgulho”, disse na convenção.

Orgulho de tudo, desde o facto de o BE ser “o único partido que tem as contas limpas no TC”, ao facto de Catarina Martins ter “protagonizado a maior transformação da relação de forças políticas em Portugal dos últimos 40 anos”. Ou orgulho de ver “Marisa Matias brilhar na campanha presidencial”, ou ainda de ver Pedro Filipe Soares dizer “o que todos queremos que seja dito sobre a Caixa Geral de Depósito pública”. Orgulho de um pai que o viu o filho crescer e sobreviver sem ele.