O curto regresso político de Nicolas Sarkozy acabou mesmo antes de começar, já que ficou em terceiro lugar nas eleições primárias da direita francesa. O ex-presidente foi batido por dois antigos primeiros-ministros — François Fillon, que somou mais de 44% dos votos, e Alain Juppé, que ficou com 28,4%. Os dois seguem agora para a segunda volta, e o vencedor tem tudo para ser o novo presidente de França… se ganhar à candidata da extrema-direita, Marine Le Pen — há mesmo sondagens que dão a vitória à Frente Nacional em alguns cenários. Mas quem são, afinal, François Fillon e Alain Juppé?

François Fillon. O “colaborador” que se vingou do “patrão”

Não é o primeiro nome de que nos lembramos quando falamos de política francesa, mas a verdade é que François Fillon fez parte de todos os governos de direita entre 1993 e 2005, passando por ministérios como o ensino superior, a segurança social ou as comunicações. Em 2007, foi nomeado primeiro-ministro pelo então presidente, Nicolas Sarkozy. O cargo de primeiro-ministro francês é relativamente discreto em termos de política internacional e até nacional, e Fillon não se escapou, na altura, às palavras humilhantes de Sarkozy: “O primeiro-ministro é um simples colaborador. O patrão sou eu”. E foi assim, como colaborador na sombra, que Fillon chefiou o governo, durante cinco anos.

A passagem pelo governo francês não esteve livre, ainda assim, das suas polémicas. A primeira foi logo na nomeação da sua equipa, ao escolher para Secretário de Estado André Santini, que estava indiciado num caso de corrupção. Pela primeira vez desde que fora instituída, um governo quebrou a jurisprudência de Balladur. Esta regra instituída em 1992, dita que se um membro do governo for nomeado enquanto está envolvido num caso judicial deverá resignar ao cargo. O primeiro-ministro Fillon acabaria de facto por resignar ao cargo em 2010, mas foi novamente indicado para o lugar, nomeando uma nova equipa.

Quem é quem?

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François Fillon:

  • Data de nascimento: 4 de março de 1954
  • Educação: Mestrado em Direito Público pela Universidade de Le Mans
  • Principais cargos: Deputado à Assembleia Nacional; ministro em diversos governos; primeiro-ministro (2007-2012)

Alain Juppé:

  • Data de nascimento: 15 de agosto de 1945
  • Educação: Licenciado em Estudos Políticos, pela Instituto de Estudos Políticos de Paris, e em Administração, pela Escola Nacional de Administração.
  • Principais cargos: Presidente da câmara de Bordéus; ministro em diversos governos; primeiro-ministro (1995-1997)

 

Apesar da discrição, Fillon é conhecido por algumas posições fortes em matérias delicadas. Conservador convicto, o antigo primeiro-ministro defende o corte de 500 mil empregos na função pública ao longo dos próximos cinco anos, como forma de reduzir a despesa do Estado. Em matérias sociais, François Fillon também tem estado na ala mais conservadora. Enquanto deputado, votou contra o casamento homossexual e manifestou-se contra o aborto, tendo contado sempre com o apoio da Igreja Católica. Foi também uma das vozes mais ativas na campanha contra a procriação medicamente assistida para mulheres solteiras e casais de lésbicas.

Outro assunto em que Fillon tem mantido uma posição forte é o extremismo islâmico, chegando até a publicar um livro sobre o tema. Numa entrevista ao Le Figaro, disse que “não há um problema religioso em França, mas, sim, um problema ligado ao Islão”. Esta é uma das grandes campanhas de um homem que se revê na figura de Margaret Thatcher. Mas não é a única: Fillon quer reduzir a imigração ao mínimo e apertar a legislação no que toca à soberania nacional, que “está no coração da identidade francesa”, como tem dito.

A vida política de François Fillon, essa, já tinha começado muito antes, quando, em 1976, foi assistente de um deputado à Assembleia Nacional. Quatro anos depois, viria a tornar-se no mais jovem deputado do parlamento francês, com apenas 27 anos. Além de católico assumido, Fillon tem-se apresentado como um anglófilo, sendo casado desde 1980 com uma mulher galesa.

