A comissão de trabalhadores, um sindicato afeto à UGT e outros dois sindicatos independentes estão à espera da reunião de emergência que pediram esta segunda-feira de manhã ao PCP para serem esclarecidos sobre o porquê da apreciação parlamentar à municipalização dos serviços da Carris. Os comunistas não abrem o jogo sobre se, com esta iniciativa, pretendem apenas apresentar propostas de alteração ao que vai acontecer a partir do dia 1 de fevereiro ou se querem travar o diploma. Enquanto esperam por resposta, os sindicatos atiram-se ao PCP que acusam de estar a agir contra a vontade da maioria dos trabalhadores da Carris.

As acusações dos sindicatos em causa são fortes, nesta colisão pouco comum entre sindicatos/trabalhadores e comunistas. Logo de manhã, os sindicatos reuniram-se para pedir uma reunião de urgência ao grupo parlamentar do PCP, ao fim do dia emitiram um comunicado conjunto: a municipalização da Carris “é a solução que melhor serve os trabalhadores”. A nota enviada à comunicação social é assinada pela Comissão de Trabalhadores da Carris, o Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes (afeto à UGT), o Sindicato Nacional dos Motoristas e Associação Sindical do Pessoal de Tráfego da Carris (os dois últimos são independentes).

Em declarações ao Observador, todos reclamam a falta de legitimidade do PCP em falar em nome dos trabalhadores, neste caso concreto. O Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos (STRUP) é o sindicato da área que é afeto à CGTP, mas “representa uma franja muito pequena dos trabalhadores da Carris”, diz Manuel Oliveira, do sindicato dos Motoristas, e “está em perfeita sintonia com o PCP”, sublinha. Paulo Gonçalves, da Comissão de Trabalhadores, garante o mesmo: “O PCP não tem legitimidade, os sindicatos afetos à CGTP representam entre 200 e 220 trabalhadores da Carris”. E ambos asseguram que o grupo que se reuniu esta segunda-feira “representa para cima de 95% dos trabalhadores” da empresa de transportes da zona urbana de Lisboa. “Nunca o PCP nos chamou para perguntar opinião”. A frase é de Paulo Gonçalves e Manuel Oliveira junta-se no ataque à falta de legitimidade dos comunistas: “Para a próxima perguntem aos trabalhadores”.

No mínimo é estranho, porque o Sindicato dos Motoristas esteve reunido não há muito tempo com o PCP e nunca houve uma palavra do PCP sobre isto. É de mau tom. Se eles querem defender o interesse dos trabalhadores, ao menos que tivessem a gentileza de perguntar às organizações que os representam o que os trabalhadores pensam”, reclama o Sindicato dos Motoristas.

Os sindicatos em causa querem que a gestão da Carris passe para a Câmara a 1 de fevereiro (quarta-feira), como está previsto no diploma promulgado pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa no penúltimo dia de 2016, e temem que este sobressalto possa vir a dificultar o processo. “Não podemos permitir que o PCP instale nos trabalhadores clima de insegurança e ansiedade”. Manuel Oliveira diz que este era um assunto encerrado e a apreciação parlamentar pedida pelos comunistas, “a acontecer a poucas horas da transferência da gestão para a Câmara causou enorme turbilhão na Carris”. Paulo Gonçalves questiona: “Porquê agora?”. E mostra-se convencido da intenção comunista: “Pelo que vamos sabendo o que o PCP pretende é deitar o processo abaixo”.

Um dos receios que temos é que não avance. Os trabalhadores estão há seis, sete anos em sobressalto. Agora quando julgávamos que a questão estava pacificada acontece este imprevisto. O PCP tem de explicar-se aos trabalhadores”, desafia o representante dos trabalhadores.

Sérgio Monte, do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes (SITRA), “estranha” a posição do PCP que “vem aqui criar uma reprise da TSU e impede o Governo de governar”. O secretário-geral da estrutura sindical admite a “legitimidade do PCP” de avançar com a iniciativa parlamentar, mas atira com violência ao partido a situação dos transportes municipalizados do Barreiro, terra comunista. “A menos que o PCP tenha medo que em Lisboa a câmara faça o que eles fizeram no Barreiro…” O quê? “Pagavam salários muito baixos e a frota não tinha as melhores condições”.

Comunistas têm apreciação sobre STCP pendurada desde dezembro

Os comunistas não respondem às críticas, questionados pelo Observador remeteram para as declarações feitas por um dirigente do partido que não vai abrir o jogo até ao debate da apreciação parlamentar Essa discussão ainda não está marcada, aliás, como também mantêm por marcar a apreciação, que entrou no Parlamento a 21 de dezembro (e já foi admitida pelos serviços), sobre a “descentralização, parcial e temporária, de competências de autoridade de transportes, do Estado para a Área Metropolitana do Porto” do STCP. Já houve várias oportunidades (reuniões da Conferência de Líderes), desde essa altura, para o PCP agendar a iniciativa, mas até agora não o fez.

Numa conferência de imprensa da sede do PCP, o dirigente João Frazão, insistiu na ideia da Carris no Estado central. “Pode haver sempre soluções para manter a Carris no setor empresarial do Estado e corresponder aos objetivos que definimos. Há sempre soluções, desde que haja interesse e vontade”. Tem sido a posição sempre assumida pelo partido nesta matéria e o PCP já tinha avisado, num debate na semana passada no Parlamento, que iria avançar com uma iniciativa. Mas os comunistas garantem que a questão não abala a maioria de esquerda:

Pela clareza de posições, pela seriedade com que o PCP está nesta matéria, pela coerência com que intervém na defesa dos transportes públicos, populações e trabalhadores da Carris, seria muito estranho que esta posição do PCP pusesse em causa qualquer situação, a não ser a municipalização da Carris”, dizem os comunistas para negar problemas no apoio ao Governo.

Depois de avançar com a apreciação parlamentar, o PCP pode avançar com projetos de alteração ao diploma original ou então pedir a sua revogação, mas João Frazão não esclarece o que farão os comunistas e empurra o assunto mais para diante. “Essa decisão será tomada a seu tempo, não está tomada. Interviremos para garantir esses objetivos”, disse citado pela Lusa.

Ao contrário do que aconteceu na TSU, desta vez a esquerda à esquerda do PS não estará unida, caso o PCP avance com um pedido de recuo do Governo, já que o Bloco de Esquerda acolhe a gestão municipalizada da Carris. Ou seja, o PCP precisaria da ajuda do PSD e do CDS, mas ambos os partidos querem primeiro saber os que os comunistas pretendem fazer. Já o Governo garantiu, via secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em declarações ao Expresso, “que não haverá nenhum problema com a transferência da Carris a 1 de fevereiro”. Fernando Medina mostrou semelhante fé, em declarações aos jornalistas na tarde desta segunda-feira. É a partir da próxima quarta-feira que começam a valer os descontos que o autarca anunciou quando assinou com o Governo o Memorando em que a câmara assumiu a gestão da Carris.