Só as propostas primavera/verão 2017 da 39ª edição do Portugal Fashion é que conseguiram aquecer o Pavilhão de Portugal esta quarta-feira. Sob o aviso de céu nublado e aguaceiros, com períodos de granizo, os desfiles arrancaram a partir das 18h30, em Lisboa, com vista privilegiada para o rio Tejo e não para o Douro — como já nos habituou a passerelle que se estende na Alfândega do Porto. Os termómetros registaram uma ligeira subida de temperatura assim que a mulher Storytailors, da dupla Luís Sanchez e João Branco, pisou o edifício projetado por Álvaro Siza Vieira.

Com a pele bronzeada, cabelo apanhado e vestido colorido, a coleção “O Monte das Pretas” conta-nos a história de uma casa de campo no Alentejo onde habita um ser humano que oscila ao longo da vida entre ser homem e ser mulher. “As próprias calças das mulheres podem ser usadas pelos homens e vice-versa porque a modelagem foi trabalhada nesse sentido”, explica Luís Sanchez ao Observador.

Mas atenção: nós adoramos a diferença morfológica entre o corpo feminino e masculino e achamos que, em certas peças, faz todo o sentido que seja respeitada e enaltecida.”

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Marianne Bittencourt abriu o desfile de Storytailors com a paleta de cores da coleção: vermelho, rosa, amarelo e cinza. (foto: Ugo Camera/Portugal Fashion)

A prova disso esvoaçou com a brisa fria da sala cheia: corpetes de cortiça, plissados sem costas e casacos cintados. Já os cortes ramificados a laser obedecem à temática das árvores e raízes, enquanto os padrões lembram a madeira, as flores e os fungos em tons de vermelho, amarelo e cinza.

Depois do aquecimento de Storytailors, Pedro Pedro desfez as malas da Semana de Moda de Milão e apresentou as suas propostas para a estação mais quente do ano na capital. Para além das peças com acabamentos esfarrapados, formas oversized e tricotados fluidos, ainda entrou “uma ou outra peça nova”. Pelo mesmo caminho seguiu Alexandra Moura que, regressada da London Fashion Week, recebeu um forte aplauso ao qual respondeu com uma vénia.

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A coleção de Pedro Pedro acabou de chegar da Semana de Moda de Milão depois do criador se estrear a nível internacional. (foto: Michael Matias/Observador)

Da nova Hibu à Alfândega do Porto

A grande estreia do primeiro dia foi o desfile de Hibu depois de, em abril de 2016, Gonçalo Páscoa deixar a marca apenas a cargo de Marta Gonçalves. “As prioridades do Gonçalo mudaram e ele procurou outros projetos”, confessa ao Observador. E engane-se quem pense que Gonçalo Páscoa deixou de fazer parte da família Hibu: o ex-criador anda de um lado para o outro nos bastidores a vestir modelos, calçar sapatos e a ajudar nos últimos pormenores.

A saída dele está relacionada com o cansaço de batalhar sem receber muito retorno. É bastante cansativo estar constantemente a criar coleções que a nível comercial não resultam tão bem.”

E foi aí que Marta Gonçalves se viu na antiga paragem Route 66, na cidade fantasma Amboy, confrontada com o desconhecido e a solidão. “Estando, pela primeira vez, sozinha a desenvolver uma coleção senti um vazio imenso tal como este deserto escondido entre crateras vulcânicas e salinas”, partilha. Daí se explica facilmente as cores da coleção: o bege do deserto, o azul do céu limpo e o preto das crateras. Seguiu-se o renascimento, em tons de vermelho, que simbolizam a força adquirida durante toda a adaptação.

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O bege do deserto, o azul do céu e o negro das crateras são as cores que dominam a coleção “Amboy” de Marta Gonçalves, Hibu. (foto: Ugo Camera/Portugal Fashion)

Já a dupla Alves/Gonçalves — talvez os mais decanos da moda portuguesa — continua intacta ainda que José Manuel Gonçalves se recuse a dar declarações à imprensa. “Falo eu”, diz Manuel Alves com entusiasmo. “A camisa, um clássico do guarda-roupa, foi a inspiração de toda a coleção e o ponto de partida para criarmos novas peças no vestuário feminino”, explica. “A camisa tem uma construção muito simples e, a partir daí, acoplámos essa simplicidade e construímos um vestuário moderno”. As rendas, redes, sedas e algodões — ora em preto, ora em padrões — convivem com metálicos e botas de cano alto.

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Maria Clara desfilou com uma camisa comprida de corte retro e mangas largas em Alves/Gonçalves. (foto: Ugo Camera/Portugal Fashion)

O Portugal Fashion ruma agora à Invicta, entre 13 e 15 de outubro, com desfiles no Palácio dos CTT, Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões e Alfândega do Porto. Pela primeira vez, a plataforma Bloom (dedicada ao trabalho de jovens criadores) ganha um calendário próprio onde, a 13 de outubro, o dia de desfiles é aberto ao público. Só nos dias 14 e 15 de outubro é que só chegarão os convidados de Katty Xiomara, Carlos Gil e Luís Buchinho — recém-chegados da Semana de Moda de Nova Iorque, Milão e Paris. Nesses mesmos dias, o calendário oficial receberá ainda o showroom Brand Up, a apresentação da nova linha desportiva de Miguel Vieira e a primeira coleção de homem de Luís Onofre.