Jack

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Já lá vai o tempo da troca de bilhetinhos, de postais ou cartas que faziam uma conversa demorar dias, semanas ou meses. Hoje é fácil ficar ansioso quando alguém demora mais que minutos a responder a uma mensagem.

Uma empresa belga criou uma aplicação de troca de mensagens que promete “redescobrir o prazer de esperar.” Só a frase chega para chamar a atenção.

Michel Tombroff, o diretor executivo da startup belga, explicou-nos que esta “é uma aplicação de troca de mensagens que combina a notificação instantânea com a gratificação retardada.” Como assim? Quando lhe pergunto “qual é o propósito”, Tombroff atira: “Repara no teu sorriso, já percebeste qual é!”.

E sim, é facílimo de entender. Imagine que entra no seu smartphone uma mensagem do(a) namorado(a) ou de um amigo. Recebe uma notificação imediata, mas com a indicação que só a vai conseguir ler daqui a minutos, a uma hora, um dia, semana, mês ou ano. Como? Esperar UMA HORA para poder ler a mensagem? E, pior: quem envia a mensagem pode acrescentar um “teaser”, uma palavra, símbolo ou linha breve, uma pista para apimentar o conteúdo da dita, que pode ser um texto, fotografia ou vídeo. Ao ritmo dos dias de hoje, isto pode bem ser uma carrada de nervos.

O CEO da empresa defende que o grande segredo do (da) Jack é a capacidade de estimular a curiosidade e os sentimentos associados à antecipação. A frustração é uma delas, e das mais poderosas. “A comunicação instantânea tornou-se tão ubíqua que já não tem emoção”, explicou-nos. Com o Jack, é preciso parar e pensar.

Esta aplicação é gratuita para todos os utilizadores, funciona em Android e iOS. A startup sediada em Bruxelas afirma que as marcas estão sequiosas de meter a mão no (na?) Jack. “Imagina que recebes uma mensagem da tua marca de roupa preferida que só vais poder ver daqui a umas horas ou um dia. Já imaginaste a curiosidade e expectativa que isto vai criar em ti?”. À frase de Michel Tombroff acrescentamos um estrangeirismo na moda: engagement (envolvimento). Eu fiquei engajado, só de pensar na ideia.

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Exemplo de uma mensagem que me foi enviada. Vou ter de esperar…

Desabafa!

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Olho para esta ideia e apetece-me aventar palavrões. Só porque sim, pelo valor libertador que têm, pelo bem que faz deitar as más energias para fora. A maioria de nós não o faz por pressão e para manter o suposto bem social, o que acaba por justificar o elevado investimento em drogas anti-repressão e idas aos especialistas dos assuntos da cabeça. E, por sorte ou azar, todos temos uma.

Ruy Góes, psicólogo e ex-engenheiro informático, explicou-nos que a ideia veio da sua experiência clínica, 16 anos na pesquisa e estudo do stress. Ruy percebeu que a maioria das pessoas “não precisam de um terapeuta para fazer aquilo que a maioria faz quando consulta um” e que é, simplesmente, falar, desabafar.

Esta app, só por si, não é uma plataforma de “conselhos”, embora o fundador da startup brasileira considere que, “como a rede é livre, todo o mundo te dá conselho.” Mas o propósito não é arranjar uma solução para cada problema pessoal, mas sim “desabafar sobre o seu problema porque isso, clinicamente, terapeuticamente, é mais do que suficiente para você [conseguir] avançar.”

O anonimato é, não só essencial, como um requisito básico. Ninguém sabe quem está do outro lado, nem interessa, o que é preciso é saber que alguém nos ouve e partilha connosco os problemas, preocupações ou ansiedades. Um amigo, portanto.

O Desabafa! não é apenas um poço sem fundo para os nossos maiores terrores, funciona também como uma espécie de jogo onde se ganham pontos sempre que se ajuda alguém e se perde com cada desabafo. Reforço positivo, portanto.

Cada mensagem dura apenas 24 horas, isto porque os desabafos andam sempre mais ou menos à volta do mesmo: um amor não correspondido, um parceiro que trai ou que perdeu o interesse, um chefe irritante ou um colega que nos esgota a paciência. Os problemas deste (primeiro) mundo que usa o smartphone como extensão dos dedos e da alma andam todos à volta do mesmo.

Os nossos desabafos são agrupados por grupos ou tags (etiquetas) para permitir treinar um bot (um algoritmo informático) que, para já, ainda não serve para nada. Ruy Góes contou-nos que, no futuro, esta máquina deverá ser capaz de conversar com o utilizador e, acrescento eu, ajudar a reunir informação para alimentar uma base de dados que tem tudo para não parar de crescer.

A aplicação foi lançada há oito meses, está disponível no Brasil e também em Portugal (onde ainda não foi apresentada), já soma 100 mil utilizadores e milhares de desabafos por dia, que totalizam 160 mil registos “que dão uma boa ideia do perfil dos problemas que afetam essas pessoas”, disse-nos o CEO da empresa sediada em Juiz de Fora – Minas Gerais, Brasil. Parece a gozar, não é?

A aplicação é gratuita e está disponível para Android e iOS; o valor desta base de dados, anónima e absolutamente espontânea, constitui o foco do modelo de negócio. A desgraça alheia às vezes dá lucro, mas neste caso, todos ganham, #+&$-%^!

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