Alain Juppé. O “enfant” de Chirac a quem só falta o Eliseu

Juppé é apelido político em França. E o percurso político (quase não se lhe conheceu outro) de Alain Marie Juppé, 71 anos, nado e criado em Mont-de-Marsan, começou cedo — no final da década de 1970 — pela mão de Jacques Chirac. Uma mão que não largaria mais a de Juppé: é dele um “enfant”.

Alain Juppé foi bem-amado como ministro dos Negócios Estrangeiros e em outras pastas ministeriais, um mal-amado (e acossado nas ruas) como primeiro-ministro, deixou obra em Bordéus — onde foi (quase ininterruptamente) presidente da câmara desde 1995 –, mas acabaria condenado por apropriação indevida de fundos públicos. Hoje, redimido, quer retornar aos passos de Chirac e chegar ao Palácio que foi dele: o do Eliseu.

O pai, Robert, agricultor de profissão, serviu na Segunda Guerra Mundial. Foi a mãe, filha de um juiz, quem se encarregou da educação de Alain Marie, uma educação profundamente católica — chegou mesmo a ser acólito na infância. Hoje assume-se como agnóstico. Casou duas vezes. É pai de três filhos.

Sempre quis ser político. Mas é mais do que isso: é um “tecnocrata” de formação. Na faculdade, estudou ciência política primeiro e administração depois. Começou por ser inspetor da finanças. Teve a primeira afiliação partidária à esquerda. Foi uma voz insurgente no Maio de 68 e, nas presidenciais do ano seguinte, votaria no trotskista Alain Krivine. Voltou-se à direita e à política ativa com Jacques Chirac, participando em 1976 na fundação do partido deste: o Rassemblement pour la République, RPR. Foi conselheiro de Chirac enquanto Chirac foi presidente da câmara de Paris, entre 1977 e 1995.

Era cada vez mais influente no interior do partido, sendo eleito para o comité nacional do RPR. Apontaram-no para as legislativas de 1978. Perdeu. Foi braço-direito de Chirac nas presidenciais de 1981. Chirac perderia. Mas não se pense que a política para Alain Juppé terminaria com tais derrotas. Antes pelo contrário: estava a começar.

Nas legislativas de 1986 o RPR uniu-se à Union pour la Démocratie Française, UDF. Chirac venceu, seria eleito primeiro-ministro e Juppé chegaria a ministro (no caso, do Orçamento) pela primeira vez. Estávamos em 1986. Juppé viria a ser eleito secretário geral do partido em 1988. A primeira vitória eleitoral (ainda em aliança com a UDF) teve-a nas eleições europeias do ano seguinte. Mas deixaria o Parlamento Europeu meses depois.

Quem defende o quê?

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François Fillon:

  • Corte de 500 mil empregos na função pública
  • Redução da imigração e reforço das políticas de segurança interna
  • Combate ao extremismo islâmico
  • Regresso das 39 horas semanais (fim das 35 horas)

Alain Juppé:

  • Redução da tributação às empresas
  • Corte até 100 milhões na despesa pública
  • Aumento da idade legal da reforma para 65 anos

Juppé foi um europeísta. E o seu contrário. Apoiou com Chirac o Tratado de Maastricht. Mas em 1977 dir-se-ia “contra” uma Europa “tecnocrata”. Chegou mesmo a exigir, num artigo de opinião publicado em 2000 no Le Figaro, uma revisão da Constituição Europeia: queria da Europa que esta se tornasse “federal”. Em 2015, aquando da crise da divida grega, foi uma das vozes a pedir a saída da Grécia da Zona Euro.

Mas voltemos a recuar na história política de Alain Juppé. Em 1993 voltaria aos ministérios com o primeiro-ministro Édouard Balladur. Balladur atribuiu-lhe a pasta dos Negócios Estrangeiros. Foi ele, Juppé, e não Balladur ou o ministro da Defesa (Léotard), quem visitou com o presidente Mitterrand o Ruanda. Foi depois dessa visita que, nas Nações Unidas, Juppé defenderia uma intervenção militar no país, a Opération Turquoise. Não se evitou o genocício, milhares de pessoas (talvez meio milhão, talvez mais) morreram, mas salvaram-se outras tantas. Juppé é um dos rostos de tal sucesso. Poucos como ele tiveram tanto reconhecimento em França no cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Tornou-se um bem-amado.

