É uma história idêntica a tantas outras. Nascer-se judeu. Ter de fugir da Alemanha (ou da Polónia, ou da Áustria) ou arriscar morrer às mãos do nazismo. Ludwig Guttmann era médico. Mas não um médico como tantos outros. Era o mais importante neurocirurgião alemão do seu tempo. Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, não só foi impedido de exercer a profissão — podia apenas fazê-lo no hospital judeu de Breslau –, como soube que o pai morrera num campo de concentração, sucumbindo à fome; a irmã também foi morta, mas numa câmara de gás.

Guttmann fugiu. Pediu asilo — para ele, a mulher e os dois filhos — ao Reino Unido. E teve-o. Estávamos em 1939.

A II Guerra Mundial eclodira. E com ela amontoavam-se nos hospitais os soldados britânicos feridos em combate. Em Oxford, o médico Ludwig Guttmann estudava, tal como o fizera na Alemanha, sobre lesões na coluna vertebral. E Winston Churchill pediu-lhe, também por isso, que criasse em 1944 no hospital de Stoke Mandeville, a noroeste de Londres, um departamento para cuidar os soldados que sofreram esse tipo de lesões. Guttmann aceitou o repto de Churchill.

Mas o médico sabia que os feridos que entrassem em Stoke Mandeville não teriam mais do que uma brevíssima passagem pelo hospital. A esperança média de vida para uma lesão na coluna vertebral era inferior a dois anos — isto na década de 1940. Mas Guttmann também sabia que podia fazer algo por eles, soldados. Ou melhor: o desporto podia.

E foi isso que confidenciou, anos depois, à BBC: “Nós começamos com veteranos de guerra. Primeiro, estes praticavam desportos simples, como dardos, bilhar ou bowling. E foi aí que percebi que os pacientes apresentavam melhorias, não só fisicamente, como também psicologicamente.”

Ludwig Guttmann (à esquerda) e o atleta Eric Russell nos Jogos Paralímpicos Toronto1976 (Créditos: Wikimedia Commons)

Ludwig Guttmann (à esquerda) e o atleta Eric Russell nos Jogos Paralímpicos Toronto1976 (Créditos: Wikimedia Commons)

Em Stoke Mandeville, o desporto passou a fazer parte do tratamento às lesões na coluna vertebral. E acabaria por dar origem aos primeiros Jogos Paralímpicos da história. Estes aconteceram em 1948, precisamente em Stoke Mandeville, e tiveram Guttmann como organizador. Então, 16 atletas participaram. O desporto era só um: tiro com arco. Hoje, no Rio de Janeiro, são mais de 4.000 os atletas.