Falta um ano para as eleições autárquicas mas os dados já estão lançados. Assunção Cristas está a ser catapultada para mostrar, em Lisboa, quanto vale nas urnas, e poderá mesmo avançar ainda que sem o apoio do PSD. A bitola, nesse caso, é ter um bom resultado, não necessariamente ganhar. O caso só muda de figura se Pedro Santana Lopes avançar apoiado pelo PSD: se assim for, a líder do CDS poderá ter de reavaliar as circunstâncias e desistir de uma candidatura própria em prol de outra mais ganhadora à direita.

O problema são os calendários dos dois partidos, que estão desencontrados. Se o timing de Santana Lopes se estender, no limite, até março — conforme ficou definido no último Conselho Nacional do PSD — Assunção Cristas não poderá dar-se ao luxo de esperar tanto. “Não pode fazer campanha apenas seis meses”, diz ao Observador o deputado Manuel Isaac, dirigente e vogal da comissão executiva de Cristas. Nesse caso, no CDS não se descarta a hipótese de Cristas avançar e recuar depois se estiverem reunidas as condições para a direita derrotar o PS em Lisboa. “Não seria inédito”, acrescenta o dirigente próximo de Assunção Cristas.

Com o PSD a fazer pressão sobre Santana e com Passos Coelho a deitar água na fervura pedindo aos “ansiosos” para “respirarem fundo”, é o CDS quem mais goza o prato. Dos dois partidos da direita, o CDS é para já o único que assume ter um nome forte, uma vez que se Santana optar por não avançar o PSD parece ficar órfão em Lisboa. Nas hostes centristas corre a teoria de que nesta fase da discussão a líder do partido já não tem margem para não dar o corpo às balas na capital, sobretudo num momento em que a ordem é para avançarem os melhores nas várias autarquias.

Ainda assim, todos dizem que ainda não é altura de decisões. O CDS reúne esta quinta-feira à noite a comissão política nacional, órgão intermédio de decisão, sendo que um dos pontos da agenda é precisamente a “preparação para as autárquicas”. Ao que o Observador apurou, contudo, não é desta que sai qualquer decisão sobre os candidatos a Lisboa. O objetivo é fazer o balanço das câmaras que o CDS considera possível de conquistar, assim como os nomes que já estão certos ou os concelhos onde há ou não há coligação com o PSD. O próximo momento-chave do partido é o discurso de Assunção, no sábado, em Oliveira do Bairro, que tem o simbolismo particular de ser uma das câmaras que os centristas ambicionam conquistar, depois de terem perdido por pouco nas últimas eleições. Cristas poderá usar esse palco para levantar um bocadinho mais a ponta do véu.

Para já, contudo, a ordem é para não especular. Primeiro, as atenções de Assunção Cristas têm de estar concentradas na regionais do mês que vem nos Açores, que são o primeiro teste eleitoral do CDS pós-Portas. Depois há a rentrée no Parlamento e o Orçamento do Estado e só depois o partido se focará a 100% nas autárquicas. Certo é que o dossiê não pode arrastar-se muito para lá de final de outubro, para dar tempo aos candidatos de terem um ano para fazer campanha.

A variável Santana condiciona tudo

“O que ficou decidido no congresso, em março, é que vamos ter candidaturas próprias, fortes e mobilizadoras” nas principais câmaras do país, repete ao Observador o vice-presidente do CDS Adolfo Mesquita Nunes, lembrando que os tabus que há hoje, particularmente em torno da hipótese Santana, já havia na altura em que a decisão sobre autárquicas foi tomada. Ou seja, uma coisa não dependerá da outra.

A candidatura própria, forte e mobilizadora ainda não tem nome mas Assunção Cristas é a primeira a manter-se no jogo, fundamentada pelos estudos de popularidade internos que têm sido feitos e que dão força ao seu nome em Lisboa. Em entrevista à revista Sábado, há duas semanas, deixava claro que uma vez tomada a decisão não haverá marcha-atrás: “Se houver uma decisão do CDS no sentido de eu ser candidata, posso garantir que ficarei até ao fim”, disse na altura.

Entre os centristas, que ainda se lembram do fraco resultado que Paulo Portas teve na corrida à capital em 2001, a popularidade de Cristas é vista como uma mais-valia: é a única capaz de fazer uma “campanha dos afetos” verdadeiramente ao nível da campanha que elegeu Marcelo Rebelo de Sousa. “É possível um bom resultado mesmo sem o apoio do PSD”, defende Manuel Isaac, admitindo que sem o apoio do PSD a candidata centrista pode não ganhar, mas nesse caso a bitola não será a vitória. “Se tiver uma boa votação isso legitima-a dentro e fora do partido”, afirma, lembrando que a recém-eleita líder do CDS precisa de ganhar essa força extra nas urnas.

Ou seja, Cristas deverá avançar com ou sem apoio do PSD. Aqui, a responsabilidade é mais imputada ao partido de Passos Coelho, que não pode ser “orgulhoso” ao ponto de não apoiar Assunção Cristas se não tiver um nome forte laranja para a troca. Se tiver, ou seja, se o provedor da Santa Casa da Misericórdia avançar, então aí há quem considere no partido que Cristas deve “reunir o partido e reavaliar a situação”. Porque essa sim poderá ser uma candidatura ganhadora, capaz de derrotar Fernando Medina, que leva uma vantagem de meio mandato.

Os contactos entre Paulo Portas e Passos Coelho — avançados pelo Expresso — no sentido de o ex-líder centrista pedir o apoio do PSD para a candidatura de Cristas não foram desmentidos. Entre as distritais, o vereador do CDS em Lisboa, João Gonçalves Pereira, confirma que “tem havido contactos regulares diretos entre as duas distritais [do PSD e CDS] no sentido de identificar os concelhos onde há vontade para um projeto comum”, pondo Lisboa neste mesmo saco.

Mas, como disse Marques Mendes, os sociais-democratas tendem a ver como “suicídio” a hipótese de abdicarem de um candidato próprio em Lisboa. Daí que a hipótese Santana ganhe cada vez mais força. Resta saber até quando o provedor da Santa Casa se manterá “cool”. Esta quarta-feira, aos jornalistas, Passos Coelho deixou claro que os candidatos às principais autarquias não serão conhecidos antes do final do ano e remeteu para o calendário definido no último Conselho Nacional: nenhuma candidatura será anunciada antes de meados de outubro e nunca depois de 31 de março do próximo ano. Um calendário muito diferente do do CDS.

É que se Santana pode esperar, porque não precisa de fazer campanha durante tanto tempo, Cristas não pode ficar parada.