Mas não há almoços grátis. Como presidente do RPR, e tendo que escolher um candidato a quem dar apoio nas presidenciais de 1995, escolheu Chirac e não Balladur. Chirac venceu. Alain Juppé viria a ocupar o cargo de primeiro-ministro após a saida de Balladur. O presidente diria do seu “enfant” de sempre: “É o melhor de todos nós”. Nos corredores do poder, foi aceite. Nas ruas não. Quis reformar o estado social e os franceses saíram à rua — tais manifestações não se viam desde o Maio de 68. Juppé era o primeiro-ministro menos popular em toda a história da Quinta República Francesa. Deixaria o cargo em 1997, cedendo-o ao vencedor das legislativas: Lionel Jospin.

Não foi só primeiro-ministro que deixou de ser, abandonando também a liderança do RPR.

Mas não abandonou a política. Longe disso. A reeleição de Chirac na presidência muito se deveu a Alain Juppé. Foi ele, Juppé, quem uniu o centro-direita em França à volta de Chirac, “união” que deu origem à criação da Union pour un Mouvement Populaire (UMP) — que Alain Juppé liderou entre 2002 e 2004. A sua saída em 2004, altura em que era também presidente da câmara de Bordéus, não foi uma escolha. Juppé seria condenado nesse ano a 18 meses de prisão (com pena suspensa) por apropriação indevida de fundos públicos enquanto fora líder do RPR. Ficou também proibido de exercer qualquer cargo político nos dez anos seguintes. Recorreu. E conseguiu que essa proibição fosse reduzida para um ano.

Passado esse ano — durante o qual Juppé resolveu dar aulas de administração nos Estados Unidos e Canadá –, voltou a concorrer à câmara de Bordéus. E venceu. Estávamos em 2006. Juppé dizia-se “perdoado” pelos eleitores.

E perdoado que estava, voltou a ser convidado para ministro. François Fillon deu-lhe o ministério da Ecologia e do Desenvolvimento Sustentável. Não era caso raro um antigo primeiro-ministro voltar ao governo para ocupar um cargo “menor”: aconteceu o mesmo com Michel Debré e Laurent Fabius. Mais tarde, em 2010 e com Sarkozy, outro convite para ministro, agora da Defesa — terá recusado as pastas da Justiça e do Interior. Com a demissão de Michèle Alliot-Marie, chegaria (mais um vez) a ministro dos Negócios Estrangeiros. Não, nunca se deve regressar a um lugar (ou cargo) onde se foi feliz. E Juppé seria infeliz. Ou polémico. A sua chegada ao cargo coincidiu com o despoletar da Primavera Árabe.

Juppé apoiou uma intervenção militar na Líbia. E sugeriu que Bashar el-Assad, na Síria, também viria a ser deposto, exigindo o seu julgamento no Tribunal Penal Internacional. Muitos disseram que tal posição de Juppé contribuiria para a ascensão do islamismo radical na Síria. Este respondeu, em 2011, numa entrevista ao Le Parisien: “Não estigmatizem todos aqueles que se auto-proclamam islamistas. Há pessoas com ligações ao islamismo que estão dispostas a aceitar a democracia.” Deixaria o cargo com a popularidade em baixo.

Mas, uma vez mais, os almoços não são grátis: apoiaria Sarkozy nas presidenciais de 2012, as mesmas que Hollande (o candidato do programa económico “perigoso”, como Juppé lhe chamou) venceria. Agora, a sós, é ele, Alain Juppé, quem quer chegar ao Palácio do Eliseu. A Sarkozy, Juppé deixou-o para trás nas primárias de centro-direita. Falta deixar também um velho conhecido da política, François Fillon. Mas a procissão ainda vai no adro.