A Grécia precisa de (mais) uma reestruturação da sua dívida pública que é detida pelos seus parceiros europeus, de mais austeridade e mais reformas. Só assim conseguirá um saldo primário de 3,5% do PIB, que os credores consideram necessário para colocar as finanças públicas numa trajetória sustentável, diz o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A uma semana de discutir se participa no terceiro resgate grego, vários jornais internacionais dão a conhecer uma análise confidencial que terá sido preparada para essa mesma discussão no conselho de administração do FMI. Neste relatório, o cenário traçado é novamente negro. A missão diz que, mesmo com as medidas de alívio da dívida decididas pelos países da zona euro, a Grécia precisa de uma reestruturação mais profunda, de mais reformas na sua economia e de mais austeridade.

A missão avisa que, apenas com crescimento económico, não será possível colocar as finanças públicas gregas numa trajetória sustentável. O FMI não entrou ainda no terceiro resgate à Grécia, argumentando que a dívida pública grega não é sustentável e que sem uma profunda reestruturação e mais medidas o Fundo não pode legalmente fazer parte deste novo esforço. Apesar de não participar com dinheiro, o FMI manteve o seu papel na chamada troika, uma exigência dos parceiros europeus.

Nas contas do FMI, segundo o Financial Times, a dívida pública grega até estabilizaria em valores perto dos 170% do PIB até 2020, mas daí em diante escalaria de forma dramática, caso nada fosse feito, até aos 275% do PIB até ao ano de 2060.

No entanto, em Atenas, a presença do FMI no resgate não é bem vista. O governo de Alexis Tsipras não quer que o FMI entre no resgate porque a posição do Fundo tem sido sempre mais dura que a do lado europeu. O governo grego entende que a Grécia não precisa de mais austeridade, o Fundo diz que sem esta não será possível atingir as metas. No meio disto, a Grécia ainda não conseguiu fechar a segunda revisão trimestral de um terceiro resgate que já começou há ano e meio.

Os parceiros europeus têm sido intransigentes na sua insistência que o Fundo tem de participar no resgate e isso permitiu que a Grécia e a zona euro chegassem a acordo sobre mais medidas para aliviar a sua dívida pública. As medidas de curto prazo, uma redução dos juros a pagar e um aumento dos prazos de pagamento dos empréstimos europeus, foram avaliados pelo diretor do departamento europeu do FMI como o necessário para que o Fundo aceitasse participar no resgate, mas esta decisão só vai ser discutida no dia 6 de fevereiro.

Em Atenas, a situação do primeiro-ministro é mais complicada. Muito contestado internamente, Alexis Tsipras vê-se agora numa encruzilhada: avançar com mais austeridade para conseguir um acordo em Bruxelas que permita fechar a segunda revisão e a entrada do FMI (que não quer) pode lhe custar a pouca popularidade que lhe resta a nível interno; não fechar a segunda revisão pode deixar a Grécia novamente exposta à turbulência dos mercados e sem dinheiro para que o Estado funcione.

Do seu lado, Alexis Tsipras tem dois trunfos para jogar. Na Europa, Alexis Tsipras mostrou mais crescimento e um saldo primário melhor que o esperado. A nível interno, Tsipras deu um bónus entre os 300 e os 800 euros aos pensionistas 1,6 milhões de euros de pensionistas com rendimentos inferiores a 800 euros no final do ano passado, cancelou o aumento previsto no IVA nas ilhas do Egeu e contratou mais cinco mil médicos e enfermeiros para o serviço nacional de saúde grego.

Em resposta às notícias relativas ao relatório do FMI, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, o fundo que emite e gere o empréstimo à Grécia, diz que a dívida grega é gerível e que programa acordado entre a Grécia e os países do euro coloca as finanças públicas gregas numa trajetória sustentável, para além de que estão já delineadas medidas de contingência caso aconteça algum imprevisto.

O fundo de resgate do euro relembra ainda a promessa dos países do euro à Grécia que, caso se verifique que a dívida grega não é sustentável no final do resgate, se a Grécia cumprir o programa até ao fim e implementar as medidas que lhe são exigidas, então aí, e só aí, estarão dispostos a discutir uma nova reestruturação.

(Artigo atualizado às 10h03 com reação do Mecanismo Europeu de Estabilidade)