Uma cidade a ferro e fogo pela segunda noite consecutiva. Nas últimas 48 horas, pelo menos seis pessoas ficaram feridas e outras 17 foram detidas, em resultado de confrontos entre manifestantes e autoridades. As ruas da cidade norte-americana de Milwaukee, no estado do Winsconsin, parecem um verdadeiro cenário de guerra, com relatos de carros da polícia incendiados e destruídos. O estado de emergência já foi declarado e os militares da guarda nacional já foram chamados ao local.

Os protestos irromperam depois de, no sábado, a polícia norte-americana ter atingido mortalmente Sylville Smith, um jovem afro-americano de 23 anos. Sylville Smith seguia de carro, com outro suspeito, quando foi mandado parar por dois agentes da polícia. Evidenciava um “comportamento invulgar”, justificaram as autoridades do Milwaukee. Quando os dois agentes procuravam interrogar os suspeitos, estes puseram-se em fuga, a pé.

“Durante a perseguição, um dos polícias atirou contra um suspeito [Smith] armado com uma pistola semiautomática”, que morreu no local, informou a polícia de Milwaukee. O jovem tinha cadastro e a arma que tinha consigo seria fruto de um assalto ocorrido em março.

A morte de Smith foi o rastilho que acendeu os protestos. Num momento em que os Estados Unidos tentam lidar com vários episódios de violência policial dirigida, sobretudo, contra jovens afro-americanos, este é mais um caso a chocar o país.

Numa conferência de imprensa conjunta com o mayor de Milwaukee, Tom Barrett, o chefe da polícia de local, Edward Flynn, garantiu existir um vídeo, ainda não divulgado, do incidente que provocou a morte do jovem de 23 anos. De acordo com Flynn, o agente da polícia que efetuou o disparo também é afro-americano e terá agido dentro da lei. Mas as investigações continuam. E os confrontos também.

Depois de uma noite de domingo marcada por vários momentos de tensão, a madrugada de segunda-feira não foi diferente. Um agente de segurança acabou por ser hospitalizado depois de uma pedra ter partido o vidro do carro de polícia onde seguia. Outro carro ficou destruído depois de os manifestantes atingirem o veículo com tijolos, pedras e garrafas, como relata a agência Reuters. Há relatos de confrontos envolvendo mais de duas centenas de manifestantes e 20 agentes da polícia de intervenção. Pelo menos uma bomba de gasolina e várias pequenas lojas ficaram destruídas pelas chamas.

Foram ainda feitas várias detenções, numa situação descrita como sem precedentes por Tom Barrett. “Espero nunca mais ver uma coisa assim”, desabafou o presidente da Câmara de Milwaukee. Apesar de se sucederem os apelos e as vigílias pela paz, continuam a ouvir-se disparos nas ruas da cidade. As próximas 24 horas podem ser decisivas.

Durante vários anos, a cidade de Milwaukee foi considerada uma das mais perigosas dos Estados Unidos. Em 2015, um estado da universidade da UCLA apontava a cidade como uma das piores para a comunidade afro-americana — por causa dos baixos níveis de educação, altas taxas de encarceração e de segregação –que representa 40% de toda a população.